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Recado do autor, enviado por e-mail junto com esta crônica:
Consideradíssimo irmão:
está devidamente anexado um texto do livro de crônicas
que, paralelamente ao romance, estou preparando. Escolhi esta porque
está bem dentro do "espírito do Natal" que
se aproxima. Grande abraço
O Raro Episódio de um Natal Ecumênico
Por Moacir
Japiassu*
A bisavó do meu amigo Paulo Mário
morreu na idade de 104 anos, atropelada por um trio elétrico
nas ruas de Salvador, Bahia, em plena terça-feira gorda do
Carnaval de 1982. A velhinha era um fenômeno, não apenas
de longevidade mas, principalmente, de alegria de viver, aliada
a um milagroso preparo físico. Dona Bi (de Abigail) não
perdia as festas populares e na praia de Amaralina, onde instalou
um autêntico QG de mil e uma badalações, era
a rainha do frevo e do maracatu, como a Dora de Caymmi, e igualmente
soberana em natais e réveillons, do limiar do século
até o acidente fatal.
Foi para homenagear dona Bi que o compositor Arnaldo Augusto Franco
de Siqueira, coronel e maestro da banda de música da milícia
baiana, compôs o dobrado Senhora Maravilha, sucesso de 1902.
Dona Bi escreveu sonetos, organizou saraus e partiu corações
pela vida afora. Era mulher de extrema argúcia e diligência,
criou doze filhos e mais os netos e bisnetos que lhe caíram
no colo por irresponsabilidade familiar. Segundo consta, o Conselheiro
Rui Barbosa teve por dona Bi uma avassaladora paixão, anos
e anos antes de desanimar-se da virtude, de rir-se da honra e de
ter vergonha de ser honesto, se o considerado leitor me permite
a facécia.
Pois é dona Bi a ilustre personagem de ingênua historinha
de Natal que passarei a relatar. Acontece que um amigo do Paulo
Mário, bisneto acima referido, chamado Boleslaw Biskupsky,
adorava a festa do Natal. Todavia, passara a infância no desejo,
a espiar as janelas, pois como filho de judeus ortodoxos deveria,
é óbvio, abjurar a chamada "data máxima
da cristandade". Boleslaw guardou no peito a frustração
de jamais ter-se reunido com a família em torno da mesa posta,
peru fumegante, castanhas, nozes, amêndoas, etc. e mais a
árvore com velas, bonecos e sininhos.
Em 1980, depois de uma noite silenciosa com o amigo Paulo Mário,
no início de dezembro, o conhaque falou mais alto e Boleslaw
chorou no ombro do outro por conta daquele vazio d'infância
e o amigo condoeu-se. "Por que você não vai lá
pra casa passar o Natal? Vó Bi organiza tudo, é festança
da boa", sugeriu/convidou Paulo Mário. Boleslaw, a quem
o conhaque tornava piegas mas não embotava o raciocínio,
fez séria ponderação: "E se Marly quiser
me acompanhar, como é que a gente faz? Dona Bi não
vai gostar..."
Marly era, como direi, mulher-dama de excelsa presença. Profusos
cabelos de um falso ruivo, batom da moda por cima e além
dos lábios, cílios postiços, vestido justíssimo
no corpo de violoncelo. Marly não se contentava simplesmente
em ser; vestia-se, fantasiava-se de mulher-da-noite, para desespero
de Boleslaw, que implorava discrição. Mas, como diz
o samba-canção, Marly nascera com o destino da lua
e era dona absoluta do seu arrebitado nariz. Se o namorado quisesse,
era assim; se não, fosse à vida, que Marly tinha mais
o que fazer.
Paulo Mário sentiu o drama do amigo mas encontrou solução:
"Quando você chegar lá em casa, apresente Marly
a Vó Bi como filha do Doutor Juvenal, nosso dentista lá
de Jequié. Como faz tanto tempo, a velha nem vai se lembrar;
o resto, seja o que Deus quiser".
Boleslaw achou a solução razoável e ficou tudo
acertado para a noite de Natal. Conversou com Marly, pediu que ela
vestisse uma sainha rodada, não muito curta, amarrasse os
cabelões num coque, sabe como é, ia passar por filha
de um velho dentista da família do amigo, etc. e tal. Marly
fez aquela cara de nojo que Boleslaw tanto temia e não se
falou mais no assunto.
Às nove da noite do dia 24 de dezembro de 1980, o engenheiro-eletricista
Boleslaw Biskupsky, 32 anos, solteiro, sofreu o maior choque de
sua vida: na porta da pensão onde homiziava-se a namorada,
esperava por ele a versão baiana da própria Messalina.
Marly conseguiu atingir o crême de la crême do mais
assustador exagero e estava vestida com uma variação
da célebre fantasia carnavalesca Catedral Submersa. Longo,
estilo sereia do mar, com decote abissal. Paetês, vidrilhos
e miçangas refletiam todas as luzes. Nos cabelos de dimensões
sesquipedais, a doidivanas equilibrou uma tiara; cílios imensos
e, nos dedos, unhas postiças maiores que as do Zé
do Caixão.
Boleslaw pensou em atirar-se sob as rodas do primeiro caminhão,
porém prevaleceu o apelo do Natal e lá se foi o judeu
ortodoxo acompanhado de Messalina para a festa do nascimento do
Senhor. Paulo Mário recebeu a dupla na porta da mansão,
com dona Bi ao lado. "Vó Bi, uma surpresa!", gritou
o cínico ao ouvido da velhinha; "temos aqui o Boleslaw,
velho amigo, e a filha do doutor Juvenal, de Jequiéééé!!!".
Dona Bi ajeitou os óculos, deu boas vindas ao casal, manifestou
dolorosa saudade pelo honrado pai da visitante, dentista de várias
gerações da família. "A casa é
sua, minha filha", concluiu a velha. Paulo Mário iluminou-se.
"Eu não disse? A velhinha engoliu fácil, fácil...",
disse ao ainda assustado amigo.
E a bebedeira rolou. Lá pelas tantas, dona Bi acercou-se
do bisneto, entre o banheiro e o quarto do corredor. "Meu filho,
eu estou tão triste...", queixou-se a anciã.
"Mas triste por quê, Vó Bi?", surpreendeu-se
Paulo Mário. "É a filha do doutor Juvenal, que
eu vi tão pequena... era tão linda..." O bisneto
fez cara de espanto: "Mas o que houve com ela?", perguntou
à chorosa bisavó. A velhinha olhou-o bem no fundo
dos olhos e suspirou: "Então você não viu,
meu filho? A filha do doutor Juvenal é puta!"
(Do livro de crônicas Maravalhas,
em preparo.)
*Escritor
e jornalista
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