Prelúdio
a Conessa
Carlos Tavares
"Floresci no meu olho tua lágrima
Murmurei nos meus lábios tua boca
Encostei na minha alma tua fome
Caminhei nas minhas noites teu destino
Cheguei à minha mão a tua porta".
Marilda Soares
Ontem à noite sonhei que chorava pensando
em você e assim pude escrever esse sonho, nossa história,
parte de tudo que somos sem fim, sem começo, sem ponto final
até que tudo acabe onde tudo começará outra
vez.
Nada, enfim, encontrava ao certo na mobília da memória
embaçada que o delírio do sono em geral confere e
eterniza quando o terror se instala e não há mais
nada a fazer, a não ser esperar, aguardar um sinal ou o momento
tão necessário do redespertar para a vida: nossa ilha
de impossíveis brisas, que flutua entre pontes de espumas
e se reduz aos búzios do coração ante nossos
mais profundos desejos.
O acidente amargo desse destino eu mesmo teci, ao engendrar viagens
ao salto do nada, intentar o navego à deriva, à tua
procura, e agora o náufrago bêbado desponta nos penedos
do pesadelo; desbrava o terreno da ilusão, esse lunário
de lãs, estrelas, bandejas de luz em que te vejo!
Buscava, mas nada encontrava naquele parque de sombras. Tateava,
procurava no sonho ao menos uma réstia que fosse parecida
contigo, mas nada achava. Nas janelas, duas ou três peças
íntimas impregnadas do aroma adocicado da noite quando mal
descerramos as cortinas; o aro prateado do sol hasteava no horizonte
as flâmulas de uma nova manhã que renasce entre o brilho
tênue da madrugada e a explosão de uma lembrança
ensolarada. Mas era a sombra, de novo, que me perseguia na garganta
das noites. Vinhas e sumias, ecos de mim! Estavas presa em uma espécie
de biombo que se multiplicava à medida que eu expandia a
caminhada; via à distância vultos em turba ensandecida
a correrem em nossa direção. Procurava escondê-la,
tentava afastá-la dos biombos, mas os biombos se enredavam
e formavam uma teia, imenso labirinto de alças escorregadias.
Agora escutava apenas a tua voz pedindo socorro, ouvia o vozerio
dos vultos cada vez mais próximo, e em seguida o apito de
um trem. Tentava puxar o cordão do interruptor, mas tocava
a parede áspera do quarto, imaginava que estava gritando,
quase sufocando, a ponto de começar a estremecer sobre o
leito, quando fui acordado pelas enfermeiras. - Acorde, acorde!
Era uma manhã faiscante, ariosa - com seus pássaros
inquietos e saltitantes. Custamos a crer ser tudo aquilo uma parte
do enredo de nossos corpos, nossos olhos, na realidade, ou se tudo
de fato não passava de um sonho. Essa esquisita sensação
de que, naquele instante, o mundo deveria terminar para os outros,
lá fora, nunca para nós, que criamos essa história
de beleza e dor nos ardis de nossos corações.
Sabia que estava pronto, deveria escrever a nossa história,
sobretudo agora, nessa manhã, a décima manhã
do abandono, o décimo dia sem Conessa; sem suas mãos,
os lenços de seu olhar, o aceno negro de seus cabelos e a
sua sombra sumindo nas esquinas, indo ao encontro certamente de
outros vultos, outros tempos, outras esquinas enevoadas, espaço
ideal para testarmos, às vezes, nossa própria tendência
a ser fantasmas do efêmero e da certeza do fim.
Penso agora nos dentes suaves, brancos de Conessa, seus dedos sedosos
varrendo meu corpo eletrizado por espasmos transitórios,
elevando-me ao nicho mais alto das estrelas e dos cometas incandescentes,
fazendo-me evoluir da aspereza da solidão à carícia
da eternidade, naquele momento de insuspeitados túneis de
pele, carne, suores e urros, toques de profunda leveza sobre um
verdadeiro pomar de luzes que ainda agora dançam, espocam
e se confundem com os suspiros dos astros, na escalada sutil de
ombros e espáduas, teus esses, teus silvos, teus braços
ávidos a tatear o resumo desse instante na planície
iluminada dos lençóis, essas costas de brancura inefável,
tuas espáduas nuas, essa camada de pele pintalgada de pequenos
círculos eriçados, tatuados pelos rastros dos meus
lábios celebram, no meu vácuo azulado e triste, a
trilha das preces que um dia desfiei nos frisos do teu prisma: sem
a interferência das sombras, do medo e do pavor da perda,
sem me importar com as bússolas da razão - preferia
sucumbir nas valas do desvario.
Convenço-me cada vez mais sobre o poder da palavra e do corpo
que me concedem agora a graça do delírio para recompor
o meu mundo de ventres em desalinho no advento lunar da última
noite.
