Dona Jacira
Caio Mourao
Foi minha empregada nos meus tempos de solteiro, desta vez entre
o meu primeiro casamento e o segundo, vão acontecer outros,
mas calma....
Era bem negra, magérrima, (hoje poderia ser modelo) e 1001,
isto é, faltavam os dois dentes da frente e falava sempre
meio assobiando e rápido. Residia no Cantagalo, favela de
Ipanema, vizinha a do Pavãozinho e perto do meu apartamento
na Rua Antônio Parreiras.
Cozinhava médio, tanto que combinei com Sergio o seguinte
:
Ele fazia meu marketing, só que na época
tinha outro nome, publicidade, isto é escrevia releases,
eu botava no correio, e dava lá as telefonadas dele , quando
das minhas exposições e jóias badaladas.Em
troca jantava lá em casa toda à noite. Assim resolvíamos
os problemas na época, todo mundo duro, era uma mão
lavando a outra. E deu certo.
Voltando a Dona Jacira, trabalhou muito tempo comigo até
eu me casar novamente, pois quando soube da notícia pediu
as contas dizendo:
- Para homem trabalho e até aceito desaforo, mas com madame
não tenho paciência nenhuma.
E se foi. Mas deixou recordações e muitas estórias.
Uma noite me meti numa confusão que acabou em briga no Gôndola,
também conhecido como Glândula. Era um
restaurante em Copacabana freqüentado muito por artistas, principalmente
pela turma de teatro, daí dizerem que era o único
lugar do Rio que os próprios clientes providenciavam o ar
refrigerado.
Tinha ido para lá com Ferdy Carneiro e Sergio Braga, e estávamos
numa mesa degustando nossa lasanha com um vinhozinho, quando entrou
Marli, uma amiga nossa, com seu gato angorá no colo, herança
do seu ex-namorado, Eugênio, que tinha sumido e deixado o
gato, que ela levava pra tudo quanto era canto, menos para praia,
não que não quisesse, mas porque o gato não
topava. Ela achava que o gato era uma parte do amante sumido, e
por isto não largava do coitadinho.
Acenamos para os dois e continuamos bebendo nosso vinhozinho, mas,
de repente encheu-se uma mesa de paulistas. Acontecia muito no Gôndola,
devido à proximidade dos hotéis da orla. Logo começaram
a fazer gracinhas para a Marli, mas via gato:
Que bichano lindo!
E tocam a miar, imitar cachorro etc. Estas besteiras que fazem os
cretinos quando em grupos e se achando o máximo. Encheu o
meu saco , do Sergio e do Ferdy. Levantei-me, peguei o gato joguei
na cara do primeiro, Ferdy tinha se ocupado do segundo, o terceiro
correu do Sergio,, mas o quarto me acertou um murro e acabamos rolando
pelo chão, imobilizei-o, mas ele conseguiu dar uma mordida
violenta no meu braço, um pouco abaixo do pulso, literalmente
tirou um pedaço e... engoliu. Bom, aí terminei com
ele, fugiram, recuperamos o gato e sumimos para evitar continuações
desagradáveis desta briga felliniana, nos dois
sentidos: do gato e do diretor italiano.
No dia seguinte, em casa, relatando o episódio para D. Jacira,
esta pede para ver o ferimento, nesta altura já bem
medicado, e muito séria diz:
- Seu Caio, passa bosta de galinha preta que os dentes dele caem
tudinho.
Olhei bem para ela, estiquei o braço e disse:
- Caga aqui, dona Jacira!
E caímos todos , numa gargalhada, e quem mais ria era ela
.
Este todos porque depois de acontecido Sergio e Ferdy dormiram no
meu apto.
Outra dela foi durante uma festa, a certa altura corria um pratinho
para recolher grana para a cerveja, pois eu não tinha cacife
para segurar a sede daquela turma.
Ao pedir o dinheiro para o Gilson, este para escapar da colaboração
e tentando enganar a Jacira (coisa impossível) disse: Eu
já dei.
