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Jose Neumanne
Pinto, poeta, escritor e jornalista brasileiro, nasceu em Uiraúna,
pequena cidade do sertão do pequeno Estado nordestino da
Paraíba, em 18 de maio de 1951. Atualmente, vive em São
Paulo, onde exerce as atividades de editorialista do Jornal da Tarde
(do grupo de O Estado de S. Paulo) e de comentarista diário
da Rádio Jovem Pan ("Direto ao assunto"). Como
jornalista, foi repórter da Folha de S. Paulo, editor de
política de O Estado de S. Paulo e secretário de redação
do Jornal do Brasil. Ganhou o Prêmio Esso de Reportagem Econômica
e o Troféu Imprensa de Reportagem Esportiva, ambos em 1976.
Colaborou na página de Op Ed do Nuevo Herald, edição
em espanhol do jornal Miami Herald, com artigos mensais sobre o
Brasil. Lançou nove livros, três dos quais de poesia
- As Tábuas do Sol; Barcelona, Borborema; e Solos do Silêncio
- Poesia Reunida. Os outros são dois romances - Mengele,
a Natureza do Mal e Veneno na Veia -, um de reportagem - Atrás
do Palanque - e dois de ensaios políticos - Reféns
do Passado e A República na Lama. Acaba de lançar
o CD As Fugas do Sol pela gravadora CPC-Umes, lendo 30 poemas com
acompanhamento musical composto e interpretado pelo maestro Marcus
Vinicius de Andrade. É casado e tem três filhos.

Mistérios dolorosos e gozosos de Dom Jorge
Jorge
Luís Borges dedicou sua vida toda a compor enigmas para
o leitor decifrar e a engendrar charadas de fino gosto literário
cujas soluções são sempre inesperadas. Ele
inventou uma forma de narrar e a ela (mito que ele mesmo fundou)
subordinou seu próprio convívio com familiares e amigos,
quando não sua própria vida. Este texto é uma
tentativa de apresentar alguns dos gozosos e dolorosos mistérios
de sua vida, seu mito e sua obra, que talvez o surpreendessem tanto
quanto ele e ela nos cativam.
As fortunas - Num baralho de tarô aberto sobre a mesinha
de centro defronte ao sofá de costas para a janela em seu
apartamento na Rua Maipu, no centro de Buenos Aires, a carta mais
surpreendente talvez fosse a da fortuna. Só estive uma vez
nesse apartamento, foi uma visita fugaz, mas suficiente para perceber
que seu proprietário não era apenas monacal e austero,
mas também um homem sem luxos materiais nem riqueza a usufruir.
Seria um avarento? Improvável. A imagem transmitida por ele
ao interlocutor era semelhante ao que de sua obra poderia depreender
o leitor: não gozava de luxos. Ou seja, a fortuna crítica
não se traduzia necessariamente em fortuna pecuniária.
O apartamento não é pequeno demais, mas pelo menos
à época em que foi ocupado pelo gênio literário
era escassamente mobiliado: um sofá, duas poltronas, a mesinha
de centro junto à janela e nada mais no amplo salão,
a não ser fotos antigas emolduradas na parede e estantes
com porta de vidro contendo enciclopédias de lombadas escuras.
O gênio, vivo, era remediado e não recebia em direitos
autorais o suficiente para ter um conforto à altura de sua
fama.
Sobre essa austeridade monacal há um episódio real,
nada fictício, mas muito interessante: Flávio Tavares
- gaúcho que outro argentino, Ernesto Sábato, comparou
com Fiodor Dostoiévski, por causa de seu magnífico
Memórias do Esquecimento, sobre a guerra suja da esquerda
armada com a ditadura militar brasileira - testemunhou certa feita
o criador de O Aleph mascando flocos de cereais sem leite numa tigela
branca - uma cena de Simão do Deserto, de Buñuel,
em pleno centro de Buenos Aires.
Hoje, contudo, a marca Borges sustenta uma milionária fundação
com seu nome e a viúva, Maria Kodama, vive muito mais confortavelmente
do que ele mesmo usufruiu em vida. Com talento de negociante correndo
nas veias orientais, a ex-secretária que se casou com o chefe
in extremis soube muito bem capitalizar a glória do ilustre
morto, transformando em pecuniária sua fortuna antes apenas
crítica.