A febre
Após a pausa da noite, prossigo observando-lhe as coxas alagadas
pelo orvalho que desce dos meus olhos, o bailado sôfrego das
ancas que se envergam ao sabor do sereno de mais uma estrofe que
se derrama no leito de sementes invisíveis, seus pés
a caminhar sobre os meus, as mãos entre as mãos, a
dupla estátua que se materializa no abraço interminável,
as unhas sobre o meu tórax, meu corpo de arrepios, minha
vida na dança da euforia, teu alento, teu regaço;
imperceptíveis os toques da minha flama nos seixos de tua
febre que rolam pelas minhas mãos, pelos nossos corpos arremessados
ao som de uma ária de aroma inefável que vibra e arde
nas conchas de teus seios.
Agora me diga, Conessa, em que dobra do infinito, caminhas aos recôncavos
mais remotos do nosso amanhecer; estarás, enfim, mesmo distante
a me espetar nas sendas desse jorro? Tu te debruças sobre
o nosso futuro ocaso como uma cigana que carrega o plenilúnio
nas mãos e o equinócio no olhar para cavalgar o mundo
em pelo nos albedos dos teus olhos. O nosso mundo - "sei que
estás aqui" -, tenho tanta certeza disso como desse
texto inacabado. Você me avisou que nada em nós teria
sentido sem essa palavra, essa comunhão de sangue e verbo,
as polpas encarnadas das letras da tua carne, as frutas que travo
nas tuas mãos no vazio dos meus dias, nas páginas
que singro aos oásis de um certo poema que um dia inventamos,
tão próximos estávamos na cor de tua saliva
a derramar-se nas alças de um arco-íris que costumávamos
entortar ao operar o êxtase dos lírios e das estrelas;
vejo, sim, apesar do nevoeiro que baixou sobre o meu sonho, essa
constelação que voa e aterrissa nas minhas trilhas
desgastadas de tantas caminhadas sem rumo pela penumbra da dor,
por essa paisagem de ânsia, irisada pelos rubores da realidade.
Não sei, Conessa, o rumo que seguirei, a estrela que te guiou,
talvez seja a mesma que me aponta a rigidez dessa trama; a janela
que se abriu e mostrou teu sorriso por um só segundo recebe
as aragens do sonho para eternizar esse momento; sei apenas que
nada me fará arredar das escalas dessa estrada, tua pele
macia, teu olhar que no meu olhar emoldura a vida nas tuas pupilas!
Os biombos negros agora sumiram, as alças do labirinto se
desmancharam no ar, os arcos do túnel escuro viraram fios
coloridos de luz, os pântanos que me cercavam também
desapareceram e agora os pássaros cantam, peixes nadam no
aquário que imagino conter as pérolas dessa canção:
Conessa! Conessa!
Desolação
Esse estado agônico de ser, essa condição trágica
de recusar a paz e viver em guerra contra mim mesmo, essa mania
de destruir tudo o que se equilibra sobre as vigas da razão,
a tendência ao sacrifício, que marca o meu caráter
na vida e no jogo, a antipatia crônica contra o mundo legal,
moral, ético da burguesia, essa inquietação,
esse sopro ácido de angústia, essa tristeza, a queda
pela melancolia e pelo drama, eu sei, tudo isso é o que afasta
as pessoas de mim.
Estou me vendo no topo da queda! Sim, reconheço e quase sinto
a aspereza da queda, reconheço e quase toco a aspereza fria
do mármore que abre suas mandíbulas para me engolfar,
esse mármore que da pedra na memória faz brotar também
a flor da eternidade, além dos cravos do fim e dos gerânios
das preces, ah! se houvesse tempo para terminar esse exílio,
parar com essa mania de povoar as gavetas com as sebes da lembrança
e me arquivar junto a essas folhas que se amontoam e se enredam
como se quisessem o urdir o esquife do verbo e das personas.
Mas, se agora é sério, e a queda se aproxima cada
vez mais, vou levar a cabo a idéia do derradeiro exílio.
Afinal, já fui julgado e condenado a andar por aí
com o estigma de louco, mas o que isso importa, quem são
as pessoas normais, aquelas pessoas sérias por trás
dos óculos e dos bigodes, como diz o Poeta, aquelas que se
movem pela vida como máquinas de fazer promessas, dinheiro
e enganos?
Quanto a sua imagem, Conessa, permanecerá a mesma, modelada
de luz e de candura no meu olhar. A realidade, contudo, não
combina muito com essa imagem, percebemos de repente que é
tudo tão fugaz, tão rápido como uma lufada
de verão, tão inconsistente quanto uma folha equilibrada
sobre a ponta de um palito de fósforo aceso, e de repente
a gente desperta marchando para as guilhotinas do cotidiano, tombando
sob os golpes de nossa própria fragilidade.
Lá atrás ficaram seis anos de paixão que agora
somem numa carruagem carregada de névoa e luz; ficaram as
promessas de amor nos armários empoeirados, nas dobradiças
das portas que rangem o teu nome e nas cortinas de sombra que descem
sobre essas janelas enferrujadas; ficaram as mãos apartadas
de tudo que tocamos e vivemos e que um dia se cruzaram, se trançaram
na aliança dourada das manhãs que pareciam eternas;
ficaram as retinas do entardecer, com o brilho do poente suspenso
nas folhas murchas da varanda.