Ao que ela respondeu em alto e bom tom, para todos ouvirem;
- Se deu é pobrema seu. Agora tô
pedino grana pra comprar Brahma.
Houve um acontecimento neste apartamento que ficou famoso e conhecido
com 48 horas de Caio Mourão. Tínhamos
saído do Janga (Jangadeiro), Sergio , eu e umas quatro pessoas
e fomos tomar a penúltima lá em casa. Só que
esta penúltima durou dois dias, sempre aparecia uma outra
piada, ou alguém dedilhava uma música melhor no violão
e íamos ficando, a uma certa altura já com colaboradores,
pessoas que passaram por lá e aderiram. Dona Jacira estava
de Gunga Din (personagem de filme inglês passado na Índia,
que levava água para os soldados na linha de frente). Ela
sempre saindo para comprar cerveja, cognac, sanduíches ,
pizzas etc.
Até que num certo momento resolvemos parar de verdade, tinha
gente sem ir trabalhar a dois dias, marido fora de casa, mulheres
idem, e foi invocada a derradeira mesmo. Ao começarmos a
juntar dinheiro para comprar as bebidas, vira-se dona Jacira muito
séria (dificil nela isto):
Esta é por minha conta.
Todo mundo parou, ninguém entendera, ela tinha ganho umas
gorjetas, mas não dava para tanto, então?
- Porque eu roubei vocês tanto que estou com vergonha e quero
pagar esta...
Outra dela é sobre matemática, é teoria de
Quantum.
Uma manhã Em que eu enfrentava uma ressaca daquelas, ainda
meio tonto com um pouco da música da festa ainda dentro dos
ouvidos, eis que chega nossa heroína de hoje, muito nervosa
e falante:
- Seu Caio, o 12 agora é 10.
Eu e Sergio, o qual para variar tinha dormido lá em casa
ficamos mudos.
- Que loucura!
Pensamos em todo o Sistema Decimal entrando pelo cano, o que seria
do 1000, e da raiz quadrado, meu Deus, seria o fim do mundo.
Mas, depois da explicação de Dona Jacira, ficamos
calmos, estava tudo nos eixos.
Acontecera o seguinte, o ônibus do qual ela se servia, às
vezes era o 12, ou Camões, ou General Osório - Estrada
de Ferro, custava a passagem na época, 8 qualquer coisa,
sei lá que moeda era, e tinha subido para 10.
Daí a raiva e o espanto da minha secretária de fogão
& tanque.
Pois é , não se fazem mais empregadas como Dona Jacira.
No Cantagalo e no Pavãozinho, agora só temos traficantes,
assaltantes e tiroteio sobrando para baixo. As donas Jaciras
sumiram todas, levando com elas aquela Ipanema alegre e sem medo.
O Terno
Caio Mourão
Foi naquela época áurea de Ipanema, quando ninguém
era ninguém, nem Ipanema era Ipanema, e todo mundo era duríssimo.
Éramos muito amigos, Sergio Braga e eu, como diria o Chico,
amigos de copo e de cruz, estávamos sempre juntos,
tomando umas e outras e sempre meio de pendura nos botequins da
vida.
Um dia, sentimos que precisávamos comprar um terno, nos anos
60 era imprescindível para ingressar em festas, teatros,
vernissages e até velórios, lugares que sempre nos
garantiam uma boca livre, paqueras e novas amizades. Os ternos que
tínhamos, além de estarem fora de moda, estavam muito
caidinhos.
Comprar um? Como? DUCAL foi à solução.
Sergio trabalhava, eu também, mas o importante era uma carteira
assinada, ele tinha. Lá fomos nós para a loja e experimentamos
vários ternos, o vendedor não entendeu nada, morreu
sem perceber o porquê de dois malucos experimentarem vários
ternos, e terminando comprando somente um. Não foi muito
fácil encontrar um que servisse satisfatoriamente aos dois,
apesar de termos mais ou menos o mesmo físico, mas conseguimos
afinal.
Então nos vimos possuidores do O TERNO.
