
Boleslaw Prus
(1847/1912), pseudônimo de Aleksander Glowacki, é um
clássico da língua polonesa. Estilista refinado, seus
contos e romances formam um painel da vida social na Polônia
de sua época. O romance Lalka (boneca), sua obra prima, retrata,
com ironia, Varsóvia da Segunda metade do Século XIX.
É considerado o Dickens polonês. Título original
do conto: Kamizelka.
O Colete
Há gente que adora colecionar objetos
estranhos; uns preferem coisas de valor; outros, ítens baratos,
em função das disponibilidades de cada um. Eu também
tenho a minha coleçãozinha, modesta, como a de todo
principiante.
Compõem a minha coleção o manuscrito de uma
peça que escrevi, no ginásio, durante as aulas de
latim; umas flores ressecadas, que terão de ser substituidas
por novas, e, nada mais, creio, à exceção de
um colete bem velhinho e surrado.
Desbotado na frente e desgastado nas costas,
o colete está todo manchado, com botões faltando e
um pequeno furo, produzido talvez por uma ponta de cigarro. O mais
interessante, entretanto, são as alhetas (a) laterais. A
que detém a fivela foi encurtada e costurada ao colete, denunciando
a ação de quem não é profissional, enquanto
a outra apresenta, em toda a sua extensão, marcas dos dentes
da fivela.
Por aí se pode imaginar logo que o
dono da roupa deveria vir perdendo peso dia após dia até
chegar ao ponto em que os coletes não seriam mais indispensáveis
e, em seu lugar, teriam de ser substituídos pelos casacões,
abotoados dos pés à cabeça, adquiridos nos
agentes funerários.
Confesso que hoje me desfaria de bom grado
dessa peça, que já me está criando problema.
Ainda não adquiri um armário especial para a minha
coleção, nem gostaria de conservar esse colete surrado
entre as minhas roupas. Mas quando o comprei, por preço bem
acima do valor, eu poderia ter pago ainda mais se o vendedor se
tivesse disposto a barganhar comigo. Há momentos na vida
em que gostamos de ter por perto objetos que nos lembrem aflição.
A aflição, no caso, não
se havia aninhado em minha casa, mas na de meus vizinhos ao lado.
Todos os dias eu observava o quartinho deles de minha janela. Em
abril eles eram três: o marido, a mulher e uma empregadinha,
que dormia, ao que eu saiba, sobre a tampa de um baú atrás
do guarda-roupa. O guarda-roupa era cor-de-cereja escura. Em julho,
se me lembro corretamente, ficaram apenas dois, mulher e marido,
já que a empregada se mudara para uma casa onde lhe pagavam
três rublos por ano e lhe serviam jantar todos os dias.
Em outubro, a senhora ficou só. Não
inteiramente só já que uma parte do mobiliário
continuava no quarto: duas camas, uma mesa, o guarda-roupa ... mas
no comecinho de novembro as coisas desnecessárias foram para
o prego; só sobrou mesmo, como lembrança do marido,
o colete, que guardo em minha coleção.
(a): correia de tecido, usada para apertar
e afrouxar o colete, ajustando-o, ao corpo do, usuário.
Um dia, porém, quase ao final de novembro,
a senhora chamou um negociante de roupas usadas a seu apartamento
e lhe vendeu um guarda-chuva, por dois zlóty (b) e o colete
do marido por quarenta gróschy. Em seguida, trancou o apartamento,
atravessou lentamente o pátio do edifício, entregou
a chave ao zelador, fitou por instantes sua antiga janela, esbatida
por pequenos flocos de neve que caíam, e - sumiu por trás
do portão.
Só o mascate judeu ficara no pátio.
Com o enorme colarinho do casaco virado para cima, o guarda-chuva
que acabara de comprar debaixo do braço, e as mãos
vermelhas, regeladas, enfiadas no colete, resmungava seu pregão:
- Compro e vendo objetos usados! ....
Chamei- o
- O senhor tem alguma coisa para vender? - perguntou na entrada.
