Porquinho da Índia
Silva Costa
Hélio, velho pedreiro e residente aqui
do morro, ajudou a construir minha casa em 1980 e, ainda hoje, a
cada segunda-feira, vem pela manhã saber se há alguma
coisa a ser consertada e acabou vindo em meu socorro para tirar
o pó que vem se acumulando no atelier há anos.
Essa é uma tarefa difícil devido
ao exagerado número de mesas, prateleiras, gavetas e os deixados-por-aí
que ocupam, em incrível variedade, todas as existentes superfícies
planas, prateleiras, gavetas, armários, e até frestas
e pregos das paredes.
Tenho na sala uma placa de rua - Rua Pinto
de Azevedo - retirada da zona de meretrício durante a construção
da "cidade nova", hoje sede da Prefeitura, e que me foi
presenteada. - Para você se lembrar do lugar onde nasceu -
ria o amigo que a trouxe e que, na época, era figura importante
no Estado da Guanabara.
Voltando à limpeza, é uma tarefa
difícil devido a minha rabugice e irritação
ao procurar algo que "estava aqui
tenho certeza
quem
mandou tirar daqui?" e que acontece quando alguém tenta
arrumar uma oficina ou atelier.
Tarefa difícil pois há quadros
inacabados, tinta ainda fresca, gabaritos e esboços presos
com alfinetes, e molduras brancas que ficam sujas ao serem tocadas
por mãos e dedos pouco cuidadosos.
Tarefa difícil devido a livros que,
uma vez arejados e
desempoeirados, são colocados em ordem
que ninguém mais encontra. Alguns com o título na
lombada de cabeça para baixo, coisa irritante para quem não
gosta que lhe mexam nos livros.
Pois bem, essa limpeza toda acontece por conta
de ordens de uma filha atenta que, cuidando da saúde deste
pai, tenta arrumar a vida, por ordem nas coisas.
Limpeza no salão, revestimento no colchão
e travesseiros contra ácaros, deixar as janelas abertas para
arejar e evitar o mofo, jogar fora os papéis, cartas e documentos
que não são consultados há mais de tantos anos.
Comida correta e nada de exageros. E aí é que está!
Só lembramos com real prazer das diabruras, dos exageros
dos comes-e-bebes, das mulheres que nos conquistaram após
nos assombrar e atormentar, dos quase-morri que fizemos de porre
e dos surpreendentes velhos amigos e amigas feitos em roda de bar
e nunca em missas dominicais.
E mais, nada de guardar máquinas e
ferramentas, nem pedaços de madeiras que, apesar de serem
de árvores "extintas", só servem para entulhar.
Nem guardar os discos de vinil que já foram copiados, nem
pequenos items comprados em feiras livres e lojas do interior, comprados
para celebrar passeios descuidados e antigas namoradas. Para quê
guardar este lampião para pescar camarão que se usava
há 50 anos em Cabo Frio? E essas bolas de gude?
E a coisa vai piorando se deixada. Acabarei
ouvindo que a casa é muito grande e que o certo e correto
é mudar para um pequeno apartamento que não dá
trabalho.
Isso é o mesmo que transformar alguém
em porquinho-da-índia.
Um homem que teve a incrível felicidade
de morar em casas quase toda sua vida; aprecia o conforto de não
ter vizinhos que sapateiam no teto nem vizinhos que reclamam do
taco dos seus sapatos.
Um alguém que aprecia ter um pátio onde o sol é
seu somente e a chuva é bem-vinda ao molhar a erva-cidreira
e as samambaias.
Alguém que aprecia o espaço amplo e generoso e janelas
em paredes opostas que, quando abertas, parecem trazer vida nova
libertando o ar.
Alguém que aprecia o espaço amplo onde cabe uma espichada
cadeira de balanço ou uma escrivaninha que foi do avô,
cheia de pequenas gavetas que guardam algumas lembranças
e um sizudo e barrigudo mata-borrão.
Fico pensando como é trágico
ir morar numa caixa sem memórias, sem passado, sem os cheiros
de água-de-colônia, de violetas e de sáis-de-amônia;
talvez até sem espaço para aquela roda onde malha,
correndo desesperado sem sair do lugar, e fingindo ser feliz, o
solitário porquinho-da-índia.
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