Cinco poemas de Carlos Alberto Jales

 

 

Manhãs de abril
          
(Em lembrança de Emily Dickinson)

 

Nessas pálidas manhãs de abril,
um vento antigo se apresenta.

 

Vem de longe,
ou habita um estranho mundo?

 

Traz a voz estrangulada dos náufragos,
o recado das solidões,
ou prefere esquecer a profundeza dos abismos?

 

Nessas  pálidas manhãs de abril,
um vento antigo se apresenta e carrega com toda pureza
o fogo dos extintos vulcões

 

 A monotonia verde-azul

 

A monotonia verde-azul
é a vitória do mar

 

As gaivotas peregrinas voltando á noite
é a vitória do mar

 

Os veleiros dissidentes embriagados de sal
é a vitória do mar

 

A tempestade que traz à praia o último náufrago
é a vitória do mar

 

O vento que conduz a chuva e espanta a calmaria
é a vitória do mar

 

No mar habitam as vitórias

 

No homem habitam as derrotas,
esquálidas damas esgarçadas.

 

Um dia


Um dia meu corpo será silêncio.
Absurdamente silêncio.

Não adianta o repicar dos sinos,
o canto álacre das crianças,
a música suave dos violinos.

 

Meu corpo será silêncio.
E ao divisar o outro lado do rio,
saberá afinal a resposta do teorema

 

Discurso


 (Quem nos deu a palavra e seu poder?)
                   Luiz Busatto


A limpidez da palavra
A culminância das montanhas
O tormento da espera
O mistério das promessas
A subserviência dos rios
A vitalidade dos fracos
A vigília dos olhos
A fragilidade dos alcantis
A coragem dos ausentes
A viuvez das emoções
O quixotismo dos vencidos
A lucidez da loucura
E acima de tudo,
Pairando sobre o tempo,
O poeta e sua solidão
    

                                    
Não brigues com o tempo, poeta
 
Não brigues com o tempo,
poeta.

O tempo é implacável como
o sol

 

Imprevisível como os ventos,
traidor como os amantes

 

O tempo se alimenta de espera,
se nutre dos delírios

 

Se cumpre como a morte
de um condenado.

 

Não brigues com o tempo,
poeta.

 

Prefiras caminhar ao seu lado,
fingindo que é seu amigo,
mas preparado para o golpe fatal.

 

Não brigues com o tempo,
poeta.

 

(voltar ao topo)