
Poemas de Sylvia Beirute*
POEMA DE BENEFICÊNCIA
introduza um colapso numa dúvida. recolha-a por elementos. coloque perguntas ao
redor. as respostas situam-se entre tempos verbais. um detalhe apaga-se para dar lugar a outro. a memória como um todo. qualquer força para medir é uma inexpressão na arte.
não há um só caminho aberto em direcção a um caminho aberto. imperdibilidade é um
modo feio de beleza. as coisas mais belas são decíduas porque não assíduas. como
aquele fragmento de biografia sem palavras que procura corporalidade no texto. o seu
instinto difásico é como um diálogo em que as duas linguagens se friccionam e
encontram como que numa orla central em que tudo o resto se autopune até à morte,
ficando um quadro de órgãos estrelados. quem entrou aqui introduziu um colapso numa dúvida, recordo. quem tem dúvidas não morre verdadeiramente. recolher elementos de
dúvida é uma ocupação como qualquer outra. os ocupados não morrem. a estética
escultural do olfacto é mais importante do que as auto-estradas. por isso, vá a pé na imaginação férrea do silêncio. cheire a paisagem que se absorve lentamente ao fundo e
que rasga com ternura a ternura do céu de outono. não ande demasiado. quanto mais
andar mais esperança surge. surgir esperança é surgir um espelho, e um espelho é difuso apenas na interioridade. intimidade. é como o poema. o poema que mudou. que se
deslocou até aqui porque fez uso das possibilidades, probabilidades, matemáticas e
deslumbres que a arte oferece. ontem, quando o visitei, o poema era literatura. hoje é mistificação das bases. e ter um pensamento único, convenhamos, é a fruição da
vanguarda. a vanguarda converte porque gera metades de tudo o resto. e tudo o que é metade se perde.
AVISO
se tiver sintomas de poema, aguente,
não resgate o orgulho, guarde, quando falar
com os outros, uma distância
de, pelo menos, um metro,
fique em casa, não vá trabalhar, esqueça
rotinas graves, monólogos de rupturas,
a periferia de uma lição integral de intimidade,
não consulte o oráculo, des-
frequente-se a si mesmo, não vá à escola, evite
locais muito populosos e com densidades intrínsecas,
evite cumprimentar com abraços,
beijos, apertos de mão.
se tiver sintomas de poema, apenas informe
o silêncio, que ele saberá o que fazer:
esperará que o poema levante a cabeça
e o decapitará. sem uma palavra.
NO DIA DA MORTE DE JOSÉ SARAMAGO
agora, livre da coadjuvância das afectações: os
deuses se escondem nas artérias do teu
silêncio, na tua fraqueza perfeita porque
sem o hábito de se auto-observar.
voltaste a ti: numa outra intermitência da morte, com
o siblime que é tudo aquilo que ignora um todo e
conduz uma perspectiva até o quociente interno
de uma invisibilidade que fala através
do teu questionário incicatrizável.
e daí tudo vês: vês-me faltar de propósito à
conclusão do meu poema, vês o peso
da omnipresença do abastracto, da hora antiga,
vês as minhas infâncias e urgências juntas e tar-
dando hoje em se converterem, devolvendo-me
ap qie eu era: ao início do dia.
INTIMIDADE
não se trata de uma sede ser capaz de fazer evaporar
um oceano
ou de uma mentira poder ter absoluta razão, ou que
envaidece a abstracção na oxidação do cansaço estético.
e mesmo que não saibamos de que se trata,
sempre diremos que não consiste a fotografia deste momento
em inevitar a obliteração dos exemplos, de uma
consciência que extravia
colégios de identidade, palácios de consolação, relógios
casuais que dão forma aos pormenores do tempo.
encontramo-nos na orla do círculo, na superfície do branco
após o negro que o percorre e mutila como a
invenção que brota ou o poema que transnomina no ventre
e cujos versos mudam de lugar em caso de fogo
e natureza intacta.
sabemos apenas que o presente
é uma prótese do passado, e talvez isso chegue
para que devamos fechar os olhos, contornar os nossos
corpos sem uma só morte sobrevivente, e deixar que
o momento prossiga em completo vazio.
BUENOS AIRES
não haverá vontades ou actos linguísticos,
nem contrários ou anti-contrários.
nenhum ilhado de nuvens brancas
sobrevoará a cidade hermética
do meu lunfardo.
tão-pouco haverá um orgulho cómico
ou uma atmosfera
em linha recta no mapeamento absoluto
dos meus olhos.
neste instante, nem piazzolla gerará
inflamações num «volte sempre»
e é seguro dizer que as decisões se medem
com distâncias ocupadas por vazios
que arrastam memórias livres.
hoje não haverá vontades ou actos linguísticos,
uma cor clara comove uma cor escura até que
esta clareie ou dissolva,
o amor deu a sua última volta, e a poesia planou
na literalidade móvel de um roteiro interior.
em breve, inextinguimos o tempo e o espaço
que nos extinguiu a nós.
CIDADE-PONTO
{ao tiago gomes, com amizade}
não escrevi um livro em miniatura sob uma lupa falsa.
não pedi qualidade aos clássicos.
não pretendi reparar a eficácia de qualquer sistema humano.
não endossei poemas porque os poemas não são cartas.
não tenho um cativeiro de poetas.
não visitei cidades-poema.
não segui preceitos que se vejam.
não azuleci por pertencer ao céu.
não tive ilusão e coragem para crer na desistência.
não escrevi que o fingimento pode ser um ódio com casca.
não tenho maneiras puramente estéticas.
não tenho processos literários.
não tenho dois corações.
não li masaoka shiki ou matsuo basho.
não li a crítica para não perder a liberdade e o meu
dom impreparado.
não peguei no tempo e o atirei para dentro do corpo
como células estaminais.
não escrevi sobre a revolução industrial.
não respeitei o meu passado enquanto índice temático.
não estimulei diagnósticos de subtileza grosseira.
não recuperei emoções com a cabeça.
não coloquei questões delicadas no campo da poesia suprema.
não transferi permissões de mim para mim.
não imaginei versos paralelos para prender significados.
