
A casa, a luz e os ventos
Silva Costa*
Há mais de duzentos anos já estava desenhada a casa brasileira.
Espaçosa, paredes grossas, janelas altas com venezianas e vidros,
tetos altos e circundados por gregas, telhado com telhas de barro,
e, casa essa, construida com atenção à insolação e à ventilação.
Esses elementos eram usados por simples questão de sabedoria.
As paredes grossas a faziam térmica, evitando o calor externo.
Quente e mais leve, o ar subia e as paredes altas lhe permitiam escapar
pelos frisos no teto (gregas) para o telhado, baixando a temperatura do
interior. As telhas curtas de cerâmica permitiam a melhor dissipação do
calor.
A casa era total e esplendorosamente aberta pelas manhãs.
O sol e o ar, fungicidas e germicidas (com licença pelo pequeno exagero),
invadiam a casa e, retirando a umidade e o mofo, lhe davam saúde.
Depois do almoço, no forte do calor, as janelas eram semi-cerradas
e assim mantinha-se um pouco do frescor da manhã.
Há duzentos anos já se sabia da importância de construir a casa com
atenção aos ventos e ao nascer e morrer do sol. Assim, a maioria das
casas era clara e bem ventilada.
Mas, da mesma maneira que o homem destruiu o equilibrio de uma linda
ilha ao nela desembarcar com uma cabra, aqui copiamos o desenho lá
de fora onde há severos invernos, e, macaqueando a forma sem atentar
ao conteúdo, fizemos o palácio de vidro. Alguns tão imbecis que nem as
janelas podem ser abertas.
Sem a possibilidade de uma ventilação natural e com largos espaços sem
iluminação por luz natural, copiando sem adaptar, em vez do "rococó",
os arquitetos de fama criaram o "ruim-cocó", pendurado no fornecimento de energia.
Talvez agora, prováveis vítimas de angustia e desconforto com possível racionamento, entenderemos que moramos num país tropical, abençoado por Deus e bonito por natureza . . . mas ainda pobre em energia.
Será que aprenderemos?
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*Silva Costa é artista plástico. Escreveu o texto e desenhou a ilustração.
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