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Rui
Alão por ele mesmo
Meus primeiros textos publicados
foram um par de artigos para o Jornal do Politécnico e um
pequeno ensaio para a Revista Nova Stella, na época editada
por alunos do Instituto de Física. Tinham temas grandiosos,
certamente fora do meu alcance. Na época, cursava arquitetura
na USP e não me dava conta das minhas impossibilidades: escrevia-os
com muito gosto e certo divertimento.
Depois de formado em Arquitetura, cursei Ciências Sociais
durante 2 anos, com interesse especial por Antropologia e História
das Religiões, apesar de ateu (segundo alguns, "ateu
fervoroso"). Alguns contos vieram a sair destes estudos, como
a série do antropólogo.
Comecei a escrever pequenos contos a partir de 1997, provavelmente
sob a influência do contato com os textos de Italo Calvino,
J. L. Borges, Julio Cortazar, Dino Buzzati, Lampedusa e Thomas DeQuincey.
Continuo a escrever pequenas histórias e acabo (jan. de 2003)
de finalizar um roteiro de longa metragem, ainda sem destino certo
(o set, a gaveta, ou o lixo).
Fiquei entre os três finalistas do Prêmio Redescoberta
da Literatura Brasileira, edição 2000, na categoria
contos, obtendo menção honrosa.
Trabalho como arquiteto desde 1989. Hoje tenho um pequeno escritório
de arquitetura e web design.
Notas de um antropólogo cansado
"Ao chegar a um nova cidade, o viajante
reencontra um passado que não lembrava existir: a surpresa
daquilo que você deixou de ser ou deixou de possuir revela-se
nos lugares estranhos, não nos conhecidos."
Italo Calvino. As cidades invisíveis.
Parte 4
Foi num fim de tarde que, depois de vencer
a altura de um monte de cor alaranjada, avistei um povoado de casas
tingidas de azul turquesa. Estranhei logo aquela cor, rara na natureza,
ser tão abundante aqui para que com ela pudessem tingir as
casas, e tentei imaginar de onde aquelas pessoas extraiam o seu
pigmento, sem chegar a nenhuma solução. Continuei
a caminhada.
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.
Percebi que a minha aproximação causava um certo alvoroço
no povoado. Estranhavam, como já havia acontecido em outros
lugares, a cor da minha pele, meus cabelos lisos, minha roupa e
meus apetrechos. Mesmo não compreendendo minha língua,
deram-me abrigo num sopé de monte, numa pequena gruta.
Duas pessoas vieram à noite para dormir ao meu lado e provavelmente
vigiar-me. Quando peguei meu caderno para, a luz de velas, fazer
as anotações correspondentes aos dois últimos
dias, fizeram gestos claros de desaprovação e percebi
que deveria dormir sem escrever. Soube mais tarde que não
era permitido escrever em nenhuma circunstância e que, tudo
o que eu quisesse lembrar daquele lugar e daquelas pessoas, deveria
guardar em mim, em minhas lembranças, no envelhecimento do
meu corpo e nos objetos que aprendi a produzir lá e que trago
agora comigo. Mas isso foi o que percebi bem mais tarde; no momento,
apenas obedeci ao que parecia ser uma proibição momentânea,
que desapareceria, pensava eu, quando passassem a me conhecer melhor.
Nos dias que se seguiram me foi permitido pernoitar na casa de um
dos moradores. Era um senhor que vivia só e trabalhava com
metal. Tinha uma voz que acumulava anos em rouquidão. Risonho
e bem humorado, tentava sempre que podia explicar-me o nome das
coisas e, quando errava minha primeira tentativa de pronúncia,
invariavelmente ria da minha incapacidade, mas era um riso bonachão
e sincero, e me acostumei a responder a ele também rindo.
Chegamos a ficar algumas vezes até tarde da noite gargalhando
um do outro a ponto de acordar dolorido pelos risos da noite anterior.
Comecei assim a aprender a sua língua estranha.
Não consigo sistematizá-la, talvez por que a tenha
aprendido na prática, sem nenhuma gramática. Sua característica
principal é a de aplicar sufixos aos verbos para transmitir
o estado de espírito do narrador. Esse mecanismo tornava
impossível dizer algo sem se colocar subjetivamente em relação
à ação. Na verdade, existia uma infinidade
de sufixos para exprimir cada mínima variação
de humor.
Era impossível, por exemplo, referir-se a algum fato, por
mais banal que fosse, sem mostrar (através dos sufixos) como
aquele fato afetava o seu humor. Percebi com o tempo que não
era tão relevante o que se dizia quanto como se dizia e como
aquilo o afetava, se era bom, gostoso, instigante ou aborrecido.