Ainda dói o teu aceno!
Lembro-me que no verdejar do inverno, no calor do verão,
na intimidade quente do outono vibrava em nós a face das
crenças; sim, mas gora, depois de tudo o que aconteceu, mesmo
nesse estado de espírito em que me encontro e na liberdade
involuntária da loucura, sinto que por mais momentâneas
que tenham sido essas centelhas de vida, deveria ter ficado ao menos
o cetim dessa paixão na forma da lembrança, porque
sei, se restou algo, está agora no baú de miragens
que o tempo sopra e fecha.
A impressão que esse silêncio expressa agora é
a de que nada aconteceu! Nada foi escrito! Nada foi dito ou tocado!
Sequer um sussurro se escutou e mesmo a minha voz, ainda há
pouco, deve ter soado como a labareda vibrátil de um látego
a retalhar no ar a dor em que me desfaço.
Os meus ouvidos, aliás... Se não me engano, não
sei... Naqueles dias de névoa e álcool, sim...Posso
ter escutado a voz do trovão e enxergado o fogo azul da tempestade
no colo das nuvens como uma dança de penitências, porque
agora tudo desaba rumo ao desfecho que se aproxima.
De repente, vejo que sou apenas uma página mal escrita, um
olhar de esguelha, a poeira de uma aventura que se distancia nas
escunas do desperdício, ao optar pelo abismo que é
a minha vida; restam-me, portanto, os muros da solidão e
a esperança de permanecer um pouco mais por aqui até
voltar a escrever; eis a força da palavra que imagino no
éter do atual momento que me ata ao meu desespero e me separa
da vida.
- Você não pode se entregar assim. - Disse o médico
enquanto lia os escritos de Carlos, que permanecia imóvel
na cama, sem se dar conta da quantidade de papéis avulsos,
a maior parte, numerada, escrita nos últimos dias com a ajuda
da enfermeira que estava sentada, em silêncio, cabeça
baixa, aguardando o final da conversa.
- Sou apenas um instrumento da espécie que rolou na esteira
do tempo até hoje sem saber o que fazer e para que veio ao
mundo. Sem afeto, só e distante - continuou Carlos, depois
que o médico deixou o quarto - no sólido terreno da
angústia. Mas acabo talvez florescendo sem amargura na consciência
do meu fim. Se eu resolver colocar em prática esse projeto,
ninguém saberá o que aconteceu. A cena será
indescritível, sem bombeiros ou ambulâncias, sem velório.
Quem sabe, usarei o princípio de Lucrécio - "Onde
a morte está, eu não estou!" - ou a estratégia
dos ventos, a curva do silêncio, a calidez das estações
que elevam ao ar a poeira existencial dos condenados; nada mais
será feito ou se ouvirá falar em mim. Serei apenas
uma nuvem presa no ar, brincando no cosmo dos meus cristais, na
cegueira dos meus horizontes, flanando no ocaso, lâmpada apagada
que a terra traga e o céu acende para depois prestar contas
dos meus pecados às estrelas.
A epígrafe
Conessa, meu amor, esses versos de Marilda
"(...) Quanto de mim carrego nesse corpo/
Quanto de mim arrasto nessa viagem/Nessa jornada onde tudo se move/Sempre
de volta ao devastado início?(...)"
deverão estar escritos no meu epitáfio
- Ditava Carlos para a enfermeira.
Baixou-me ontem o espírito de Oswaldo Martins, nosso amigo
de tantas datas, palavras, leituras, aquele que em vida, há
uns 15 anos, escreveu um testamento, de tom solene e simples. Ao
ler o texto, você chorou, se lembra? Espero que a família
cumpra o que lhe prometera: a garantia de fazer um enterro sem velório,
sem carpideiras, sem cravos, sem o vidro ridículo da moldura
de madeira que expõe a nossa dignidade de carne apodrecida
aos olhos dos outros, essa bobagem de lágrimas de plástico,
sem a mínima consideração pela vida verdadeira,
contraditória, que carregamos pela estrada e que se encerra
em duas pás de terra e no alívio do coveiro.
Naquela tarde, uma das últimas vezes que nos encontramos,
Oswaldo me surpreendeu conferindo a mim a condição
de herdeiro do farol, guardião de sua ilha imaginária.
Os faróis de São Luís, sua terra natal, seu
mausoléu de ouro, sua praça de guerra, seu remanso
de areia, seu olhar de saudade com um foco em Cândia, pórtico
de um passado abissal, intraduzível, e outro nas grutas de
Creta, onde afirmara ter sido feliz, sobretudo ao dobrar-se às
memórias sonoras de um violino que ainda sopra os allegros
mais harmônicos que pôde entoar em sua enseada povoada
de ilusões.
