
Moacir Japiassu,
autor de A Santa do Cabaré, romance recém-lançado
pela Editora Globo, selecionou suas melhores crônicas, publicadas
no Jornal da Tarde, de São Paulo, para reeditá-las brevemente
no livro intitulado Maravalhas. Os textos fizeram muito sucesso, a
julgar pela correspondência que o cronista recebeu ao longo
daquela atividade, desenvolvida entre 1986 e 1989. Apesar dos anos,
algumas crônicas permanecem atualíssimas, como a que
transcrevemos abaixo, publicada em 30/10/86. O "copidesque"
de agora serviu apenas para trocar "televisão em cores",
ainda rara em 86, por "canais pagos", mania desses tempos
mais modernos.
O RONCO, A BURRICE E O HORÁRIO
ELEITORAL
Devidamente "ensanduichada" entre
o Jornal Nacional e a novela das oito, dois dos chamados "campeões
de audiência", a propaganda política jamais conseguiu
atrair a atenção dos eleitores, apesar do nobilíssimo
horário. A classe média, formadora de opinião,
como dizem os especialistas, prefere ocupar os 60 minutos do programa
noturno assistindo aos canais pagos e filmes alugados nos videoclubes,
ou, simplesmente, dormitando nas poltronas e cadeiras de balanço.
Verifica-se, nesses casos, lamentável exercício de
alienação, é mister reconhecer, embora a ciência
aproveite boa parcela desse desprezo coletivo para estudar um dos
mais ruidosos e desagradáveis fenômenos que acompanham
o ser humano desde seu nascimento: o ronco.
Se os videoclubistas constituem contingente talvez irrecuperável
para a democracia, os dorminhocos prestam pelo menos um serviço
à ciência, por intermédio de sua barulhenta
ociosidade. É possível descobrir grandes vicissitudes
orgânicas pela análise desse ruído brônquico
de tom grave, como dizem os médicos, e até estabelecer
relações jamais imaginadas entre este e o atraso intelectual.
Há, realmente, indícios de estreita ligação
entre o ronco e a burrice.
Segundo afamados roncologistas, com uma simples operação
o roncador pode deixar de roncar; porém, se o paciente já
roncava há vinte, trinta anos, pode até livrar-se
do tal ruído brônquico de tom grave, mas estará,
então, irremediavelmente asnático. Burrice, como sabemos,
ainda não tem cura. O assunto é sério e os
jornais noticiam a pesquisa recente da Universidade da Flórida,
segundo a qual "o comportamento ruidoso ao dormir pode estar
associado a dificuldades de raciocínio", no dizer do
The New York Times.
O chefe de medicina pulmonar do Centro de Ciências Médicas
da Universidade da Flórida, A. Jay Bloch, descobriu uma associação
entre o ronco e os baixos níveis de oxigênio (hipoxemia),
que levam a uma redução da capacidade intelectual
do indivíduo. A hipoxemia noturna, que afeta principalmente
os homens, "resulta de lapsos de respiração durante
o sono, que chegam a ocorrer no ritmo de 10 (dez) por hora",
revela o doutor Bloch. Os testes demonstraram que em algumas pessoas
a perda de oxigênio resultante diminui o nível médio
de inteligência, a começar pela capacidade de concentração,
seguida pela memória de fatos recentes e um bloqueio da capacidade
de aprendizagem.
Em palestra numa assembléia científica do Colégio
Americano de Medicina Torácica em San Francisco (platéia
atentíssima, convém esclarecer), o doutor Bloch garantiu:
as pessoas que demonstram melhores resultados em testes de inteligência
têm menos tendência a roncar. Entre os sinais de hipoxemia
investigados por ele estão a sonolência diurna, aumento
de peso, dificuldade de dormir à noite e ... fortes roncos.
Atualmente, o doutor Bloch realiza testes com roncadores voluntários
para verificar se doses extras de oxigênio podem reverter
o declínio de inteligência provocado pela hipoxemia.
O assunto apaixona os Estados Unidos, que desenvolvem toda sorte
de estatísticas a respeito do ronco e seus problemas. Segundo
consta, a preocupação com o mal surgiu durante as
eleições norte-americanas de 1960. Durante os célebres
debates entre John Kennedy e Richard Nixon, pesquisadores descobriram
que todos os dorminhocos que roncavam diante da televisão
votaram no candidato republicano. Atestado o atraso intelectual
(leia-se burrice) de todos, a ciência logo estabeleceu a óbvia
ligação e iniciaram-se estudos de costa-a-costa. Os
resultados têm sido sempre alarmantes.
Aqui no Brasil, com nossa insipiência ampla e incurável,
somente nessas eleições foi possível iniciar
estudos sobre a relação entre a burrice do brasileiro
e sua capacidade de roncar. Estamos impedidos, pela lei eleitoral,
de divulgar pesquisas, como o leitor não ignora. Não
é interessantíssimo verificar que, entre outras curiosidades
descobertas pelos cientistas, a maioria absoluta que ronca durante
o horário político votará no candidato X? Os
que roncam mais, é claro. Eleitores que roncam menos, mas
assobiam ao mesmo tempo, votarão no candidato Y, ou em branco
ou anularão o voto, conforme pesquisa anterior feita pelos
próprios roncologistas. Já aqueles cujo ronco é
um ruído semelhante ao gemido manifestaram intenção
de voto no candidato Z, sob a justificativa de que não conseguem
dormir à noite por causa da barulheira das obras da Sabesp,
Telesp e bares de videopôquer.
Agora, uma dolorosa revelação: todos os roncadores
contumazes carregam, além da deficiência intelectual
progressiva, sérios problemas de rejeição em
seu próprio lar. Está provado que as pessoas normais
consideram os roncadores não apenas burros, mas, principalmente,
chatos. Há, na família de cada um, tendência
a folclorizar o mal, embora as pessoas desenvolvam, em verdade,
profundo ódio pelos roncadores domésticos. É
sentimento antiqüíssimo, que a sociedade moderna tentou
mascarar, sem êxito. O máximo que o roncador conseguiu,
com o passar dos séculos, foi ver desmentida a origem satânica
do miserável ruído, pois se antigamente o ronco era
visto (principalmente ouvido) como linguagem de endemoniados, hoje
é somente uma doença grave...
Muito e muito sofreram os roncadores, não devemos esquecer.
"Roncai e amortalhai vossa alma", diziam os antigos, com
aquele determinismo sufocante dos antigos. O leitor já ouviu,
pelo menos alguma vez na vida, contumélias assacadas contra
os suínos, porque roncam e não olham para o céu.
É animal injustiçado como o homem que também
ronca. A feia palavra roncolho, que se refere aos monórquidos
(que só possuem um testículo), provém de ronco.
Como os suínos são geralmente castrados, quando o
são de forma incompetente transformam-se em roncolhos. Ao
homem mutilado também se aplica este abominável vocábulo.
Há também os roncolhos morais, prova viva das artes
do Tinhoso, que nos chegam pela tevê em época de eleição.
São estes, segundo respeitados pesquisadores, os responsáveis
pelo desprezo do eleitor desvairado, que dorme... e ronca. Depois,
vota.
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