Essa qualidade dava um caráter de tal modo subjetivo ao que
se queria transmitir que era incrivelmente trabalhoso fazer qualquer
abstração. Se alguém tentava explicar porque
a ventania de areia daquele ano tinha sido mais forte, o fazia criando
uma hipótese geralmente esdrúxula que continha já
um certo juízo sobre o fato. Seria como dizer: "a tempestade
desse ano foi aborrecidamente forte provavelmente porque o mar está
irritado e deseja desfazer-se desajeitadamente do seu excesso de
terra". Toda abstração ficava ridícula,
já que sempre incluía o estado de ânimo dos
envolvidos, afastando qualquer possibilidade de isenção.
Sem poder escrever (portanto sem poder sistematizar, já que
a organização das estruturas, no meu caso, acontece
precisamente no momento em que escrevo, nunca antes) restou-me acompanhar
aquela gente nos seus afazeres diários. Foi, aliás,
difícil para um antropólogo como eu, acostumado a
tomar notas, desfazer-se do hábito da escrita para ceder
ao fluxo da vida simples que corria por aquele lugar. Mas a dificuldade
não durou muito: logo comecei a concentrar-me no meu cotidiano
de trabalho, nas viagens, nas pescarias, nas conversas noturnas
e fui, pouco a pouco, distanciando-me da escrita e do hábito
de observar com olhos de estrangeiro. E parece que o fato de ter
deixado de lado as notas me desobrigava da antropologia: passei
dias, depois meses vivendo para o agora, para as colheitas, para
o trabalho com couro e metal, lembrando-me apenas ocasionalmente
do motivo que me levou a travar contato com essas pessoas. E, quando
lembrava, sentia meus pensamentos incrivelmente longe do que eu
era naquele momento, sentia que o antropólogo estava já
a uma distancia quase infinita, quase impossível de ser recomposta.
Por algum tempo, trabalhei na lavoura. Acordava antes do amanhecer,
juntava-me aos outros e íamos: os homens para os campos e
as mulheres para os bosques, colher frutas.
Meus companheiros trabalhavam silenciosos mas com alegria. As amizades
que fiz nesse período aconteceram à custa de sorrisos
e não muito mais, pois a atividade de cortar hastes e colher
não dava margem à conversa. É como se nossa
atenção fosse absorvida por completo pelas cores das
plantas, pelas auroras e pelo trabalho duro de tentar fazer algo
germinar num solo seco e arenoso.
Tempos depois trabalhei como pastor de cabras. Depois passei a caçar
e pescar. E mais tarde a trabalhar com couro e ferro. Nesta última
fase, ocupei a casa de meu antigo professor da língua nativa;
ele havia morrido e acharam que eu deveria ficar com suas ferramentas
e substituí-lo no seu trabalho.
Lembro quando cavamos um buraco no chão para resistir a uma
tempestade de vento, durante uma viagem ao sul em que pretendíamos
caçar um animal que nunca cheguei a ver. Lembro também
que uma vez por ano o lago que abastecia a aldeia ganhava uma cor
rosada e, enquanto isso acontecia, devíamos nos abster de
beber. Esse período às vezes chegava a durar quatro
dias e era proibido fazer qualquer tipo de provisão de água
para suportá-lo. Quase todos os anos alguém morria,
geralmente uma ou duas crianças ou um velho.
Era-me impossível, na época, escrever sobre essas
vivências de modo que, se agora o faço, é porque
preciso reconstituir intimamente uma imagem clara desse povo. Algumas
vezes cheguei a pensar em manter anotações sigilosamente,
usando os momentos de privacidade que havia conquistado, mas dois
motivos me impediam: o medo de ser descoberto e a sensação
de que não se tratava absolutamente de um tabu; havia uma
certa sinceridade envolvida na proibição, como se
o fato de escrever, por si só, causasse algum mal ao escritor.
E estes motivos me pareceram ainda mais persuasivos depois que descobri
que houve, um dia, uma escrita entre eles.
2.
Quando, depois da morte do ferreiro, o substituí em seu ofício,
tomei posse de sua casa e de suas ferramentas. Em quatro delas,
que pareciam pertencer a uma mesma família, encontrei uma
mesma inscrição: "eu sou Fídeas",
em caracteres gregos. A descoberta me desconcertou pelo conteúdo
enigmático dessa frase num grupo de ferramentas. No princípio
guardei segredo de minha descoberta, com receio de ser castigado.
Depois de algum tempo, comentei o fato com outro ferreiro. Espantou-me
que ele nem mesmo soubesse que aquilo (aquelas linhas entrecruzadas
numa ferramenta) era escrita. Percebi nesse momento que eles proibiam
algo com o qual haviam perdido completamente o contato, algo que
sequer sabiam identificar.
