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Conferência proferida na Universidade
Federal do Rio de Janeiro - UFRJ, no encerramento do 2o. Congresso
da Ciência da Literatura, dia 23/10/2002, sobre o espaço
da cidade/ o espaço da escrita.
Quando a Cidade Faz Esquina com a Escrita
Antônio Torres
A fronteira crepuscular entre o sono e a vigília era, neste
momento, romana: fontes salpicando e ruas estreitas com arcos. A
dourada e pródiga cidade de flores e pedra polida pelos anos.
Às vezes, em sua semiconsciência, estava outra vez
em Paris, ou entre escombros de guerra alemães, ou esquiando
na Suíça e num hotel entre a neve. Algumas vezes,
também, era um barbeiro da Geórgia, certa madrugada
em casa. Era Roma esta manhã, na região sem tempo
dos sonhos.
Carson McCullers, O Transeunte
Das cidades de sonho dos contos orientais às descritas por
Marco Polo em O Livro das Maravilhas, das "invisíveis"
de Ítalo Calvino à visibilíssima do nosso Paulo
Lins, a civitas, ou polis, ou urbe, sempre foi, é e sempre
será um espaço para fabulações. "Continente
das experiências humanas, com as quais está em permanente
tensão, como ambiente construído, como necessidade
histórica, ela é o resultado da imaginação
e do trabalho coletivo do homem que desafia a natureza," no
dizer de Renato Cordeiro Gomes, autor de Todas as Cidades, a Cidade.
Eis aí o seu real significado para os escritores: um laboratório.
De aprendizagem, experimentações, riscos, alegrias,
decepções, inseguranças, ralações,
derrapagens, trombadas - com quem você bateu de frente, hoje?
-, frivolidades, "papo urbano e impopular" (copyright
para o finado Scott Fitzgerald), papo cabeça, papo Jesus,
medo, terror, competições, ultrapassagens. É
pegar isso e bater no liqüidificador. Como quem pega um limão
e faz a limonada.
Edmund Wilson, o crítico literário norte-americano
que sempre soube o que dizia, disse uma vez que só existem
três personagens na literatura ocidental.
Primeiro: o que vai do campo para a cidade e se deixa seduzir por
ela.
Segundo: o que faz o mesmo percurso, não se encanta com a
cidade e volta para a sua aldeia.
Terceiro: o da cidade.
Donde podemos concluir que, se a cidade dá espaço
para a escrita, esta lhe dá voz. E constrói-lhe o
mito.
Já desconfiava disso muito antes de ler Edmund Wilson. Nasci
na roça. Mas com a cabeça, a alma e o coração
povoados de cidades.
Há a Cidade Eterna, a Cidade Santa (Jerusalém, para
uns, Meca, para outros), a Cidade Maravilhosa, a Grande Maçã,
a Santa Maria Reina de los Angeles e a Santa Maria de Belém
do Grão Pará, a de São Salvador e a de Saint-Georges
de l'Oyapock, na fronteira da França com o Amapá,
onde diariamente crianças brasileiras atravessam um rio largo
e profundo para estudar francês, na esperança de um
dia poderem trocar o verde e vago mundo da selva amazônica
pelo spleen da Cidade Luz.
Reais ou imaginárias, há as utópicas, as que
têm alma, as bonitas e as feias, as alegres e as tristes,
as invictas, as heróicas, as complexas (São Paulo,
por exemplo), as pobres de dar dó e as com a voz cheia de
dinheiro (São Paulo também, para os nordestinos),
as hospitaleiras e as que convém nem passar perto, as de
paz (como o Rio) e as de guerra (idem), as onde o Judas perdeu as
botas ou o vento faz a curva, as que nunca viram uma gota de chuva
(Lima, Peru), as habitadas por fantasmas, como uma chamada Comala,
inventada pelo mexicano Juan Rulfo em "Pedro Páramo,"
sem esquecer "A cidade do desassossego," de Gogol, "A
cidade de vidro," de Paul Auster, a "Cidade perdida"
e a "Babilônia revisitada," do já citado
Scott Fitzgerald, que me fez conhecer o bar do Ritz, onde nunca
estive, em Paris, cidade, aliás, que o leitor aqui já
conhecia antes de pôr os pés lá, graças
às páginas de Hemingway, Henry Miller, Proust e Boris
Vian. Para nós, os leitores, que importância teria
Praga sem Kafka, e Dublin sem James Joyce? Se o Rio de Machado de
Assis não existe mais (no entanto é preciso lê-lo,
para sabê-lo), Rubem Fonseca nos coloca cara a cara com a
sua alta voltagem contemporânea.
