Carlos
Tavares por ele mesmo
Sou paraibano, nascido em João
Pessoa, em 1954.
A minha paixão pela literatura
vem desde a adolescência, com a leitura, depois com rascunhos
de poemas, rabiscos de ficção. Depois que entrei
nafaculdade (Letras), me juntei a um grupo de poetas e parti para
a luta. Publicávamos no Correio das Artes (encartado aos
domingos em A União),era um grupo interessante, feito de
poetas - Marcos Tavares, Jomar Morais Souto, Águia Mendes,
Antônio Moraes de Carvalho, Sérgio Castro Pinto -,contistas
- Carlos Tavares, Adalberto Barreto, Aldo Lopes, Antônio
Costa; eensaístas - Hildeberto Barbosa Filho, Gemy Cândido,
Carlos Aranha e outros.
Sempre achei difícil
conciliar a literatura com ojornalismo. O dia a dia melevou a
escrever mais sobre a obra dos outros do que cuidar da minha própria
ficção. Sempre achei também literatura algo
muito sério para sermos escritores de ocasião.
Depois que me afastei
do grupo, vim para Brasília, em 1986, só escrevi
dois ou três contos, um deles este Adágio, e isso
ocorreu não por esquecimento do escritor que me habita,
mas sim porque o que faço exige muito de mim, a questão
do tempo atrapalha, e o trabalho com a linguagem, o lirismo muitas
vezes espontâneo que percorre meu texto sãoaspectos
estilísticos que me consome tempo e preocupação,
verdadeira agonia.
Tenho um livro
de contos publicado porque ganhou um prêmio na UFPB. São
contos que reuni no volume intitulado Fábulas da Febre.
Estou concluindo
um romance chamado O Homem Que Detestava a Memória,
já vai com 400 páginas escritas a mão.
Como a maioria
dos escritores, meus temas são sempre os mesmos - o medo
das perdas, o medo da morte, o passado, o amor e a vida. Eros
e Tanatos estarão sempre presentes em tudo o que faço.
Adágio negro
Para Marilda
(...) Pois de tudo fica um pouco.
Fica um pouco de teu queixo
no queixo de tua filha.
De teu áspero silêncio
um pouco ficou, um pouco
nos muros zangados,
nas folhas, mudas, que sobem.
Ficou um pouco de tudo
no pires de porcelana,
dragão partido, flor branca,
ficou um pouco
de ruga na vossa testa,
retrato.
(...) E de tudo fica um pouco.
Oh abre os vidros de loção
e abafa
o insuportável mau cheiro da memória.
Carlos Drummond de Andrade
Na brancura espessa da manhã o sol
imprime suas ondas de luz nas paredes do meu quarto e me reduz
a um peixe perdido no aquário da existência. Já
não sinto as lanças da solidão no meu corpo,
nado em direção ao meu nicho de nuvens, toco as
bolhas de ar que brindam meus pulmões com a fumaça
encardida dos cigarros que fumei enquanto lutava contra a insônia.
A impressão de que a terra parou, de que as pessoas não
existem, eu não existo, que tudo é ilusão,
golpe de vista, torpor, delírio, maquinações
do sonho e do inconsciente me persegue há semanas; e eu
já não sei se vale a pena erguer-me dos lençóis,
se alguém sentirá a minha falta se eu resolver ficar
aqui deitado, infinitamente. O problema é que não
sinto mais nada - nem amor, nem desamor, nem alegria, nem tristeza;
não faz tanto tempo que estou assim, exposto às
formigas que procuram invadir o meu leito, aos maribondos que
penetram o quarto pelas janelas, aos gafanhotos que montam guarda
sobre os móveis, às baratas que rastejam pelos meus
braços, aos morcegos que insistem na volúpia do
sangue, às ratazanas que recusam o veneno e partem para
o ataque, trucidam borboletas e minhocas - meu quarto virou um
delírio, um circo, uma arena de pesadelos!
A única vantagem dos lençóis, das cortinas
cerradas, da companhia dos bichos é que o mundo duro e
rígido continua girando lá fora e eu padeço
de tudo aqui dentro sem incomodar ninguém, sequer o zelador,
que antes era obrigado a subir três andares para cobrar
o condomínio; mas ele desistiu, afinal o prédio
será demolido em breve, sua estrutura está condenada
e certamente desabarei junto com ele. Serei parte desses futuros
escombros, pedras, poeira, caliça e ferragens, meu coração
soterrado, meus olhos triturados, a ossada na argamassa ressequida
da destruição, o barulho dos guindastes erguendo
do chão essa carcaça sem brilho, campanário
de pequenos pecados que saí distribuindo pelas estradas
dia após dia, quem sabe escape ao menos a memória
de uma época em que ainda podia me fazer presente na vida,
aquele antigo corpo da juventude que o tempo derruiu, minhas tristes
ruínas, o fim tão almejado que se aproxima.