- Não, quero comprar.
- Ah, já sei. O senhor com certeza quer o guarda-chuva -
retrucou o judeuzinho, que deixou o colete cair no chão,
limpou a neve no colarinho e se pôs a abrir, com dificuldade,
o guarda-chuva. - É uma peça belíssima - disse.
Com uma neve dessa, só um guarda-chuva desse. Sei que o senhor
pode, querendo, comprar um todo de seda, até dois. Mas esse
só serviria no verão!...
- Quanto o senhor quer pelo colete? - indaguei.
- Que colete? - redarguiu, surpreso, pensando, naturalmente, na
peça que o próprio mascate usava. Logo refeito, porém,
apanhou rapidamente o que caíra no chão.
- Por este colete? É dele que o senhor está falando?
- E, com súbita suspeita, indaga:- Qual a importância
deste colete para o senhor?
- Quanto o senhor quer por ele?
Os olhos do judeu faiscaram e o vermelhão
da ponta do nariz comprido ficou-lhe ainda mais acentuado:
- O cavalheiro vai me dar um rublozinho pela
peça - pediu, exibindo a mercadoria diante de meus olhos
como para destacar-lhe todas as suas qualidades.
- Dou meio rublo.
- Meio rublo? Por uma peça como essa? Impossível -
observou o mascate.
- Nem um centavo a mais.
- O senhor está brincando! ... comentou, batendo-me de leve
ao ombro - O senhor sabe o que peça vale. Isso não
é roupa para criança, mas para adulto.
- Bem, se o senhor não pode vender por meio rublo, nada feito.
Não pagarei nem um centavo a mais.
- Por favor, não fique zangado! - interrompeu, recuando -
Na minha consciência, não posso vendê-lo por
meio rublo, mas deixarei a seu critério. Diga o que vale,
e eu concordarei. Prefiro perder a deixar de atender-lhe.
- O colete vale cinquenta gróschy, mas só dou meio
rublo.
(1):
- Meio rublo? Vá lá, meio rublo
- suspirou, enfiando o colete nas minhas mãos. - Prefiro
ceder no preço a gastar em vão as minhas palavras,
deixando que o vento as leve.
O sentido estava voltado para a janela em
que se acumulava uma camada de neve.
Enquanto eu procurava o dinheiro, o mascate,
provavelmente lembrando-se de algo, arrebatou-me bruscamente o colete
das minhas mãos de novo, e se pôs, rapidamente, a revistar-lhe
os bolsos.
- Que é que voce está procurando?
- Talvez eu tenha esquecido qualquer coisa nos bolsos, que eu não
me lembre - respondeu, no tom mais natural do mundo, e, devolvendo-me
a peça comprada, acrescentou:
- Sua excelência não quer acrescentar só uns
dez centavinhos?
- Vai em paz - disse-lhe, abrindo a porta.
- Com os meus respeitos! Ainda tenho em casa um casaco de pele em
condições excelentes.
E, já com o pé na rua, esgueirou-se
mais uma vez à porta para perguntar-me:
- Sua excelência não gostaria
de encomendar-me queijo de cabra?
Logo em seguida, ei-lo novamente no pátio,
com o seu pregão (" Compro e vendo objetos usados"),
e, quando assomei à janela, ele me cumprimentou com a cabeça
e um sorriso simpático.
A neve começou a cair pesada, escurecendo
como se já fosse de madrugada. Depositei o colete sobre a
mesa e pus-me a sonhar, primeiro com a mulher que sumira pelo portão
para ninguém sabe onde; depois, com o apartamento vazio,
próximo ao meu, e, por fim, com o dono do colete sobre o
qual se acumulava uma espessa camada de neve.
Cerca de três meses atrás, ouvi
o casal conversando, num dia agradável de setembro. De outra
feita, em maio, ela cantarolava uma melodia desconhecida e ele ria,
lendo o Kurier Swiatecznego ( Correio Dominical). E hoje ...