Agora, as outras que me perdoem, mas lendária mesmo foi Axuhy,
a cidade dos escravos fugidos como protesto à desumanidade
do chicote de seus ferozes senhores, e que se tornaram muito ricos
graças às audácias de seus saques. A lenda
transformou-a num quilombo encantado, lá para as bandas dos
campos da Lagarteira, perto das imensas dunas brancas dos Lençóis
Grandes, às margens da lagoa do Caço, ao leste da
capitania do Maranhão.
Era uma das muitas fábulas que corriam
sobre os negros fugitivos. E acabou se tornando um dos episódios
mais patéticos da história colonial portuguesa no
Brasil. Quem contou isso foi Viriato Correa, em seu livro "Terra
de Santa Cruz."
O tenente-coronel João Paulo Carneiro tinha um escravo, o
Nicolau, que mentia pelos cotovelos. Por isso vivia no tronco, de
lombo retalhado pelo chicote. Mal saía do castigo, voltava
a mentir. E de novo era castigado.
Um dia o negro Nicolau conseguiu fugir. Passou-se muito tempo sem
que ninguém lhe pusesse as mãos.
Numa noite do ano de 1794, ele voltou a São Luís,
mesmo sabendo que se fosse apanhado ia levar uma surra de esfolar
o couro.
Na manhã seguinte, quando o governador Fernando Antônio
de Noronha saía de seus aposentos no palácio, deu
de cara com o Nicolau, que se ajoelhou aos seus pés, implorando-lhe
que o livrasse da morte. E narrou-lhe uma história fantástica.
Fugindo do chicote do coronel João Carneiro, ele embrenhara-se
pelas matas a dentro do rio Munim, no rumo dos quilombados da Lagarteira.
Seria verdade ou mentira o afamado mocambo dos negros? Depois de
muitos dias amargos, perdido entre os cerrados, oh, beleza!, oh
alegria! Inesperadamente, acabou entrando na cidade de Axuhy, escondida
num bosque, às margens frescas da lagoa do Caço.
Os olhos do governador - que Viriato Correa descreve como uma soleníssima
cavalgadura - brilhavam. E como era a cidade de Axuhy?
- Perto dela São Luís é
uma pobre aldeia - respondeu-lhe Nicolau, com todo o encanto e poder
de convencimento dos grandes mentirosos.
Prosseguiu:
Não havia na capital maranhense uma única rua como
as muitas que vira em Axuhy, cheias de palácios, de ponta
a ponta. Não havia ali nenhuma igreja comparável à
da cidade dos campos da Lagarteira, não só pelo tamanho
como pela riqueza. No altar-mor do templo de Axuhy erguia-se uma
imagem da Virgem da Conceição, toda ela de ouro maciço.
- De ouro maciço? - o governador perguntou-lhe, de olhos
arregalados.
- Sim, senhor. De ouro maciço e do tamanho de uma mulher
bem alta.
E isso não era tudo. Em Axuhy não havia ninguém
pobre. Lá, andava-se pelas ruas pisando em ouro e prata.
O mais inferior de seus habitantes tinha arcas e arcas abarrotadas
de moedas. E tanta era a riqueza da cidade, que a água da
lagoa era bebida em cuias de ouro. Havia lá um padre jesuíta
que cuidava da igreja. Os negros faziam negócios ocultos
com os figurões de São Luís. E estes já
sabiam que ele, o Nicolau, havia estado lá. Receiosos de
que o segredo fosse revelado, queriam matá-lo. Só
lhe restava a esperança de que o governador o salvasse.
E então, naquele exato momento, dom Fernando Antônio
de Noronha, fidalgo, tenente-coronel do regimento da corte portuguesa,
membro do conselho da rainha e governador do Maranhão, traçou
um plano. Ia enviar um contingente militar para a conquista da fabulosa
cidade. Nicolau ia ser o guia e um dos comandantes do seu exército,
na caça ao tesouro de Axuhy. O escravo fugitivo foi nomeado
capitão de milícias, imediatamente. Saiu do palácio
fardado, com espada à cinta e penacho. Atrás dele,
vinha o seu ordenança, guardando a devida distância
do altivo chefe.