Ainda o vejo se distanciar com a mala e a caixa do violino, aquele
sorriso de despedida, franco e triste, ao pisar nas escadas do cargueiro
que o levaria às ruínas de Atenas. Nós, abraçados
abaixo do tombadilho, à margem do que aconteceria durante
a interminável turnê que ali se iniciava por entre
as gárgulas marinhas de um oceano de histórias insondáveis,
permanecemos mudos na sacada das lembranças como dois caracóis
escorregando devagar pelas penínsulas da saudade que nos
ligam ao mundo real.
Dois anos depois soubemos da notícia, Oswaldo estava de volta,
completara seu périplo pelo Mediterrâneo sem realizar
o sonho de compreender os mistérios da humanidade e compor
sua rapsódia em homenagem a Marilda.
Seu corpo embalsamado chegaria em breve.
Numa carta que deixou para mim li sobre os motivos daquela viagem,
a consciência de que pouco tempo de vida lhe restava. Enfim,
cumpriu assim a sua estação de silêncio, afastou-se
de tudo e de todos para poder retroceder em paz aos ponteiros do
tempo, secar as gotas de sua clepsidra mágica, apagar os
segundos de seu relógio de algibeira, soprar os derradeiros
grãos de esperança em um certo verão em Madagascar,
quando soube, ali, que Marilda estaria aguardando apenas um sinal
para reencontrá-lo; isto seria, enfim, o coroamento dessa
paixão, sabotado pela fatalidade do destino que primeiro
urdiu a iluminura dos ânimos e da certeza para, em seguida,
arrebatar o sonho, soterrar o júbilo.
A herança
Com a voz rouca, um fio rouco de comoção, Carlos narrava
para a enfermeira, de memória, trechos do testamento do amigo.
"Deixo para Marilda, a minha paixão eterna, uma biblioteca
de oito mil títulos; livros do começo e do fim do
mundo, as mais belas aventuras e desventuras de amor e guerra, além
da neblina que cobre o meu rosto, turva o meu olhar ante a sentença
que pousou em minha calma naquela madrugada: a hora que me privou
dos dias e da noite diante do espelho, ao abrir o envelope e ler
o parecer dos médicos. E no espelho divisei ainda a marcha
escura e lenta da solidão que perpassava imperiosa nos recantos
do meu olhar, as navalhas da treva; o túnel de escuridão
de minha passagem que se encerrará no quarto deste hotel.
Mas, antes da primeira lágrima, verei o traje diáfano
e branco da manhã, nas janelas, que pousará nos lençóis,
nos copos, nas fronhas e nas poltronas, acariciará meus cílios
molhados, meus medos com dardos de sol; verei descerem sobre mim
faces de anjos reproduzindo nos meus lábios a sombra do teu
sorriso para que eu beije o teu olhar, teus cabelos, tua imagem,
enquanto contemplarei na copa dos tamarineiros os pássaros
da nossa história. Perdão, Marilda, mas eu sabia que
a viagem seria interrompida".
- Eu também, enfermeira, eu também...Eu sabia de tudo.
- O quê, seu Carlos, o que o Sr. está sentindo?
Nada, não sentia nada, apenas o ardor das lembranças
e o desconforto que precedem a despedida dos moribundos.
Depois de alguns minutos em silêncio, Carlos pediu a Sofia
que retomasse os cadernos, a caneta para voltar a escrever o que
ele ditava. A enfermeira ainda quis reagir, afirmando que ele estava
se excedendo. "Não posso parar, tenho de ganhar tempo!".
É isso, escreva, diga que só posso dar-lhes o meu
amor, a imagem de minhas estrelas vazias, o que me há de
mais caro, as flores do meu poço cinza de consciência
sobre o desastre e o júbilo de ter vida e razão. Além
da dádiva de me ver texto da sua existência como a
réplica de uma obra inacabada, coroando a minha passagem
por aqui como os vagões acelerados do tempo passando pelos
dias embaçados, esses comboios de fuligem e fumaça
que ignoram as estações onde eu quis pousar as asas
da minha melancolia. Diga que lamento a interrupção
do nosso outono que se consumiu no canto seco das cigarras, nas
cascas amolecidas e resinosas da próxima primavera, depois
maio virá, o nosso mês, o mais triste dessa jornada,
não o abril de Eliot que para mim nada germina, a não
ser um belo poema. Mas aqui estou tratando da realidade, assim como
chamam a vida racional, dura, séria e pragmática que
nos coube viver.
- Mas o tempo é inexorável - amplo, vasto, inútil
e vão, pleno de recuos e farto de futuro, você sabe
disso, Carlos.
- O presente é apenas uma faúlha de vácuo que
penetra e arde em meus olhos a cor parda dos sótãos
onde galguei pela primeira vez os trapézios da infância.
- E o passado, que para mim foi tão curto, é apenas
a juventude do tempo a espera de um verão para amadurecer
e tombar, como os jambos da tua pele e as amoras dos teus cabelos
cacheados - sussurrou Conessa e em seguida observou: "Quando
voltamos estava me sentindo leve, quase voando de felicidade. Mas
eu sabia, no íntimo, que quanto mais eu voasse, maior seria
a queda".