Eles se haviam mudado para o nosso prédio
no início de abril. Costumavam levantar cedo, tomar chá,
preparado num samovar de estanho, e sair, juntos, para a cidade.
Ela, para as suas aulas; ele, para o escritório.
Ele era funcionário de segundo escalão,
que olhava seus superiores com a mesma admiração com
que um turista olha os picos dos Tatra . Mas tinha de dar duro,
trabalhando sem parar.
Cheguei a vê-lo à meia-noite,
curvado sobre a mesa, com uma luminária ao lado. A mulher
costumava sentar-se pertinho, costurando. De olho no marido, ela
o interrompia de vez em quando, para lembrar-lhe, num tom de admoestação:
- Já chega, está na hora de
ir para a cama.
- E você, quando irá para a cama?
- Eu ... vou só dar mais uns pontinhos.
- Neste caso, vou escrever só mais umas linhas.
E, novamente, ambos se curvavam sobre o trabalho.
Mais tarde, ela voltava a falar:
- Vai para a cama! ... Vai para a cama!
Muitas vezes meu relógio batia uma
hora, como respondendo às palavras dela.
Era um casal de jovens, nem atraentes nem
horrendos fisicamente, e ,em geral, tranqüilos. Pelo que me
lembro, ela era bem mais franzina do que o marido, de estrutura
vigorosa. Diria até bem vigorosa para funcionário
tão subalterno.
Todos os domingos, por volta de meio-dia,
saiam de mãos dadas a passeio e voltavam à noite.
Com certeza ceavam na cidade.
Encontrei-os uma vez perto do portão
que separa o Jardim Botânico do Palácio Lazienki. Eles
compraram duas canecas de excelente soda e dois enormes pães
de gengibre, consumindo tudo com a mesma placidez da gente de classe
média acostumada a comer presunto quente com rábano
bastardo à ceia.
Em geral, pobre precisa de pouco para manter
o equilíbrio espiritual. Pouca comida, muito trabalho e muita
saúde. O resto funciona automaticamente.
Para os meus vizinhos, ao que parecia, não
havia falta de comida; e, tampouco, de trabalho. A saúde,
entretanto, deixava a desejar. Em julho, o marido apanhou um resfriado,
na realidade um resfriado leve. Mas, por estranha coincidência,
o resfriado foi acompanhado de hemorragia tão grave que o
homem chegou a desmaiar.
Aconteceu à noite. Agasalhando-o bem,
na cama, a mulher chamou a esposa do zelador até seu apartamento,
em cima, enquanto ligava para pedir um médico. Tentou em
cinco lugares, e encontrou um quase por acaso, na rua.
Olhando para ela, à luz cintilante
de um poste de iluminação de rua, o médico
considerou aconselhável acalmá-la, antes de mais nada.
E como, a toda hora, ela sentia tonteira, provavelmente por cansaço,
e não havia táxi à vista, ele lhe ofereceu
o braço e, no caminho, explicou-lhe que hemorragia não
significa,
necessariamente, alguma coisa séria.
- Hemorragia pode vir da laringe, do estômago,
do nariz, muito raramente dos pulmões. Ademais, se o homem
foi sempre saudável, nunca tossiu ...
- Ah! Só às vezes - sussurrou a mulher, parando para
recuperar a respiração.
- Às vezes? Isso não é nada. Ele pode ter tido
um caso simples de bronquite, um resfriado.
- Isso ... um resfriado! - repetiu a mulher, desta vez falando alto.
- Ele nunca teve pneumonia, ou já teve?
- Já teve - respondeu, parando de novo. As pernas lhe tremiam
um pouco.
- Já teve, mas foi há muito tempo, não foi
? - interveio o médico
- Há já, muito tempo mesmo! - confirmou logo - No
inverno passado.
- Há um ano e meio.
- Não ... Mas foi antes do Ano Novo. Isso aí, há
muito tempo mesmo.
- Puxa! Que rua escura essa e, ainda por cima, com o céu
encoberto - queixou-se o médico.