Era cinza claro, discreto, servia para todas as nossas possíveis
andanças, leve, mas não muito, agüentaria uma
temperatura mais baixa sem nos deixar com frio. E o melhor, em oito
suaves prestações. Sergio era o comprador oficial,
eu dividiria as prestações com ele.
Foi inaugurado num casamento de um amigo comum. Nosso herói
- O TERNO - foi duas vezes à Igreja, uma comigo e outra com
Sergio, e repetiu a proeza mais três vezes na recepção.
Sergio se cansou, me devolveu o herói e eu voltei para a
festa.
Desde então prestou vários serviços aos seus
dois felizes proprietários.
Morava um pouco no meu apartamento, um pouco no do Sergio, mensalmente
visitava o tintureiro, em maré baixa de festas, e assim fomos
vivendo.
Lógico que o herói sempre nos reservava
uma surpresa, às vezes um dinheiro esquecido em um bolso,
telefones de moças paqueradas pelo outro, contas de bares,
cartões de visita etc.
Ninguém percebeu nosso truque e nunca repararam no feitio
e na cor do nosso herói.
Também desenvolvemos táticas. Ao chegar numa reunião,
por exemplo, sempre perguntava por Sergio, e ele fazia o mesmo,
dizíamos que havíamos combinado nos encontrar ali
etc e tal. Falávamos mal da pontualidade do amigo e ao sair
ainda deixávamos recado Se Sergio vier, diga
que estou no Abadia, Jangadeiros, (bares da época)
e saia correndo para entregar o heróico O TERNO para ele
ainda aproveitar a festa.
O primeiro a usar era definido por quem ganhasse na porrinha, ou
então pela última vez, os últimos serão
os primeiros etc e tal. Dependia da premência da efeméride,
ou da importância de pessoas a serem encontradas na reunião.
Encontros com namoradas sempre tinham preferência. Negócios
lá pro fim.
A troca de roupas sempre era feita no apto mais perto do acontecimento,
às vezes recorríamos a amigos (as) que morassem perto,
que nos ajudavam e mantinham sigilo, só riam, e muito.
Assim, vivemos felizes - O TERNO, Sergio e eu - por
uns dois anos, mas tudo sempre tem um fim.
Quando me casei, o herói fez sua última performance,
indo comigo na cerimônia civil, e, depois, à Igreja
e à recepção, via Sergio. Nestas últimas
eu estava de fraque (alugado) e os dois se deram muito bem. O fraque
e o herói.
Depois disso, Sergio traiu O TERNO, comprou outro, pois
estava num cargo de maior projeção e não podia
submeter o herói àquele dia a dia citadino, ele era
mais pra festas. Também já estava caidinho e cansado
de toda aquela trabalheira. Mas ficou morando com Sergio, meio aposentado
dentro do guarda-roupa. Só ia para a lida quando o outro
ia ao tintureiro.
Eu, casado, parei de ir a festas, e minhas atividades prescindiam
do herói, mas um dia precisei dele, fui busca-lo,
e tristemente vi que as traças também tinham gostado
muito do O TERNO, tanto, que fizeram uma pequena aldeia na lapela
do paletó. Muito triste, mas não dava mais, teríamos
que aposenta-lo mesmo.
Depois de uma reunião com Sergio, aposentamos o paletó
e rebaixamos a calça para bermuda, jogamos no palitinho e
eu ganhei.
Usei muito ainda, só fui aposenta-la quando fiz a casa em
Iguaba, e ela de teimosa ainda arranjou um bico para trabalhar de
pano de chão por uns tempos. Depois não soube mais.
É a vida...
Mas acredito que nenhum terno tenha feito tanto por dois jovens
audazes tentando conquistar um mundo, como este.
Que descanse em Paz. Sergio também., porque eu continuo aqui,
mais uma vez sem terno...
Última vez que usei um foi em 89, quando levei minha filha
caçula até o altar, depois disso já o aposentei
há muito. Este nem deu bermuda, acabou mesmo. Também
não era um herói, nem era O TERNO.
Caio Mourão
Designer e escultor, sem terno e sem gravata
também.
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