Os espelhos - Recentemente foi publicada no Brasil uma biografia
de Borges escrita por um inglês, James Woodal, intitulada
O Homem no Espelho do Livro. O autor veio ao Brasil e, num jantar,
me contou que Maria Kodama insistia tanto em lhe lembrar histórias
protagonizadas por Borges com cenários que incluíssem
espelhos, tigres e labirintos que ele passou a desconfiar seriamente
de que tudo aquilo não passava de "memória imaginada"
por ela, numa tentativa de construir o mito Borges, do qual ela
e a Fundação JLB vivem. É provável que
ele tenha razão, também é possível que
não tenha - afinal, tudo em Borges teria de ser forçosamente
dúbio -, mas de fato é perturbadora a forma com que
as pessoas do círculo do escritor - a Sra. Kodama principalmente
- relatam episódios que mais parecem contos de Borges do
que propriamente cenas da vida do escritor.
Em favor deles, é dever do autor destas linhas registrar
o estranhamento com que ouviu, ao telefone, o autor narrar, ao tomar
conhecimento da nacionalidade do interlocutor, uma cena de assassinato
a faca em Uruguaiana, cidade fronteiriça entre Brasil e Argentina,
aonde o levara o pai. O estranhamento deve-se à forma literária
da narrativa: era como se ele estivesse ditando uma de suas "ficções",
e não contando um "causo" a um estrangeiro sobre
o país do qual este declinava estar chegando.
De qualquer maneira, o espelho talvez seja a imagem adequada para
servir de metáfora ao esforço que o próprio
Borges fez, no que foi seguido pela viúva e pelos críticos,
de contar sua vida como se fosse parte de sua literatura, e não
o contrário - mito que Woodal enfrentou galhardamente, algumas
vezes com êxito, mostrando que essa pode ser uma meia-verdade,
pois cenas vividas (quem sabe, até a tal luta de Uruguaiana
ou outras vistas nos subúrbios de Buenos Aires) podem ter
inspirado algumas de suas narrativas apenas aparentemente atemporais
e sem geografia.
Os tigres - Além dos tigres enjaulados no Zoo de Buenos
Aires, outros dois, metafóricos, foram enfrentados a vida
inteira por Borges: a política e o sexo. O segundo tema é
delicado, mas, estando o autor morto, é possível tratar
dele com um mínimo de liberdade. Depreciado (por motivos
políticos, como veremos a seguir) o gênio em seu próprio
habitat, era possível se deparar em 1985, quando ele vivia
o auge de sua glória mundial, com piadas de péssimo
gosto, como a reproduzida numa revista humorística: a foto
de um livro com páginas em branco e o título A Vida
Sexual de Jorge Luís Borges.
O biógrafo britânico atribuiu a lacuna sexual na vida
de seu biografado a uma visita malsucedida, patrocinada pelo pai,
a uma prostituta em Genebra, quando a família vivia na Suíça.
O malogro da iniciação sexual, ansiosamente patrocinada
pelo pai, teria sido o desestímulo fatal para futuros conúbios
físicos. Borges foi casado duas vezes - uma com uma amiga
de infância, que abandonou sem sequer se dirigir a ela pessoalmente
(pediu a amigos que o fizessem por ele, enquanto viajava) e outra
com a secretária fac-totum no momento final de sua vida.
Consta que o primeiro casamento não foi consumado e o segundo
só se realizaria no plano dos negócios.
Foi uma lacuna importante: Bráulio Tavares, fanático
leitor do portenho fantástico, jura que nunca trocaria uma
tão longa e feroz abstinência sexual por um gênio
literário, por mais encantatório e glorioso que fosse,
como foi o dele.
A política lhe rendeu inimigos ferozes (e, do ponto de vista
ideológico, mais cegos do que ele mesmo) e a mágoa
de, mesmo sendo durante tanto tempo o melhor escritor do Planeta
em qualquer língua, nunca ter recebido o Prêmio Nobel
de Literatura. Era tido como fascista, sabujo dos militares, mas
se dizia um anarquista inveterado. Em 1985, em nosso único
contato pessoal, assim definiu sua posição: "A
civilização ideal é aquela que tem governos
que não aparecem". Na verdade, sua verdadeira posição
política seria definida apenas pelo ódio longevo e
teimoso que devotou ao líder dos "descamisados"
Juan Domingo Perón. O antiperonismo o proscreveu na Argentina
e terminou por impedir que recebesse o prêmio máximo
que um literato de seu tempo podia cobiçar, embora nenhum
premiado o merecesse mais do que ele mereceu.
Os labirintos - O Nobel sempre foi uma ferida aberta no coração
do autor da História Universal da Infâmia. Mas há
também episódios fortuitos nos labirintos entre sua
vida, sua obra e o mito que ela e ele construíram que, apesar
de contrariá-lo, na certa mais o divertiriam do que o amolariam.