Chegaram em casa. Em pânico, a senhora
foi logo perguntando ao zelador se havia alguma novidade e verificou
que não havia nada.
Em cima, já no apartamento, a mulher do zelador repetiu que
não havia novidade; o doente estava dormindo. O médico
acordou-o, com jeito, e, depois de examiná-lo, também
disse que não era nada.
- Eu não disse, logo, que não
era nada? - exclamou o doente.
- Nada! - a senhora repetiu, segurando com firmeza as mãos
transpirantes do marido - Por acaso não sei que uma hemorragia
pode vir do estômago ou do nariz, e que, no caso, é
provável que venha do nariz. Resistente como é, voce
precisa de exercício; não pode ficar o tempo todo
sentado ... O senhor acha que ele precisa de exercício, doutor?
- Lógico. O exercício é sempre necessário,
mas, agora , seu marido precisa guardar o leito por uns dias. Ele
não poderia ir para o campo?
- Infelizmente, não - respondeu, baixinho, a mulher, com
tristeza.
- Não faz mal. Ele ficará em Varsória. Virei
vê-lo de vez em quando; enquanto isso, ele deve permanecer
de cama e de repouso. Se o sangramento voltar ... acrescentou o
médico, sem concluir.
- E, aí, doutor? - interrompeu a mulher, pálida que
nem cera.
- Nada. Seu marido vai descansar. Aquela parte vai sarar.
- Aquela parte é o nariz? - indagou a senhora, juntando as
mãos, com os dedos entrelaçados, na frente do médico.
- Isso ... no nariz. Claro. A senhora deve procurar acalmar-se e
confiar em Deus para o resto. Boa noite.
As palavras do médico acalmaram a
senhora de tal forma que, depois do terror que passara nas últimas
horas, ela se sentia quase alegre.
- Bem, o que há de tão terrível
em tudo isso - indagou a esposa, rindo e chorando ao mesmo tempo,
ao se ajoelhar à cabeceira da cama do marido, beijando-lhe
as mãos.
- O que há de tão terrível em tudo isso! -
repetiu o doente, baixinho, rindo. - É só imaginar
como um homem, que perde tanto sangue na guerra, ainda consegue
sobreviver.
- Agora é melhor parar de falar - recomendou-lhe a mulher.
Lá fora, o dia começava a nascer.
No verão, como se sabe, as noites são bem curtas.
A doença se arrastara bem mais tempo
do que se esperava. O marido já não ia mais ao escritório,
o que não constituía, particularmente, um problema,
já que, como simples prestatário de serviços,
não tinha direito a férias nem licença, e podia
retornar ao trabalho quando lhe aprouvesse, desde que o cargo ainda
existisse.
Como ficar em casa de repouso fazia bem para
ele, a senhora conseguiu mais alguns alunos para aulas particulares
e, com isso, ajudar nas despesas domésticas.
Ela saía de casa, normalmente, às
oito da manhã. Por volta das treze, voltava, por umas duas
horas, para preparar a comida do marido, e, em seguida, saía
de novo em campo por mais algumas horas. À noite, porém,
estavam sempre juntos. A senhora aproveitava, para ganhar tempo,
e levava mais costura para fazer em casa.
No fim de agosto, a senhora encontrou o médico
na rua. Andaram um bom tempo. Ao se despedirem, ela pegou a mão
do médico e disse-lhe, em tom de súplica:
- Seja como for, venha nos ver. Talvez com
a ajuda de Deus! ... - Ele fica sempre tão calmo depois de
suas visitas!
Com a promessa do médico de atender
ao apelo, a senhora voltou para casa, em lágrimas. O marido,
talvez em conseqüência do confinamento compulsório,
mostrava-se irritado e desesperado. E foi, logo, se queixando de
que a mulher o tratava com excesso de zelo, a ele que morrerá
de qualquer forma, indagando, por fim:
- O médico não disse que eu
teria só mais uns meses de vida?