Carlos permaneceu calado. Estavam sentados no banquinho de madeira
do Parque das Estátuas; aquela seria a última conversa
entre eles antes do acidente.
A queda
Agora apalpo pouco a pouco as sobras da minha lucidez para sentir
a ardência dessas setas de alumínio que varam minhas
veias, me estufam de torpor, todas as manhãs, todas as madrugadas,
como se isso fosse resolver alguma coisa, devolver-me a minha suposta
sobriedade.
Enquanto eles pensam que estou dopado, semiconsciente, prossigo
recompondo a minha história. Mais tarde, Carlos pediria à
enfermeira que continuasse a escrever.
- Diga que também lamento não poder dobrar o dorso
do tempo para que ele nos devolva a paz e a esperança de
uma possível felicidade, a nossa meta, o nosso desejo de
atuar nesse palco de modo semelhante ao daqueles que sangram as
escaras de um moribundo e o fazem reviver; como quem colhe uma maçã
do peito e ainda assim persegue a fome dos dias no teu olhar, persigna-se
ante a misericórdia da existência e a cada estação
deseja um naco de piedade, sorver teu sangue, tuas águas,
teu sal para se perpetuar em múltiplos novelos de passado,
presente e futuro.
É nesse tempo que me demoro a contemplar, na cegueira luminosa
da insânia, o idílio da infância do mundo e a
eternidade do presente! Só assim seríamos eternos.
Mas não, o tempo passou e ainda escuto o seu manso tropel
nas curvas desse corpo que fenece a cada suspiro. Hoje sou uma fera
que gargalha da própria derrota, anjo maldito que cala as
trombetas da pureza e faz ecoar a fúria dos séculos.
Muitos pintam o mundo a cores, usam pincéis, o guache, o
pastel - eu uso o carvão, do qual nasci, carbono do ventre
que pulsa a flor, embora negra, mas que jamais enegrece a minha
alma, a minha visão, meu verso de pedra - reduto da vida
em ti, laguna avermelhada de antigos luares! - Ditava Carlos para
Sofia, de olhos abertos, fixos no quadro à sua frente, o
retrato de Conessa.
Em seguida, após uma dolorida tentativa
para respirar sem sentir o rufar de ossos se retorcendo por dentro
do tórax enfaixado, prosseguiu em sua linha de raciocínio,
procurando, dessa vez, recuperar trechos de um longo poema escrito
na juventude:
Róseas as cavernas que o tempo escoa por entre meus dedos
Negra essa hora de infortúnio ante a natureza branca
Dos gansos que navegam em mim e se fartam
Com a minha paz aparente, típica de um ensaio final.
2
Nessas cavernas observo as penas dos pássaros
Que se esbatem suavemente nos meus olhos brancos
E passam do branco ao rubro após a festa que armaram
Sobre minhas vísceras e mesmo assim
Com o corpo descarnado, consigo escutar a voz do abutre
Contra o eco de um estranho sussurro
- Quem poderia responder a essa gralha macabra?
3
A minha pele se renova na seda desse sangue
Ou a luz há de ficar em mim qual cicatriz que repousa na
flor?
Será enfim que no brilho do meu olho refulge
O verniz da ferida que crepita no espelho
Os reflexos da minha face que se racha e foge?
4
No teu ventre de pluma reluz o lustre da minha alma
Torta que parte para o mundo desfeito nessa pétala muda,
O corpo sem pássaros em que me levam nas asas do estremecer.
***
Alguém entra no quarto e senta ao lado de Sofia, fica em
silêncio, até tocar a mão de Carlos, a testa,
e passa a ler em voz alta os escritos dos cadernos: "Em torno
de ti renasço aéreo, mesmo farto dessa ausência
onde me banho nas cataratas da alegoria. Sinto assim a luz que vem
da tua boca, da plumagem rubra do teu grito e adormeço na
pelúcia dos teus seios".
-Dizem que enlouqueci no décimo
primeiro dia de sua fuga, Conessa - murmurou Carlos, de repente,
para surpresa das duas mulheres. Era como um despertar de lucidez
momentâneo. E prosseguiu com sua voz rouca: "Naquela
madrugada, via-me voando no bico do corvo branco de porcelana que
vive sobre a escrivaninha do meu avô, via-me também
nas asas de uma águia suspensa por fios de aço e que
estava sempre em posição de ataque à garça
que se refugiou no meu escritório desde o dia 2 de junho
de 1996".
Conessa estava pasma, perguntava-se
de onde Carlos conseguia arrancar forças para resgatar tantas
cenas que, mesmo para ela, mantinham-se encoberta pelas teias que
o tempo urde entre o alumbramento inicial dos amantes e os desgastes
também naturais que só se apresentam em sua aura de
opacidade e distanciamento nas ciladas que o futuro elabora, a partir
do pesado cotidiano.
"A garça, Conessa, ela vinha
e pousava na minha mão, aninhava-se febril, trêmula
e frágil no meu colo; ainda sinto o fremir de suas penas
no meu corpo tentando se proteger dos corvos que infestavam o ambiente
em busca de sua alvura" .