São Luís inteira caiu na gargalhada.
Ele não ligou. Nem o governador deu ouvidos a quem lhe lembrava
da fama de mentiroso de Nicolau. Dom Fernando Antônio tinha
pressa em armar dois mil homens, entre tropa de linha, milícias,
pedestres e índios de serviço. Com tanta providência
a tomar, não ia perder tempo com os fofoqueiros.
Enquanto isso o negro ia à forra. Deixou de falar com os
seus iguais. Agora, com empáfia na voz e na figura, apertava
a mão dos brancos na rua, abraçando as autoridades
condescendentemente. Pôs-se a prender muita gente boa, a pretexto
de comércio oculto com os negros de Axuhy. São Luís
passou a temê-lo. Nicolau começou a ser convidado para
festas e banquetes, nas casas dos ricos. Sentava-se à mesa
como um figurão, bebia e comia do bom e do melhor e depois
passava à sala, para conversar e namorar as moças
brancas. E cada vez mais ganhava a confiança do governador,
de quem se tornara o mais importante de seus auxiliares.
No dia 3 de agosto de 1794, a cidade de São Luís assistiu
ao espetáculo imponente do embarque das tropas, divididas
em dois grupos: um, tendo Nicolau como guia, seguiu por terra, pelas
margens do rio Munim, com o negro falando muito e animando a todos
na longa marcha. O outro ia pelo mar. Mas, na véspera de
avistarem os campos da Lagarteira e formarem fileiras para o ataque
a Axuhy, ninguém mais viu Nicolau. Procuraram por ele durante
três dias. Em vão. Nicolau havia fugido. As tropas
se perderam na mata, vencidas pela fome e o cansaço. Ainda
assim acabaram por acertar o caminho de volta, mortas de vergonha.
O desembarque em São Luís foi feito à noite,
às escondidas, nas praias mais escuras.
E era uma vez Axuhy, a cidade coberta de ouro.
O governador, porém, não se deu por vencido.
Em seu relato à corte portuguesa sobre a volta das tropas,
alegou que "depois de fazerem o seu passeio com todas as regras
da tática, elas se haviam recolhido por não ser própria
a estação, produzindo o passeio, apesar disso, um
grande efeito moral."
A brincadeira do Nicolau custou-lhe caro. Anos depois, o seu antigo
senhor o prendeu, trancafiando-o numa prisão perpétua.
Não, não foi ele quem inventou a lenda da cidade encantada.
Mas deu-lhe brilho. Como um narrador memorável. Um mentiroso
genial.
O espaço da cidade é o da fábula, da memória,
da história, do mapa, da arte, da moda, da biografia, do
trabalho, do estudo, do vizinho, do lazer, do sonho de quem nasceu
no campo, da violência etc.
Surgida na Suméria no terceiro milênio a.C., ela viria
a aglomerar a população num núcleo urbano e
organizá-lo num conjunto político e econômico.
Foram, porém, os antigos gregos que lhe deram uma estrutura
acabada, permitindo o surgimento de uma florescente civilização,
entre o VII e o IV séculos a.C. Na Antigüidade, o seu
assentamento se fazia a partir de um ponto fortificado, como medida
de defesa. Na Idade Média e nos Tempos Modernos, a Europa
conhece o esplendor das cidades flamengas, alemãs, italianas
etc. As metrópoles do mundo - Londres, Paris, Nova York,
Tóquio, Moscou - chegam ao apogeu na era industrial, que
faz o homem do campo marchar para a cidade, num fluxo migratório
que nunca mais iria ter fim. Hoje, são cerca de duzentas
cidades com mais de um milhão de habitantes, e mais de vinte
acima dos 5 milhões, boa parte delas na América Latina
(Cidade do México, São Paulo, Rio de Janeiro, Buenos
Aires), Ásia (Xangai, Calcutá, Bombaim, Déli,
Karachi) e África (Cairo, Lagos, Kinshasa). O mundo se torna
cada vez mais urbano e a urbe um espaço problemático:
já não há lugar para todos.
E aqui chegamos ao nosso tempo.
