
Os mistérios da comunicação
Cláudio José Lopes Rodrigues *
Após peregrinar por dez distantes países, uma laboriosa paraibana, encantada com o périplo, escreveu um livro sobre a viagem. Jubilosa, ela apregoava que a obra foi feita com muita inspiração e, por isso, provocaria grandes emoções no leitor. Este, ao ler a publicação, teria o mesmo deslumbramento da autora, com a grande vantagem de, além do preço do exemplar, não despender um só real, dólar, euro ou libra egípcia.
A autora fora bafejada pelo milagre artístico: soubera manejar de tal modo as palavras, urdir tão bem as idéias, descrever com tamanha perfeição as vivências turísticas que, segundo acreditava ela mesma, conseguira repassar integralmente ao leitor todo o acervo de suas emoções. Nas noventa páginas entremeadas por fotografias, conseguira alcançar o grande objetivo de quem escreve.
Não sei se todos os seus leitores confirmariam as afirmações da exultante peregrina. Eles repartiriam com a autora as agradáveis sensações viageiras na medida proclamada por ela?
A façanha que a itinerante escritora se auto-atribuiu é um feito difícil de ocorrer. Nem sempre as emoções sentidas por quem escreve comovem quem lê. As palavras são incapazes de provocar, por si mesmas e de qualquer jeito, a intensa magia da comunicação naquela magnitude. Não basta escrever-se sofrimento para o leitor ter de imediato a sensação dolorosa, embora o autor esteja, para se usar uma desgastada metáfora, com o coração dilacerado. Nem felicidade provoca incontinenti a sensação de intenso bem-estar, nem fogo a de quentura, nem alegria a de contentamento... como alguns autores podem imaginar ou pretender. Esse ilusório poder messiânico das palavras é encontradiço em certos escrevinhadores de poemas coalhados de termos que, independentemente do significado intrínseco, tornam-se espúrios, suspirosos: amor, paixão, carinho, coração, saudade, melancolia, flor, estrela, plenilúnio, brisa... Por falta de um tratamento artístico significativo, a pretensão tem efeito desalentador: o que é sublime, inspirado, para o autor torna-se sensaborão ou melífluo (ou, pior, meloso, piegas...) para quem lê.
De onde vem o efeito poético? Pergunta Rubem Braga em uma das suas crônicas. É fácil dizer que vem do sentido dos versos; mas não é apenas do sentido. – afirma. Estaria na urdidura dos termos, na disposição dos vocábulos? Em parte, sim. Saber dispor as palavras, saber seqüenciá-las de uma determinada maneira, seria um contributo para o coelho sair da cartola. O cronista-mor declara-se encantado com dois versos de um esquecido poeta presumivelmente boliviano: Trabajar era bueno en el Sur. Cortar los árboles, hacer canoas de los troncos. Confesso minha inépcia poética ao declarar que tais versos não me transportam a nenhum nirvana (e acredito que não estou sozinho nessa insensibilidade). Eles, entretanto, emocionavam Rubem Braga de forma recorrente no seu dia-a-dia, pois – declara o escritor capixaba – produzem em mim uma espécie de consolo e de saudade não sei de quê. O enlevo talvez se devesse à seqüência das palavras pois se o poeta houvesse feito uma pequena inversão e escrito Era bueno trabajar em el Sur, não creio que o poema pudesse me impressionar. – afirma.
Talvez o encantamento haja derivado da infância de beira-rio e de beira-mar vivida pelo cronista; caso não tivesse tal experiência, não se comoveria com os versos. Mas ele mesmo afasta tal possibilidade ao atribuir ao trabalho o principal sentido dos versos: um trabalho – no caso o de cortar as árvores e fazer canoas dos troncos – que era bom, não essa “necessidade aborrecida” de hoje.
Braga, tentando contribuir para o desvendamento do mistério, lembra um dos maiores versos de Camões, “A grande dor das coisas que passaram.” À semelhança do camoniano, os versos bolivianos são compostos com palavras banais, simples, do dia-a-dia: Talvez o que impressione seja mesmo isso: essa faculdade de dar um sentido solene e alto às palavras de todo o dia. (BRAGA, Rubem. O mistério da poesia. A Traição das elegantes, Rio de Janeiro: Record, 1982, pp. 7/9.)
Transmitir, passar, a emoção sentida é o grande desafio de quem escreve. Mas, como se pode inferir no poético exemplo do talentoso e enfastiado Rubem Braga – que se notabilizou como um mestre nessa coisa vã e cansativa de fazer crônica (palavras suas) – o bom êxito da iniciativa está em grande parte no leitor e suas (deste) circunstâncias. A categoria leitor(a) é altamente idiossincrática, diversificada quanto a humor, sensibilidade, valores, experiências... Após a leitura, alguém pode dizer que o texto é maravilhoso. Outro leitor, entretanto, pode afirmar ser o escrito uma ruma de excrementícia matéria-prima que nem mesmo o experiente sanitarista Sérgio Rolim Mendonça conseguiu deparar-se em seus muitos anos de prática profissional mundo afora.