- O Sr. quer parar, seu Carlos? - Pergunta
a enfermeira, com voz receosa.
- Sim, é melhor parar - anuiu
Conessa.
- Você ainda está aí?
- Sim, vamos, descanse um pouco - aconselhou
Conessa.
- Não, não, vamos continuar!
Não há tempo, não me interrompam, por favor!
A voz que me persegue repete o bordão
do abandono, no desejo de ser eterno, mesmo infeliz, mas ao teu
lado, mesmo triste e desesperançado viveria sim, milhões
de anos sem abatimento, sem descontos para o mármore, sem
exceções para o fim das coisas que na pele da minha
paixão jamais morreriam. Acredite! Viveria para sublinhar
no mundo esse sopro de afeto infinito que varre de dentro de mim
a dor da paixão, sua possível esperança, a
inevitável condenação, o sublime e a caverna,
a solidão dos desenganados da vida. Agora me reduzo a essa
pele ressecada que logo se despedirá da materialidade das
coisas - nem tão belas, nem tão lindas como queria
Carlos, o Poeta.
A consciência
Quem sabe uma pétala de aço
ressurja no meu rosto no último instante e eu consiga arrancar
essa máscara, revelar-me inteiro na face monstruosa desse
desespero.
- Não posso permitir que continue,
você está delirando mais uma vez, já não
diz nada com sentido, é melhor parar. Por que sofrer tanto
e fazer os outros sofrerem? Você sabe quem está aqui
no quarto? - Agora escutava a voz incisiva do médico. "Sim,
já falei com ela, mas o que isso tem a ver com o meu livro?
Decretaram a minha loucura porque resolvi me estender ao sol e evocar
a imagem dela, infinitamente" - lembrava Carlos imerso nos
vapores da alucinação. "Passei a ver o teu olhar
emoldurado no meu e por ele passavam toda a eletricidade do mundo
e o fogo das lareiras da nossa existência; suspendia-me aos
alpendres do infinito para lutar contra lobos e escorpiões,
podia na lua enxergar o ciumento dragão de brasas com uma
espada nas garras, olhar de labaredas avermelhadas a fulminar a
raiz das estrelas; podia lutar contra tudo e contra todos e até
catar os pirilampos do Universo na esteira macia das tuas colinas,
teus prados angelicais".
Ali na estrada Carlos imaginava, deitado
ao sol, poder dedilhar o cosmo e a Via Láctea nas harpas
do próprio desespero, enquanto pensava serem uvas as moscas
que o rodeavam no amanhecer, desciam sobre suas mãos para
serem travadas pelos lábios sedentos do paciente. Em seguida,
ávido por reconhecer no rosto dos pedestres estranhos o rosto
de Conessa, deliciava-se em espasmos enigmáticos ao esmagar
com os dentes as minúsculas e almiscaradas pevides das supostas
frutas que teria colhido dos braços, das pernas, do ventre
de sua imaculada imago. Depois, soprava os leques da aurora ante
o olhar moroso de um sol que avançava e depois o queimava,
fazia arder o peito despido, as faces nuas, o abdômen exposto
a exibir sua inapelável decadência. Afinal, só
quem está nos limites da racionalidade se precipita assim
ao patético tão característico dos lunáticos.
Naquele sobrado imenso e branco, com
seus janelões e seus terraços amplos, escadarias e
jardins com fontes, com seus bichos de porcelana e de pedra, até
os cães estavam emparedados pelo silêncio.
Aos médicos e às visitas,
Carlos garantia que à noite avistava vultos se esgueirando
pelos degraus da entrada da casa, pelas aléias dos jardins,
canteiros e quintais, mas só escutava o latido dos dois perdigueiros
perfilados em sua postura de pedra, lado a lado do portão
de ferro com lanças de aço que dava acesso à
garagem.
- Mas ali eu era o Rei das Constelações
e trazia nos olhos as estampas da Via Láctea como escudo
de proteção contra seus demônios, seus santos,
seus heróis de poeira e marfim. Ninguém, é
certo, poderia me superar na extensão do devaneio que me
extraía da realidade, passando a todos a impressão
de estar mentalmente transtornado. Na verdade, eu preparava o terreno
para a última viagem através do território
da criação. Não somente naquela estrada, mas
também aqui embaixo, deitado nesse leito como carvalho seco
tombado diante de seus serrotes, dizia Carlos procurando dirigir-se
aos médicos. Mas agora não penso em nada além
da palavra, esse consolo intraduzível, na ausência
do amor que se perde como se perde a um filho e que só perde,
a palavra, em dimensão de graça e brilho para o conforto
do teu colo, que já não possuo mais, nosso balanço
morno dos dias vibrando ondas esverdeadas sob as mangueiras e as
acácias e que levariam a minha dor para longe, afastariam
sombras, inaugurariam, em mim, a ternura de um novo sorriso.