Esta é a estória. Ia um menino,
com os Tios, passar dias no lugar onde se construía a grande
cidade. Era uma viagem inventada no feliz; para ele produzia-se
em caso de sonho. Saíam ainda com o escuro, o ar fino de
cheiros desconhecidos. A Mãe e o Pai vinham trazê-lo
ao aeroporto. A Tia e o Tio tomavam conta dele, justinhamente. Sorria-se,
saudava-se, todos se ouviam e falavam. O avião era da Companhia,
especial, de quatro lugares.
Respondiam-lhe a todas as perguntas, até
o piloto conversou com ele. O vôo ia ser pouco mais de duas
horas. O menino fremia no acorçôo, alegre de se rir
para si, confortavelzinho. A vida podia às vezes raiar numa
verdade extraordinária. Mesmo o afivelarem-lhe o cinto de
segurança virava forte afago, de proteção,
e logo novo senso de esperança: ao não-sabido, ao
mais.
E esta é uma história facilmente identificável,
tanto quanto a grande cidade que "apenas começava a
fazer-se, num semi-ermo, no chapadão," pois saímos
da leitura de "As Margens da Alegria", o conto magistral
de João Guimarães Rosa, certos de que se trata da
construção da nova capital do País, cujo princípio,
aos olhos daquele menino, foi o caos. Ao descer do seu "móvel
mundo," ele iria defrontar-se com um cenário de destruição
e morte da fauna e flora. Um espaço em desencanto, onde tudo
"perdia a eternidade." O sonho, a esperança - não
era o que Brasília representava? -, anuviavam-se na poeira,
reduzidos a pontos de interrogação, "no seu pensamentozinho,
ainda na fase hieroglífica."
Metaforicamente recorro aqui ao engenho e arte de Guimarães
Rosa para tentar dizer alguma coisa sobre o sonho modernizante deste
País, a partir da era JK, quando governar era construir cidades
e abrir estradas. Quando tínhamos todos de trocar a lida
agrária pela vida urbana, a enxada pelos andaimes dos arranha-céus,
o arado pelas britadeiras, o carro de bois pelos caminhões,
o jegue e o cavalo pelos automóveis, a casa de sopapo e de
alvenaria pelos barracos nas favelas, o candeeiro pela lâmpada,
o pote d'água pela torneira, a rede pelo colchão de
molas, o trabalho sem vínculo empregatício pela carteira
assinada, a solidão dos ermos sertões pelo enxame
das ruas; era deixar para trás o mundo arcaico e subir num
pau-de-arara, com destino ao progresso, à civilização.
De preferência, em São Paulo-Paraná. Melhor
ainda: no ABC paulista, onde se construía o Brasil móvel,
o nosso sonho movido a gasolina e óleo diesel.
Parece que foi ontem. E foi. Eu me recordo.
Meninos, eu vi a chegada do primeiro caminhão. O impacto
foi maior do que as imagens na TV do homem pisando na Lua.
Primeiro, foi a visão fantasmagórica de dois imensos
olhos acesos que apontaram de repente na Ladeira Grande. Depois,
a inquietação para saber-se de que se tratava o estranho
objeto luminoso, mais amedrontador do que o fogo-fátuo, pois
roncava e emitia sons de um instrumento musical desconhecido naquelas
brenhas - fon-fon -, aumentando de intensidade à medida em
que o objeto não-identificado se aproximava. E ele chegou
mesmo, como um celerado. Volumoso, poderoso, assombroso. Mas temente
a Deus, pois passou a tocar um bendito: "Louvando a Maria,
o povo fiel..." Parecia querer anunciar-se como um enviado
dos céus.
Para o menino desta história, foi um Deus-nos-acuda. Pedi
pernas para correr e me esconder daquela assombração,
muito mais apavorante do que as histórias de zumbis, lobisomens,
mulas sem-cabeça, boitatás, almas penadas, gralhas
mal-assombradas.
Na manhã seguinte lá estava ele, repousando debaixo
de uma árvore. Grandão e perigoso. Mesmo de longe
o bicho dava medo. Mantendo distância, aos poucos o menino
foi se informando do que se tratava. Mas só fui me dar conta
da revolução que a chegada do caminhão causara
àquele remoto sertão muito tempo depois.