A mulher ficou sem ação.
- Que é que você está
dizendo? - retrucou - De onde tirou essa idéia?
O doente enfureceu-se.
- Ah! Vem cá, vem! disse, com raiva,
agarrando-a pelas mãos. - Olhe bem para os meus olhos e me
responda: o médico não lhe disse isso?
E olhou para ela com olhar esfuziante, perturbado.
Era como se a parede, encerrando um segredo, acabasse por revelá-lo
diante dessa cena.
O rosto da mulher estampava uma calma estranha.
Com um sorriso tranquilo, enfrentava aquele olhar feroz. Só
os olhos continuavam embaçados.
- O médico disse - explicou - que
isso não é nada, só que você tem de ficar
um pouco em repouso.
O marido, soltando-a subitamente, começou
a tremer e a rir, e, fazendo sinal com a mão, disse:
- Você está vendo como estou
nervoso. Por alguma razão eu tinha a certeza de que o médico
me considerava causa perdida ... mas ... agora, voce acabou me convencendo
... Agora estou tranquilo!
E pôs-se a rir, efusivamente, numa
de suas alucinações.
Seja como fôr, essa crise de confiança
não voltaria a se repetir nunca mais. A suave tranqüilidade
da mulher constituía, afinal, a melhor prova de que seu estado
não era mau. E, depois, porque deveria ser mau? Ainda havia
tosse, é verdade, mas isso era decorrência da bronquite.
Às vezes, em virtude de ficar sentado horas a fio, saía
sangue - pelo nariz. Volta e meia vinha-me também uma ponta
de febre, que não chegava, porém, a ser, realmente,
febre; era apenas um reflexo do estado nervoso.
Aos poucos, entretanto, foi-se sentindo melhor,
de modo geral. Havia momentos em que lhe advinha um desejo irresistível
de ir para bem longe, mas, na hora, faltavam-lhe forças.
Chegava a se recusar a ir para a cama durante o dia; sentava-se
numa cadeira, todo arrumado, pronto para sair, esperando apenas
passar-lhe aquela fraqueza momentânea.
Só um detalhe o perturbava. Um dia,
ao colocar o colete, notou que lhe parecia um pouco frouxo no corpo.
- Será que emagreci tanto! - comentou
baixinho.
- Bem, é natural que você tenha perdido um pouco de
peso - observou a mulher. - Mas voce não pode pedir demais.
O marido encarou-a com atenção.
Ela sequer desviara os olhos do trabalho. Não, essa calma
não podia ser fingida. Ela deve saber, por ter ouvido do
médico, que o marido não estava, realmente, tão
mal, e que não havia razões para preocupação.
No início de setembro, o estado nervoso,
que dava a impressão de febre, passou a se manifestar com
freqüência maior, quase diariamente.
- Besteira! - pensou o doente. - Entre verão
e outubro até o cidadão mais saudável sente
às vezes uma certa irritabilidade; todo mundo sente um certo
desconforto. O que me surpreende, porém, é que o meu
colete está ficando cada vez mais folgado, quando o ponho.
Devo ter perdido peso terrivelmente, e, lógico, não
poderei me sentir bem enquanto não o recuperar; é
a única coisa que se pode fazer.
A mulher ouviu tudo com atenção
e admitiu que ele estava certo.
O doente se levantava, diariamente, e se
vestia apesar de não poder usar uma só peça
do vestuário sem ajuda da mulher. O mais que ela conseguia
era convencê-lo a usar o colete ao invés de sobretudo.
- Não é de admirar - dizia, sempre, olhando-se no
espelho - não é de admirar que me sinta sem forças.
Olhe só para mim!
- As nossas feições mudam sempre, com facilidade,
lá isso é verdade - observou a mulher.
- Certo, só que estou emagrecendo ...
- É o que você acha? - indagou a mulher, com um tom
de dúvida na voz.
Ele meditou um instante.
- É! Talvez você tenha razão
... porque ... faz alguns dias ... venho notando que ... incrível
... o meu colete ...