Sublime! – poderá dizer alguém após a leitura. Que grande bosta! – poderá dizer outrem após a leitura do mesmo texto (ou, fastidioso, não conseguir nem mesmo concluí-lo).
Mário Vargas Llosa é um extraordinário manipulador (no melhor sentido do termo) de palavras e idéias. Sabe urdi-las com extrema maestria, criando no leitor um deslumbramento que poucos privilegiados, em todos os tempos, conseguiram alcançar. Domina uma espécie de magia que transforma seus escritos em textos fascinantes. Não só grandes aventuras amorosas, fortes paixões, intrincadas disputas políticas, ferrenhas lutas pelo poder, sagas familiares... narradas por ele comovem e prendem o leitor. A atenção de quem o lê é mantida mesmo se o objeto do seu texto for a prosaica bula de um laxante.
Mas, como outros escritores já pontificaram, o fascínio literário não advém da tão invocada inspiração – termo meio difuso, mui efêmero, que – desculpem a pobreza da comparação – equivaleria a uma centelha inicial motivadora. A chama e a brasa que consubstanciam o texto são fruto de muito trabalho (é aquela conhecida história de 1% de inspiração e 99% de transpiração, que Thomas A. Edison afirmava em relação ao gênio).
O pujante predomínio da sudorese sobre o transe da inspiração fica demonstrado através do próprio Mário Vargas Llosa, sobremaneira em sua obra ficcional. É o que se constata, passim, em Peixe na Água (São Paulo: Cia das Letras, 1994), livro autobiográfico onde ele revela seu mui trabalhoso e sistemático método criativo – o que não retira o caráter prazeroso inerente a esta pasión, vicio y maravilla que es escribir, crear una vida paralela donde refugiarnos contra la adversidad, que vuelve natural lo extraordinario y extraordinario lo natural, disipa el caos, embellece lo feo, eterniza el instante y torna la muerte un espectáculo pasajero., nas palavras dele próprio, no discurso ao receber o Prêmio Nobel de Literatura (Estocolmo, 10 de dezembro de 2010).
Conheço, entretanto, quem, a despeito da grande admiração que devota ao escritor peruano, enfastiou-se quanto a um dos seus livros, enfadou-se tanto que não conseguiu concluir a leitura. Simplesmente abominou a trama que entrelaçava as recordações do limenho Mascarita com as narrativas de um falador, voltadas para a memória coletiva dos índios machiguengas da Amazônia peruana. (O Falador [El Hablador], Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1988).
Quem escreve deve amadurecer para reações inesperadas do chamado público leitor. Dificilmente escapará a certas surpresas quanto ao seu texto, reações às vezes radicalmente díspares. O tratamento a alguém ou a assunto abordado no livro poderá, por exemplo, ser considerado elogioso por uns e desrespeitoso por outros. Os encômios podem ser tidos como humilhantes ironias. Reconhecimentos reiterados sobre os feitos de alguém podem ser recebidos com total indiferença enquanto uma pequena alusão pode despertar relevante gratificação por parte do citado, seus amigos ou familiares. O mesmo texto pode parecer acaciano, rasteiro e pomposo para uns e profundo, instigador, reflexivo para outros... Já ouvi opiniões díspares e contraditórias sobre obras de grande prestígio. Para não ir muito longe e citar Fiódor Mikháilovitch Dostoievski, tomo como exemplo um dos luminares tabajaras, José Américo de Almeida. A Bagaceira é o mais famoso dos seus livros. É um texto magistral para uns, entre os quais críticos de nomeada, respaldados por considerável obra publicada. Entretanto, para outros também enfronhados nas sutilezas das artes literárias A Bagaceira faz jus ao nome, por ser, de fato, um bagaço, uma grandíssima chatice, algo intragável, além de pretensioso.
Não só razões de ordem estética se interpõem entre o texto e o leitor. Entre os dois, há uma complexa rede de fatores que pode abranger de relações familiares conflitantes e valores religiosos a experiências personalísticas e sutilezas estético-culturais.
Por estas e outras, vem-me um certo pasmo diante das presunções da nossa conterrânea quanto ao fascínio que seu livro sobre a viagem por dez países necessariamente causará por haver sido elaborado sob a égide da mais autêntica inspiração. Pelo entusiasmo da autora, caso o fenômeno não se efetive, restar-lhe-á o consolo do princípio que afirma estar a graça da piada mais no ouvido de quem ouve do que na boca de quem a conta.
Será?
* Escritor
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