Lembrei-me então que os gregos haviam tido um comportamento
arredio em relação à escrita. A Odisséia
só foi escrita uns três ou quatro séculos depois
de ter sido composta, apesar dos gregos já dominarem a escrita
há muito tempo. E uma das explicações plausíveis
para esse fato era que a escrita, para os gregos, tornava infiel
qualquer relato já que não podia carregar consigo
a entonação, a expressão facial, o duplo sentido
natural à linguagem oral. Os gregos a usavam, inicialmente,
para fins comerciais e atuariais, mas nunca para registrar uma história
sagrada ou uma interpretação artística.
Mais tarde confirmei que essas pessoas com as quais convivi nos
últimos três anos dividiam sua opinião com os
gregos: diziam que a escrita congela os significados e que só
a palavra oral tinha a possibilidade de trazer consigo a expressividade
necessária para coisas importantes. Expressividade que era
carregada através de entonações, expressões
faciais, gestos, ritmos furiosos ou mansos. Escrita, e portanto
sem esses elementos, diziam eles que a palavra não pode ter
valor e perde sua essência. "Que adianta escrever sobre
os cabelos de uma morena se quem vier a ler continuará ignorante
de quem sou eu e o que realmente quero dizer com o que escrevo.
Posso dizer: 'os cabelos daquela mulher são distraidamente
alisados pelo vento manso.' Não saberá se o digo com
fúria (por que não gosto da morena), se digo cinicamente
(por que tenho alguma intenção de desprezá-la),
se digo com despeito (por que ela havia me abandonado), se digo
sincera mas distraidamente (por que vejo realmente alguma beleza
em suas ondas), ou ainda se digo apaixonadamente (por que vejo beleza
em seus cabelos e essa beleza me parece sublime)". Quem me
disse essa frase de modo convicto me explicava a razão do
abandono da escrita. Certamente não foi esse o motivo do
seu abandono, mas esta é a opinião corrente do povo
sobre a futilidade da escrita. Ela "só serve para tornar
artificialmente perenes (através do registro escrito) opiniões
que são fugazes; só pode se referir a verdades efêmeras
e deixá-las registradas como se fossem eternas." A escrita
seria, portanto, um instrumento da mentira, da ilusão, do
sonho. Aliás, "mentira", "ilusão"
e "sonho" são significados que só tem uma
palavra na língua desse povo, de tal forma que não
se sabia se alguém estava se referindo ao que havia sonhado,
a uma ilusão de sua percepção ou memória,
ou a uma mentira deliberada.
3.
Não sei se sou ainda antropólogo já que, sempre
que tento lembrar-me de algum aspecto interessante daquele povo,
tudo o que consigo salvar são memórias de particularidades,
de pessoas, de detalhes de objetos, do que uma certa boneca feita
de palha significava para uma criança de cabelos ondulados
e olhos castanhos e tristes, ou o que uma certa árvore significava
para um amigo que havia casado à sua sombra.
Lembro do jeito como as mulheres preparavam o trigo e o transformavam
em massa. Lembro do cheiro dos temperos que usavam nas comidas e
dos perfumes que faziam combinando flores e grãos. Umas lembravam
manjericão, outras puxavam para o jasmim ou para o perfume
das folhas de laranjeira. Lembro da cor da pele dessas mulheres,
que era do mesmo marrom escuro avermelhado da terra em que viviam.
Lembro de algumas brincadeiras, como a de esconder as roupas da
noiva antes da cerimônia, de modo a fazê-la acreditar
que não poderia casar... e do desespero que essa manobra
causava. Lembro de olhares de ternura e de raiva absolutas. Lembro
do jeito que o ferreiro tinha de rir de mim quando tentava pronunciar
algo em sua língua, lembro da cor e das ondas dos cabelos
das mulheres, lembro de cheiros e de olhares, e de sabores e de
ventanias de areia. Lembro de como pescar em buracos fundos e estreitos
cavados em lugares desolados e lembro até mesmo dos peixes
que saiam milagrosamente deles, peixes cegos que se debatiam sem
saber o que os havia tirado do seu mundo subterrâneo.
Agora que os deixo para trás e ainda vejo suas fogueiras
brilharem no horizonte, creio perceber a coerência do impedimento
da escrita. Ela, no final das contas, pouco teria me valido, já
que tudo o que faz dessa gente um povo único não pode
ser transmitido por palavras. Depois de anos falando a língua
deles (mal posso escrever em minha própria) sou ainda prisioneiro
em simular pensamentos através dela, usando o seu costume
de aglutinar verbos e advérbios.
Isto tudo penso agora, e compreendo agora, já distante alguns
quilômetros de tudo o que aconteceu naquele lugar. Justamente
agora, em que sinto estar violando algo se escrevo, se ouso traduzir
em simbolozinhos gráficos o que me aconteceu naquela época.
Hoje, se escrevo, vejo o quanto esses simbolozinhos são inúteis.
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