- Pare com isso! - interrompeu a mulher. - Afinal, você não
podia estar engordando.
- Quem sabe? O fato é que noto pelo meu colete ...
- Nesse caso, você deveria estar recuperando energia ...
- Bem, essas coisas não acontecem assim tão rápido
... Em primeiro lugar, preciso ganhar um pouco de peso. Na realidade,
deixe-me dizer, mesmo depois de ganhar peso, não recuperaria
energia logo assim ... - Mas que é você está
fazendo aí atrás do guarda-roupa - perguntou de repente.
- Nada. Estou procurando uma toalha no baú, mas não
estou encontrando uma limpa.
- Não esquente a cabeça; sua voz está mudando
e, além disso, esse baú é pesado ...
O baú deveria ser, realmente, pesado,
a julgar pelo rosto esfogueado da mulher depois do esforço.
Sua aparência, porém, era de tranqüilidade.
Daquele dia em diante o nosso doente passou
a prestar maior atenção ao colete. Regularmente, chamava
a mulher e dizia-lhe:
- Veja só e se convença: ainda
ontem eu conseguia enfiar um dedo aqui, exatamente aqui ... Mas,
hoje, já não posso. Estou, realmente, começando
a ganhar peso.
Mas, um dia, o doente não conseguiu
conter a alegria. Quando a mulher chegou em casa, depois das aulas,
ele a recebeu com um olhar radiante, e, muito emocionado, comentou:
- Ouça, vou lhe contar um segredo
... É a respeito deste colete, que você está
vendo. Cometi uma pequena fraude. Só para tranqüilizá-la,
diariamente, eu puxava a alheta para apertá-lo.
Ontem, puxei a fivela até o fim. Estava
preocupado para que o segredo não fosse descoberto, quando
hoje, de repente ... sabe o que vou lhe contar, não? Hoje,
dou- lhe minha palavra de honra, ao invés de apertar, tive
de soltar um pouco! O colete, que ainda ontem estava folgado, de
repente ficou apertado ... Com isso, passei, agora, a acreditar
que ficarei bom. Acredito mesmo! Deixe o médico dizer o que
bem lhe aprouver ...
Essa falação toda cansou-o,
a ponto de levá-lo para cama. Só que, como o sujeito
que ganha corpo depois de se desvencilhar do que o estava comprimindo,
não se deitou; sentou-se, como se estivesse numa poltrona,
recostando-se à mulher.
- E agora - a meia voz - quem poderia esperar
por isso? Durante duas semanas, enganei a minha mulher, fazendo-a
acreditar que o colete estava apertado, quando hoje está
realmente apertado. E aí?
Os dois passaram a noite assim, aconchegados,
juntinhos um ao outro.
O doente estava excepcionalmente emocionado.
- Meu Deus! - sussurrava, a beijar as mãos
da mulher. - E eu cheguei a pensar que continuaria a perder peso
até o ... fim. Só hoje, pela primeira vez em dois
meses, acredito que posso ficar bom de novo.
O fato é que todo mundo mente para
um doente, principalmente a esposa. Mas o colete - esse não
pode mentir.
Hoje, examinando o velho colete, noto que
duas pessoas lhe manipulavam as alhetas: O marido, que o apertava
diariamente para tranqüilizar a mulher, e a mulher, que o afrouxava,
também diariamente, para encorajar o marido.
" Será que eles se encontrarão
um dia para revelar, um para o outro, o segredo do colete?"-
pensava, cá com os meus botões, olhando para o céu.
O céu é quase invisível
visto da terra. Só se via neve caindo, tão intensa
e fria que congelava até as cinzas cobertas pelos túmulos.
Mas quem pode assegurar que o sol não
está brilhando por trás daquelas nuvens? ...
Tradução:
Ruy M. Bello
(1)zlóty, dividida em cem gróschy
(centavos), é a moeda padrão da Pôlonia, onde
o rublo também era aceito em troca, à época.
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