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Renata Stoduto
Alguns poemas de Fabricio Carpinejar
Fabricio Carpinejar
é poeta, jornalista
e mestre em Literatura Brasileira pela Universidade
Federal do Rio Grande do Sul. Nasceu em Caxias do Sul
(RS) aos 23 de outubro de 1972. É autor dos livros
As Solas do Sol (Bertrand Brasil, 1998), Um Terno de
Pássaros ao Sul (Escrituras Editora, 2000) e
Terceira Sede (Escrituras, 2001). Seu nome vem sendo
saudado como uma das revelações da poesia
brasileira por escritores como Antonio Skármeta,
Ivo Barroso, José Castello, Antonio Carlos Secchin,
Carlos Heitor Cony, entre outros.
POEMAS
Um rosto conhecido
usou o desconhecido
do teu rosto.
(As Solas do Sol, Segunda Colina)
Avalor desconhecia o vexame
da crença. Estava na nona
colina e não responderia
ao apelo externo. Aprendeu
a se deslocar parado.
Unicamente a copa barulhava
o fluido da geografia,
a incidência da pressão.
Nos dados biográficos,
nunca largou o hospício
após completar a idade da razão.
E os apontamentos
listavam apenas o vegetar
dos cílios e a gradação
dos antibióticos. A trama
das bandagens cobria
os retalhos ovalados das fotos.
As portinholas consistiam
numa elevada, acima do palmo
da viseira. Trocava-se
a enfermaria pelo dormitório
e ninguém notava.
Avalor, ocupado pela inércia,
descobriu o talento
de vadiar a verdade.
(As Solas do Sol, Nona Colina)
Nasci vingativo,
negando
o que deveria perdoar,
omitindo
o que deveria mencionar,
exagerando para soar falso
que de verdade sinto.
Falsifiquei-me para que fosses
próximo do real.
Ao escapar de tua figura
me tornei igual.
Tudo está perdido, então
tudo é necessário.
Sou a barca que fica
afiando as águas.
(Um Terno de Pássaros
ao Sul)
Ser inteiro custa caro.
Endividei-me por não me dividir.
Atrás da aparência, há uma reserva
de indigência,
a volúpia dos restos.
Parto em expedição
às provas de que vivi.
E escavo boletins, cartas e álbuns
- o retrocesso da minha letra ao garrancho.
O passado tem sentido se permanecer
desorganizado.
A verdade ordenada é uma mentira.
O musgo envaidece as relíquias.
Os dedos retiram as teias,
assisto à revoada de insetos das ciladas.
Fujo da claridade, refulge a poeira.
O par de joelhos na imobilidade de um rochedo.
Reviso o testamento, alisando
a textura
como um gramático da seda.
Desvendo o que presta pelo som do corte.
O que ansiava achar não
acho
e esbarro em objetos despossuídos de lógica
que me encontram antes de qualquer pretensão.
O que fiz cabe numa caixa de sapatos.
Colecionava talhos de madeira,
bonecos
adornados com a ponta miúda do canivete.
Lá estava um dos sobreviventes, desfocado,
vizinho das medalhas escolares
e dos parafusos condoídos de ferrugem.
Um auto-retrato não seria
tão fidedigno.
Eu era aquela frincha de chão florido, casca
e húmus.
Quantas foram as miudezas que
não combinavam
com o conjunto e, na falta de harmonia,
abandonei no depósito da infância?
E se faltou confiança para
restaurá-las ao convívio,
faltou coragem para excluí-las em definitivo.
Somos o desperdício do
que estocamos.
Não aprendemos a desaprender.
Não doamos nada, nem a palavra passamos adiante.
O porão tem vida própria
e respira
o que jogamos fora.
O que refugamos na ceia volta a nos mastigar.
Tudo pode fermentar: o forro,
os passos, o odor do braço.
Tudo pode nascer sem o mérito do grito,
como um murmúrio ou estalar de um abraço.
Tudo pode nascer, ainda
que abafado.
(Segunda Elegia, Terceira
Sede)
Essa sensação
de ir descalço, a camisa
cheirando a sol de varal.
Tu, minha mulher, eras corrente
e água calma,
as oscilações da palha e trigo.
Teu corpo arvorava nos lábios
indecisos ou nos cabelos?
Na encosta da cinta ou nas dunas dos seios?
Quando começavas a te revelar? No desejo apetecido
ou na fome de um filho?
Como definir se a luz deitou as vestes?
Cumprias distâncias em mim.
Madrugando não alcançaria.
Venho de tua lonjura, os braços
eram remos
no barco e aço da âncora.
Acostumado à extensão das raízes,
não sobrevivo no vaso dos pés.
Passei a vida aprendendo a respeitar
teu espaço. Como povoá-lo
após tua partida?
(Sétima elegia, Terceira Sede)
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