Além do porteiro, o telefone toca duas ou três vezes
por dia, depois pára, eu nunca atendo, acabo puxando a
tomada, apago as luzes, fico na penumbra como pássaro assustado
no fio, cabelos desalinhados, ralos, a calva aos poucos deixando
reluzir o que resta do meu crânio, esse brilho fosco de
cada dia, meus olhos que nada enxergam além do reflexo
pálido e céreo do meu rosto no espelho. Depois resolvo
tomar um banho, mas a água foi cortada, as torneiras pingam
o barro molhado e a ferrugem das encanações condenadas,
afinal apenas eu, um escriturário que trabalha meio período
no andar de cima, e o zelador, habitamos essa espelunca que em
breve tombará em meio ao quarteirão mais desolado
do bairro.
Resolvo ficar de frente para o espelho e noto que ganhei uma nova
cicatriz, no centro do queixo; tenho mais duas na face esquerda,
três na direita, cinco na testa, mas as raízes delas
residem no tronco interior do meu corpo, florescem apenas as marcas
que deverão repousar para sempre em cada lado do meu rosto,
embaixo, acima das mandíbulas gastas que trituram apenas
o ar que ainda respiro. Às vezes costumo passar de duas
a três horas diante do espelho e não queiram saber
os detalhes que descubro, dentro e fora dos globos oculares, nas
estrias do branco dos olhos e nas fímbrias azuladas que
imagino ver no cristalino estragado pelas queimaduras do sol,
resultado das semanas que passei antes de me enfurnar, deitado
sob o sol perto de uma estrada que a nada leva, apenas uma estrada
que consegui trilhar sem medo, desarmado dos perigos, exposto
ao vento e à chuva, simplesmente porque achava ser aquela
uma das experiências de solidão mais ousadas que
alguém poderia intentar. Caminhar, andar, caminhar, correr,
passo a passo em direção ao nada, simplesmente ao
nada que se alonga diante de meus olhos dentro e fora da estrada
porque sei que sua intersecção é o meu próprio
corpo em ruínas, a boca sem dentes, as mãos cobertas
de feridas, as pernas cansadas, o tórax arfante, os ombros
caídos, o olhar ensombreado e tristonho. Observei no espelho
que as rugas despontam, reduzem o meu semblante ao pardo trêmulo
e ondeante das máscaras funerárias, a testa engelhada,
o nariz entortado, as orelhas amarrotadas como pequenos abanos
de palha, o pescoço flácido e as aranhas vasculares
instaladas nas teias das artérias que ainda pulsam, bombeiam
um pouco de de ar, de sangue, de vida.
O tempo que passei contemplando esses estragos fora o suficiente
para imaginar que está na hora de colher as pedras, arrumar
a casa, podar as primaveras que se enramam nos parapeitos das
janelas, recortar as rosas das jardineiras, encaixotar os livros,
arrumar as malas, rever as palavras, redesenhar a sede da memória
e do amor, revolver as florestas de cal onde me escondi do mundo,
catar os sinos que anunciam a demolição, retirar
as cercas de dentro do peito, reflorir as varandas que se fecham
ao meu redor e quase me asfixiam, reentoar as distâncias
entre o que fui e o que hoje sou, curvar-me aos gerânios,
beijar a terra dos finados, sacudir as cinzas do terno e apertar
as gravatas, modelar os olhos, o nariz, a boca que já não
ri, o cenho de cera que emurchece, moldar as mãos e o beijo,
lapidar a falta que não se faz quando se decide recuar
e sumir, reconhecer o terreno das desilusões, o pântano,
as arapucas do cotidiano, apertar os cravos dessa coleira de agonia,
destronar as fúrias que me espreitam no sonho e no sono,
remontar os púlpitos dos anjos, rever as preces para nada
desfiadas, desancar a realidade, sorrir para o delírio,
ter a coragem do devaneio e da treva, da solidão dos ratos,
devolver a prata das ruínas, recitar o silêncio das
madrugadas, retrilhar as palavras na luta contra as traças,
repintar o jardim, rebrotar as cores dessa paixão, cobrir-me
de lírios e violetas que se despregam dos caules esturricados,
devolver as auroras aos pássaros que aprisiono, reavivar
as noites com os meus próprios sussurros, torcer as barras
dessa angústia, é hora de dobrar as esquinas, desaparecer
na textura das sombras, repor na penumbra o éter do soluço,
é hora de encerrar a caminhada, lustrar o espanto, fechar
os laços nas vigas, abotoar a camisa, os punhos, os sapatos,
recolher as armas, partir, singrar, sumir, voar.
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