Despedida
Na fatalidade ensolarada daqueles dias
de quadrantes sem minutos, relógios sem pêndulos, segundos,
queria plantar-me como erva ou lírios na terra seca, fundir-me
com as pedras, os seixos, os bichos, as flores e quem sabe virar
húmus, camada fosca de folhas sem seiva, galho sem frondes,
tronco emurchecido e rachado, para renascer rocha, lagarto de casca
de ferro, instransponível ser de outras eras, serpente de
fogo, reboco despedaçado no barro seco do meu coração.
Ali, no meu castelo de constelações
imaginárias, as mãos cruzadas, postas sobre o peito,
à espera de um fio de água morna ou de uma gota de
lágrima, para me dessedentar, desejava uma tarde de luz que
desceria de teus olhos, um certo sol azulado que luziria as réstias
dessas páginas escritas sem a linearidade habitual das aventuras
de começo, meio e fim. Era o que me interessava, não
importava publicação ou se alguém um dia iria
toca-las. O fato é que passei semanas bebendo a água
suja das valas da rua, o lodo das cercas de arame farpado, pedaços
de vento; comia insetos, pequenos frutos podres que caíam
das árvores. Sentia-me tão poderoso e vivaz como a
libélula que se liberta da luz e não resiste aos vendavais
de setembro.
As pessoas que passavam e viam aquele
corpo no chão sorriam com sarcasmo, ou ignoravam aquele cepo
desgarrado da vida, exposto à fome das abelhas, ao trabalho
insidioso das formigas e das baratas, mas nada importava para Carlos,
até o dia em que, a ponto de entrar em choque, dois policiais
o recolheram, levaram-no para o hospital. Lá os médicos
concluíram que ele estava no estado máximo de alheamento
do mundo exterior, totalmente catatônico.
Quando o interrogaram pela primeira
vez, quatro meses depois do incidente, de início nada respondeu;
ficava olhando o retrato de Conessa com os olhos vítreos,
sem lágrimas, como se dissesse, "vocês venceram,
eu desisto"; depois pronunciou o vôo da garça,
a invasão dos porões do sobrado, declarou o bailado
dos olhares, o silêncio amarelado dos lagos, a lua dos lábios
de Conessa que mirava do chão, de frente para o céu,
com tal nitidez e palpabilidade que só alguém imerso
na irrealidade poderia enxergar a situação por aquele
prisma. "Pobre idiota!" - Pensava o médico mais
velho, que usava o método do eletrochoque como possibilidade
de cura para o incurável.
"Vejam, não há porque
me manterem aqui, afinal, o que eu fiz, a não ser me deitar
ao sol?".
"O Sr. acha essa atitude normal?
Nos dias de hoje? Alguém agir assim por causa de uma mulher?".
- Conessa já havia deixado o quarto e aguardava os médicos
para saber o que estava acontecendo com Carlos.
"Não sei, apenas queria
que ela aparecesse. Bastava um olhar, nada de mais, não sei
porque acham isso estranho".
"Mas o Sr. estava esperando quem?".
"Conessa!".
"Aquela casa estava fechada há
anos. A família mudara para o exterior. Somente agora Conessa
voltou, portanto, na época, não havia ninguém
no sobrado".
Alumbramento
Estou no meu mundo turvo, sobrevivendo
sob a presidência das trevas que me abatem pouco a pouco.
Sei, no entanto, que nada estará acabado; nada com as estacas
de um ponto final me seduz, muito menos a morte!
A minha atitude pode denunciar o avesso
dessa postura, mas o que posso fazer para que acreditem no que eu
digo? Sempre disse e nem ela acreditou, que mesmo a morte, que encerra
em suas lajes todos os milagres do universo, tanto na forca, na
seda ou no fado, jamais soterraria o meu amor por Conessa. Agora,
essas masmorras, essas correias de couro apertando meus pulsos,
esse zunido infernal na minha cabeça, os sinos que não
param, os motores do mundo corroendo o meu sossego, quando queria
apenas ficar deitado ao sol pronunciando em silêncio as senhas
da nossa paixão, ilha, poesia, janelas, parques e sombras,
as mãos e o olhar, as almas que se fundiam em um só
corpo, os abismos do luar e o carisma das prímulas, a pele
do êxtase, não o furor amargo do orgasmo transitório,
mas sim o êxtase divinal dos ventos superiores que movem o
espírito desse moinho invernal de tantas estrelas girando
suas pás sobre um pórtico de murmúrio e sedução;
suaves gemidos produzidos pelo toque cálido de nossos dedos,
nossas línguas sem verbo, nossos ombros de plumagem multicor,
feitos de torturas imaginárias que tramam a memória
das cinzas e os musgos do adeus.
A busca
Antes do processo, da última
ruptura, Carlos passara a vagar nas ruas, observando os faróis
e os letreiros de néon, os vultos femininos; arrancava os
xales dos ombros das mulheres em filas de cinema e de teatro, pois
acreditava que uma delas poderia ser Conessa! Certa vez fora detido
por um policial porque se postara diante de uma vitrine durante
quatro horas para observar os rostos da multidão. É
claro que o gerente da loja imaginou que se tratasse de um ladrão.
