Introdução
Helio Jesuino
A cultura carioca tem suas alcovas, contrapontos
obscuros de suas decantadas paisagens ensolaradas. Madame Satã
e o Bordel das Normalistas são dois nichos desta outra cidade,
oculta em zonas de sombra, resguardada de olhares virtuosos, refratários
a seus vícios e dissipações.
Quando escolhi o assunto para tema de uma
série de gravuras que batizei de "Suíte dos Pecadores",
minha idéia era abordá-lo através da névoa
que o envolve e protege, sugerindo , mais que mostrando, as iniqüidades
dessa gente. À minha revelia porém, os pecados impuseram-se,
pediram luz e, conspícuos, mostraram-se em toda sua plenitude.
O traço tornou-se explícito
e direto, a serviço de uma linguagem claramente narrativa, evidenciando
as bandalheiras dos personagens. As colagens com os depoimentos de Satã
- extraídos de uma entrevista ao Pasquim em 1973 - assim como
os quadrinhos e os "Diários", complementaram a expressão
gráfica com outros elementos e informações.
Seduzidos também pela riqueza de significados
contidos nas transgressões de Satã e das normalistas,
quatro escritores, amigos de longa data, Armando Rodrigues, Flávio
Braga, Patati, e Sérgio Oiticica, contribuíram com seis
contos e um cordel. O paulista Múcio Valentim prefaciou-nos e,
com o brilho e a erudição que lhe são peculiares,
acabou elevando essas patifarias à categoria de Arte Maior.
Quanto aos relatos de nossa decana, Dona Alice Resedá, bem...
a memória é dela e prefiro guardar silêncio.
Isto posto, devo acrescentar que o material deste volume estava engavetado
há cerca de cinco anos a espera de um editor que tivesse a coragem
de editá-lo. Coube ao Lobo as ousadias do design gráfico
e da publicação.
Que a pena lhe seja leve.

O Arco do Triunfo dos Teles
Múcio Valentim
Per me si va nella cità dolente...
é o Rio de Janeiro, claro, ou chuvoso, suas modorras e vielas,
morros e baixadas, espertos e gatunos - uns mais, outros nem tanto -
correndo atrás de suas eternas Dolores, cá ninguém
é solidário só no câncer - quanto mais que
o carteado e as damas ocupam dia e noite, sem baixas de guerra, a Praça
d'Armas da Cruz Vermelha. Per me si va tra la perduta gente... são
os desvãos da ex-capital sem Capitólio e sem Monroe, que
tresandam a Pecados numa cidade que vive deles por ignorá-los,
tantos foram menos heréticos do que, por exemplo, o aluvião
lodoso do Castelo jesuítico e fundador derramando-se pelas veias
passivas da Santa Luzia até o útero - do Atlântico.
Daí serem esses Pecados, no Além
da impunidade, Imortais.
Agora é tarde, leitor que, incauto
(melhor: ingênuo, é mais sociável) como eu, despido
de telepatias ou tele-visões, chegou a essas páginas onde
se apalpa e se esconde o delírio, o desvario, o mal-de-horror
que impregna tais seres - Silvas, Mouras, Oliveiras, Teles - em abjeção
santificados, habitantes do obscuro porão coletivo desta urbe-orbe
bela e promíscua, sagrada porque impudica, obscena como as chagas
e as setas que recobrem piamente a nudez de São Sebastião.
Se esconde, eu disse? é mentira deslavada, é tarde, eu
disse, fui também corrompido. Tudo aqui é feito e dito
às claras, ou às escâncaras, como diria em seu devido
tempo não aquele Machado, mas o outro, magarefe que deu nome
ao Largo. E logo um aviso: se você quer sexo, pornografia, violência,
aqui não vai encontrar. Riso, morte, terror, não é
este o lugar, mas aí mesmo, ao seu lado, na sua vidinha do dia-a-dia,
do noite-a-noite, aí mesmo, onde se esconde isso tudo. Cruzando
as arcadas que aqui principiam, no mínimo você vai encontrar
artes, manhas, outras artes, arquétipos, arcanos e caminhos para
propiciar que a Arte brote, num lampejo ou homeopática, em quem
estiver por aí disponível. E desperto. E impuro. A Arte
não é para os puros.
Desista de toda esperança ao prosseguir.
Eu (também) avisei.

