|
Rodrigo
Souza Leao
Nasceu em novembro 1965. É formado em jornalismo, tem poemas
publicados no "O Correio das Artes" e fez parte da I Mostra
de Poesia Carioca. É autor de vários livros e editor
dos jornais cibernéticos Boletim do Caox, Pessoal e Balacobaco.
Finalista do Prêmio Uapê/2001. Consta da antologia Na
virada do século - Poesia de invenção no Brasil.
Tem resenhas e reportagens publicadas em O Globo e Rascunho (Paraná).
Trabalhou na SASSE - seguradora da Caixa. Foi repórter e
editor do programa Informe Imobiliário, TV Corcovado Rio,
canal 9. É músico. Teve parte da formação
feita pelo tenor Paulo Barcelos. Trabalha divulgando poesia na internet.
Já entrevistou mais de 150 escritores entre poetas e prosadores.
Seu sítio cibernético se chama Caox e fica no endereço:
http://www.geocities.com/SoHo/Lofts/1418/
http://intermega.globo.com/balacobacoonline/index.htm
clarice chopin
o infinito se inflama no crepúsculo
aos poucos a tempestande vem entupindo as artérias
de trovões elétricos
e papagaios derreiam o vento de fim de tarde
me chamo tempestade
e o cinza que irei derramar se chama nuvem
e a lágrima que irei esculpir nos telhados
se chama chuva
alguns dias são tão parecidos
como hoje
que quase navego na exclamação que provoca em mim
de tanto me exclamar e declamar e declarar minha páixão
pelo silêncio
e a nova porta que se fecha
para decupar o declínio de hades em mim
em mim resta a tempestade
a que sou
algema que silencia o filho anti-pródigo
que vai para a prisão de seu eu
em levar as chaves que o prendem
ao pai, a mãe, a irmã, ao irmão
e a todos que sobreviverão
ao dilúvio que virá depois da tempestade
a tempestade é só um escada
para o infinito
é só um ramo no bico da pomba branca
é só uma bomba atômica explodindo todo dia dentro
do quintal
e toda a vez que explode
colore o o horizonte com novos fantasmas
monges que se vestem de branco
e assinam o atestado de óbito daquele que queima
seu fim na ponta de uma agulha de vagonite
costurando o aborto
na manta de penélope desfazendo os sapatinhos do neném
alguém um dia lembrará
que os irmãos marxs só fizeram catapultar
e quem vôo foi mesmo santos dummont
e que claudio manuel da costa era maior
mesmo de joelhos
do que o teto onde dizem que plantou uma forca
e que gaudino não queimou por brincadeira
algum dia como este dia que se chama tempestade
trará de súbito
uma tara pela vida
que transaremos na chuva infinita de nossas salivas
esbugalhadas em olhos perdidos
e brincaremos de autorama
eu e meu filho e eu e meu pai
ah, são marcelo
como pode dar sua vida por outro homem?
como pode, por ouvir vozes
construir em si algo tão perfeito
como uma catedral de espelhos
que não se refletiam
mas trefletiam todo o amor que tinha para com o outro
ah, são marcelo
por que deus não vive em mim assim?
algum dia como este dia em que a tempestade
se encolheu
agora quase às três da tarde
recolhi os cacos de minha existência
e tentei construir um poema
envolto no oitavo cigarro
no sexto andar
no milhão de madalas turvas
que formam o contorno do meu rosto
discipando-se nas trevas de um acorde menor
nas grandes grades mãos
da divina deusa que me interrompe
no piano de caudas do vestido de clarice
chopin
(voltar ao topo)
|