Ele espalhou nos nossos ares o cheiro da gasolina. As garotas do
lugar endoideceram. Ninguém ali cheirava igual ao motorista
do caminhão. Nem se vestia do seu jeito e falava ao seu modo.
Tabaréus da roça, nunca mais. Agora elas ficavam de
olho na Ladeira Grande, esperando algum rapaz da cidade. Humilhados
e ofendidos, nós, os indesejados rapazes da roça,
assim que vestíamos umas mal-ajambradas calças compridas
e nos sentíamos próximos da idade adulta, passávamos
a sonhar em dar o fora. Queríamos ser como ele, o motorista.
A chegada do caminhão era o corte epistemológico do
sertão.
Tinha de acontecer. Um dia eu também ia subir num caminhão
no rumo de uma cidade. E depois da primeira veio a segunda, a terceira,
e outra e mais outra. Até chegar aqui, para contar a história.
Comecemos pelo aeroporto Santos Dumont, onde um dia um rapaz de
vinte anos chegou, olhou a cidade de longe e foi embora. Eu me lembro:
era uma bela tarde de janeiro, o mês do Rio. Céu de
brigadeiro. O esplêndido azul de Machado de Assis. O azul
demais de Vinícius de Moraes. Ano: 1961. O passageiro estava
em trânsito. Vinha da Bahia com destino a São Paulo.
Desceu aqui para fazer uma conexão, depois de cinco horas
preso numa cadeira de uma geringonça ensurdecedora e vagarosa,
relíquia aeronáutica da Segunda Grande Guerra. Um
pau-de-arara do ar chamado curtis commander que, mal avistava uma
pista de aterrissagem, ia baixando. Descer no Rio havia sido uma
bênção. Para os seus ouvidos, suas pernas, seus
olhos. Assim o vejo: olhando a cidade por trás dos vidros
que o enjaulavam no saguão do aeroporto, enquanto aguardava
a chamada para o embarque. Azul era também a cor do seu paletó.
Ele estava convenientemente vestido para a sua primeira viagem de
avião.
Trajava até uma gravata vermelha sobre
uma camisa branca. E os seus sapatos espelhavam, de tão bem
lustrados. Numa das mãos, portava uma maleta com tudo o que
possuía de seu, aos vinte anos - o que incluía meia
dúzia de livros - além da roupa do corpo. Já
que não podia sair, contentou-se em olhar à distância
a cidade que só conhecia de prosa e verso, cinema e canções.
E tudo nela, que vinha dela, o fascinava. E dava medo. Imaginava-a
fora da rota dos imigrantes, inatingível para principiantes.
O Rio era a corte - dos sabidos e malandros. Suas artes e letras,
sua natureza deslumbrante o atraíam. "Deus fez o mundo
em sete dias, dos quais tirou um para fazer o Rio de Janeiro,"
dizia a voz de ouro de Luiz Jatobá, num documentário
de Jean-Manzon. Mas a manchete do jornal comprado na banca do aeroporto
o amedrontava. Era sobre uma operação de extermínio
chamada de mata-mendigo. E ali estava ele, entre duas visões
da cidade: uma sedutora, outra assustadora. Teve vontade de ficar.
A chamada para o vôo o levou em frente. Tinha que ir para
São Paulo. Assim estava escrito na sua passagem. Era um baiano
do interior, um tímido roceiro, e estava indo para a locomotiva
da nação, onde sempre haveria de caber mais um. Voltaria
ao Rio um dia, para vê-lo de perto, entrar nele, conhecê-lo
nas solas dos seus sapatos, se para tanto não lhe faltasse
coragem. E algum preparo. O Rio não era uma cidade para capiaus,
tabaréus da roça.
Trinta e cinco anos depois, um passageiro diário das linhas
urbanas Copacabana-Centro, Centro-Copacabana vai retornar ao Santos
Dumont. A pé. Para tentar descobrir o que foi mesmo o que
aquele garoto interiorano viu - e se por um momento poderiam voltar
a ser a mesma pessoa, ainda capaz de ver a cidade com um olhar de
novidade.
(O Centro das Nossas Desatenções)
A história continua. Dia após
dia a cidade abre espaço para a escrita dos que chegam, atraídos
pelas suas luzes verdes, seu orgiástico futuro. Se tudo for
uma ilusão, pouco importa. Procuraremos fazer disso uma ficção.
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