O policial o levou à delegacia e lá descobriu que
se tratava de um transeunte qualquer que estava esperando a mulher.
Outra vez tentou atravessar uma movimentada avenida, em pleno centro
da cidade e quase morreu atropelado. Por coincidência, o mesmo
policial da vitrine o resgatou do trânsito e o levou até
o banco de uma praça. Ali ele despencou de vez e começou
a chorar na frente de todo mundo. Na sua imaginação,
perdera a oportunidade, mais uma vez, de encontrar Conessa.
Depois de vários dias de perseguição,
Carlos se enfurnou em casa, passou semanas sem ver o sol. Quando
resolveu rever o mundo, caminhou em direção ao Parque
das Estátuas, onde costumava encontrar Conessa. Segundo a
versão de seu relato, que depois foi confirmado pela polícia,
um grupo de estranhos o espancou e quase o matou com golpes de barras
de ferro.
"Não eram pessoas, eram
vultos que se recusavam aparecer na minha frente e se escondiam
entre os bancos e as estátuas da praça. Eis a vingança
final, Doutor! O ódio já me espreitava há muito
tempo e a trama se estreitava, meus passos se moviam em direção
ao pântano onde hoje me encontro. Agora não importa,
o destino está traçado nessas máscaras de oxigênio,
nesses pinos de platina, nessas ataduras que cobrem mais da metade
do meu corpo, no pranto de alguém que me visita e vai embora
todos os dias sem que eu consiga identificar a voz, o rosto, o olhar".
"Você sabe quem estava aqui
e ainda está, mas não no apartamento, lá fora,
esperando para falar comigo no corredor", respondeu o médico
mais jovem.
"O pior é que não
sei onde te esconderam. Essa pausa, silêncio, meu deus, como
incomodam! Sou um mar revolto, a tempestade e o mergulho nos vagalhões
da escuridão".
- Você está delirando,
Carlos! Não aconteceu nada disso, você sabe, você
sabe que eu te amo! - Dizia Conessa, que voltara ao quarto e em
prantos pedia que ele se acalmasse, que tudo ia dar certo. Os enfermeiros
a expulsaram do ambiente e enquanto se distanciava pelo corredor
da ala dos pacientes de doenças mentais graves, escutava
os gritos de Carlos. Ele sabia que enfrentaria mais uma sessão
de choques, o mundo dos prótons e dos elétrons passeando
pelo seu corpo; lá fora as girândolas da realidade
faziam-no tremer de pavor.
Sem saída!
No túnel!
Nos biombos da letargia!
Nas teias dos sete demônios!
Queria gritar "volta", "volta,
Conessa!", mas já haviam cerrado sua boca, seus punhos
e suas pernas.
"É isso que você é,
Carlos, nada além do que uma haste de carne esturricada,
lanças de ossos tremulando sobre os muros do mundo, sem ninguém
para socorrê-lo", murmurava o moribundo enquanto recebia
as descargas elétricas que mais tarde, supunham, o acalmariam.
Mesmo assim, logo após os choques, prosseguia em seu monólogo,
sei que já é tarde para qualquer tipo de renúncia.
Continuarei por aqui, no entanto, me equilibrando nesse casto fio
de existência. Mas isso não significa, contudo, que
me entregarei às garras de Letargo ou da malvada Eris, essas
deusas ancestrais que movem no mundo as molas da modorra e da discórdia,
da inveja e da noite. Ao contrário, me desvestirei, antes,
das estratégias toscas de sobrevivência, escolherei
melhor minhas as táticas, os meus rumos, a minha caserna
de luz, a minha trincheira de paz, o meu farol, as minhas quilhas
afiadas, as minhas proas apontadas para navegar sobre os estreitos
tenebrosos das armadilhas e das ruínas!
- Fique em paz, não tema nada,
Conessa!
- Ela já se foi.
- Não haverá mais muros
a transpor, cercas e portões a pular, cães a ignorar
ou a temer, luzes, agonia ou gritos no meio da noite.
- O Sr. está bem? Seu Carlos,
acorde, meu Deus, seu Carlos... - Gritava Sofia, desesperada.
Quando os médicos entraram no
quarto se depararam com os olhos fixos de Carlos no retrato de Conessa
pendurado na parede; um olhar de doçura e gratidão;
com um enigmático sorriso de cumplicidade, um ar de incontestável
dedicação.
Naquele momento, embora de dor e pesar,
parecia não haver ali espaço para o pânico,
antes às preces da paixão. Muito menos para o drama
de vidro porque tudo era leveza, naquele olhar contemplativo, como
se suave fosse o leito de veludo de um casal de amantes que se deitam
na eternidade, se protegem da vida na macieza das violetas, se afagam
em sua dignidade amorosa, tão profunda, inabalável,
refletia o médico mais jovem. Sim, naquele olhar, eu vejo
o olhar de Conessa, a devoção ao amor, que a tudo
sereniza, reconstrói, até o sonho, a despedida, infinitamente!
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