HIERARQUIA
o acto de perguntar é uma confiança expectante,
a veterania de um exemplo acaba por matá-lo,
mas pouco disto é essencial para já:
na poesia, enquanto dilúvio da existência, as
influências do poeta são as veias do seu poema homicida,
veias que carregam químicos dispostos livremente
no corpo, mudando de lugar,
subindo aos olhos que lêem e que tentam
colonizar hemorragias
nos ouvidos puramente visuais.
mas haverá sempre alguém na audiência
que pergunta,
que questiona directamente o poema e o seu exemplo,
alguém que interpela a
legitimidade de quem redige e assina o que é, afinal, da natureza,
alguém que pressente muros de berlim, ouvidos, narizes, ilhas,
simulacros do dessonhado, do oculto.
e nesse momento eu sorrio e não deixa de me ocorrer
que pressentir nem sempre te levará
à infância de um sentimento.
UM CABELO À NOITE
um cabelo à noite o amor.
os seus filhos nascem de binóculos.
ninguém morrerá dele.
ninguém morrerá dele apesar
do caroço de luz indissociável
de sua síntese efémera.
e vemo-lo no parque, pela cosmovisão
do sonâmbulo, no transe do bom, de uma
contradição consciente.
o amor, existindo também na beleza
exterior das coisas, é biodegradável no
interior de um corpo de erros.
e ninguém morrerá dele.
ninguém morre com um rosto futuro.
PUDOR
o leitor não deve saber que resisto
à fragilidade de ocultar a razão, que as
modas me recebem
pela cintura, que cortei o cabelo,
ou que estive em são paulo
com 36 graus.
o leitor deverá saber, para que lhe
percorra a extensão do iodo da sua leitura,
que estou clinicamente só e que
o meu fim espera num marsúpio
entre o compromisso e a morte,
e a vida que me resta
flutua num passado convulsivo.
LENDO MANOEL DE BARROS
{ao ademar santos, com amizade}
um certo encardido nas reminiscências
entre poemas,
permissão da sua infinitude
absoluta.
nos poemas, reminiscendos ou não,
no seu movimento se situa
o denominador comum dos seus placebos:
todos se deslocam
em busca de alimento.
O BEIJO DE RODIN
não quero fazer filhos
sobre desejos adicionais
e tardios, desejos sobre a tela tardia da tarde,
desejos sobre o azul infindável
de boas razões indesejáveis.
não quero desejos de desejos,
desejos que retiram desejo a desejos de
tempo raso
e de feitio de auto-pertença
e leves contradições sem alarme e gafanhotos.
não é em vão que
o beijo de rodin é de pedra.
AÇÚCAR-MATÉRIA
já ter acontecido:
à falta de um vício, ser-me proposto um exemplo
de não exemplo,
o projecto de ser uma mulher de açúcar,
e reverberar a personagem no meu rosto.
e nos anti-corpos da pré-exibição
ver um piazzolla, um piazzolla também de açúcar
e uma composição instantânea, o tango
de uma escalada em condição de cristal.
sim, já ter acontecido, já ter acontecido muitas vezes:
sermos feitos de açúcar, porque
assim que a dança começa, piazzolla,
sempre os corpos desabam.
PEQUENO POEMA PARA A MORTE
que a palavra te redima do erro. que a palavra seja o erro.
luís quintais
primeiro: preparar a sombra. rumorejá-la. desflorá-la.
segundo: escolher o objecto. fixá-lo. intuí-lo. medi-lo.
terceiro: retirar o objecto lentamente. analisar a sombra.
quarto: estender o corpo populoso no solo, sobre a sombra.
quinto: imaginar o objecto excluído.
sexto: sentir o corpo adquirir a forma do objecto excluído.
sétimo: sentir a sombra percorrer a distância
entre o corpo e o objecto excluído como se tivesse
havido contemporaneidade entre os dois.
oitavo: analisar a sombra do ponto de vista dos relevos
adquiridos e danos residuais.
nono: excluir a sombra. {o terno é a antítese do eterno}
décimo: fechar o corpo.
CONOSCENZA
{o teu reconhecimento é a tua dependência},
não o deixes passar da fase da costura.
surge. insurge. inespera.
adquire expressões através do
eco difuso dos vegetais, coloca-te
nas ranhuras da madeira.
há uma vida imprópria algures.
pode não ser como aquela que espera
na plumagem de uma memória
por antecipação, mas protege o silêncio
e não deixa coagular o sangue.
{o teu reconhecimento é a tua dependência},
e quanto mais o memorizares
mais afastado estarás
dos lados obtusos de quem te deseja habitar
e da semântica temporal
das pessoas que te pedirão um
poema bonito,
e nada pior do que escrever
um poema bonito.
* Sylvia Beirute é natural de Faro, Algarve, Portugal, e nasceu em 1984. Estuda cinema e teatro. Escreve poesia para mudar o {seu} mundo. É a favor do Acordo Ortográfico, na versão de 1945. Autora do blog “uma casa em beirute”.
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