É o caso, por exemplo, de um certo poema chamado Instantes.
Ele escreveu de fato um poema sob este título, um primor
de dose exata de doçura amarga em estilo literário
refinadíssimo. No entanto, não foi este nem outro
qualquer de sua riquíssima lavra que obteve maior sucesso
de leitura e até o aplauso de alguns acadêmicos incautos,
que se deixam enganar pelas aparências. O poema apócrifo,
uma espécie de testamento pífio e piegas da vida de
uma pessoa assaltada por uma amargura ligeira como uma valsa de
Strauss, continua correndo o mundo nas asas da Internet com sua
assinatura, que não o enobrece, mas fica cada vez mais empobrecida
pela conjunção de uma firma tão nobre com um
texto tão pobre.
A viúva Maria Kodama foi à Suprema Corte argentina
declarar que o falso poema não é de Borges e que,
por isso, ela não aceita receber um centavo que seja de direitos
autorais por sua reprodução - repetida em muitas línguas
no mundo inteiro, desde que um comunicador de rádio lhe atribuiu
por engano a autoria do poema cujo autor até hoje se perde
no tempo e não se conhece - para descobri-lo há seis
sites na Internet pesquisando nos EUA - sua origem.
Eis os mistérios dolorosos e gozosos da vida, obra e mito
de Dom Jorge: Luís Borges, suas fortunas não gozadas,
os espelhos em que não se mirou, os tigres que não
enfrentou e os labirintos nos quais nunca se encontrou.
O falso Borges
Instantes
Se eu pudesse viver novamente a minha vida,
na próxima trataria de cometer mais erros. Não tentaria
ser tão perfeito, relaxaria mais.
Seria mais tolo ainda do que tenho sido; na verdade, bem poucas
pessoas
levariam a sério.
Seria menos higiênico. Correria mais riscos, viajaria mais,
contemplaria
mais entardeceres, subiria mais montanhas, nadaria mais rios. Iria
a mais
lugares onde nunca fui, tomaria mais sorvete e menos lentilha, teria
mais
problemas reais e menos imaginários.
Eu fui uma dessas pessoas que viveu sensata e produtivamente cada
minuto da sua vida. Claro que tive momentos de alegria. Mas, se
pudesse voltar a viver, trataria de ter somente bons momentos. Porque,
se não sabem, disso é feito a vida: só de momentos
- não percas o agora.
Eu era um desses que nunca ia a parte alguma sem um termômetro,
uma bolsa de água quente, um guarda-chuva e um pára-quedas;
se voltasse a viver, viajaria mais leve.
Se eu pudesse voltar a viver, começaria a andar descalço
no começo da primavera a continuaria assim até o fim
do outono.
Daria mais voltas na minha rua, contemplaria mais amanheceres e
brincaria com mais crianças, se tivesse outra vez uma vida
pela frente.
Mas, já viram, tenho 85 anos e sei que estou morrendo.
De Nadine Stair - Atribuído a Jorge
Luís Borges
O verdadeiro Borges
EL INSTANTE
? Dónde estarán los siglos,
dónde el sueño
De espadas que los tártaros soñaron,
Dónde los fuertes muros que allanaron,
Dónde el Árbol de Adán y el otro Leño?
El presente está solo. La memoria
Erige el tiempo. Sucesión y engaño
Es la rutina del reloj. El año
No es menos vano que la vana historia.
Entre el alba e la noche hay un abismo
De agonias, de luces, de cuidados.
El rostro que se mira en los gastados
Espejos de la noche no es el mismo.
El hoy fugaz es tenue y es eterno;
Otro Cielo no esperes, ni otro Infierno.
(El otro, el mismo)
Tentativa canhestra de tradução:
O INSTANTE
Onde estarão os séculos, onde
o sonho
De espadas que os tártaros sonharam,
Onde os fortes muros que aplainaram,
Onde a Árvore de Adão e o outro Lenho?
O presente está só. A memória
Erige o tempo. Sucessão e engano
É a rotina do relógio. O ano
Não é menos vão que a vã história.
Entre a alva e a noite há um abismo
De agonias, de luzes, de cuidados.
O rosto que se mira nos gastos
Espelhos da noite não é o mesmo.
O hoje fugaz é tênue e é eterno,
Outro Céu não esperes, nem outro Inferno.
(O outro, o mesmo)
Leia também Alguns
equívocos literários.
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