Outros Versos Satânicos
Sérgio Oiticica
Na romança de Satã
de vertente citadina
(onde a alma folgazã
dum ser que a vida ilumina
se arrastou não tão cristã
na Lapa, sagaz, ladina)
sem ter verve mais louçã,
vou contar em ladainha
proezas de fé malsã
da diaba mais rainha.
No bairro das quatro letras,
que até o rei conheceu,
um rei malandro nas tretas
nos anos trinta viveu
tratando ruivas e pretas,
polacas , bichas, plebeus,
muquiranas e secretas
como fossem esparros seus.
Fez fama entre picaretas,
eis como o caso se deu:
No ano de trinta e oito,
já assustando a cidade,
valente, malandro afoito,
com trinta e oito de idade,
pegando homens pro coito
mostrando a sua verdade,
no carnaval muito doido,
feliz, afeito à vaidade,
bancava o diabo loiro
nos blocos bem à vontade.
Falso ao corpo, bom baitola
nas festas fantasiado,
salto alto, brinco, estola,
no Caçador de Veados
o cu pulsando por rola,
no carnaval bem amado,
no Turunas deita e rola,
no República é aclamado,
os bofes lhe dando bola
o apelido lhe é dado.
De compleição mediana,
duro na queda e no couro,
mestre na arte sacana
do golpe do suadouro
mais lhe aumentava a gana,
sem sentir nenhum desdouro,
de correr atrás da grana
do otário branco e louro.
Fosse um mulato de fama
não lhe escapava o crioulo.
Combinado bem co'as putas,
parceiras na arrelia,
disposto a todas as lutas
por sua vida vadia,
como terras devolutas
se apossava c'ousadia
dos dinheiros dos batutas
que arrotavam valentia.
As pernadas na disputa
voavam qual ventania.
Cem mil réis desocupados
no bolso de vagabundo
eram desapropriados
em questão de um segundo.
E o rei daqueles veados
que na Lapa ( aquele mundo
de boêmios desregrados)
parecia um vira-mundo
subjugando os escravos,
impunha sua lei bem fundo.
Lá pras bandas da Marrecas
no cabaré Cu da Mãe,
na Taylor ou no Capela,
na Conde Lages ou não,
e ainda em ceca e meca
ou qualquer outro desvão,
a história é sempre aquela
do filho de Conceição:
seu rastro é só seqüela,
navalhada, bofetão.
Mais valente que os valentes
nunca serviu de lambaio.
Brigou com unhas e dentes
sem nunca sair cambaio.
E embora de Deus temente
bebia c'o sapucaio,
dava surras em tenente
em janeiro, agosto ou maio.
Quem conta isto não mente
nesta esparrela não caio.
Lá de Glória do Goitá
(nas brenhas de Pernambuco)
pra Avenida Mem de Sá
onde, empunhando um trabuco,
não se deixando arrostar
meteu bala num eunuco,
alguns anos foi tirar
e, alavanca sem fulcro,
na Ilha pôs-se a penar:
sofreu mas saiu no lucro.
João Francisco nascido,
dos Santos por sobrenome,
se tivesse a Deus pedido
fama no meio dos homens
não teria conseguido
fama maior: eis que nomes
da História conhecidos,
gente de honra e renome,
povo na glória parido,
por perto dele se somem.
Embora homossexual
casou-se em trinta e quatro
e, não me levem a mal,
isto é verdade , é fato.
Mesmo não sendo o normal
sempre assumiu este ato
e contava com moral:
"filhos criei dois mais quatro!"
O que é prova cabal
que de bondade foi farto.
Foi cozinheiro famoso,
nos temperos era fino,
fazia prato cremoso
no fogão desde menino:
molho ferrugem gostoso,
seu feijão um desatino,
peixes com caldo cheiroso,
seu vatapá era um hino:
glória de todo guloso,
de rezar ouvindo sinos.
Estas histórias sem fim
quanto mais conto se expandem.
Posso dizer, outrossim,
quem souber outras me mande
desse herói de folhetim:
Eros, festejos bacânticos,
dionisíaco festim,
lenda viva, sexo e sangue
que foi descansar, enfim,
morando na Ilha Grande.
Hoje a lenda se espalha,
bem se imagina, e vigora.
A história que serve e calha
é aquela que conto agora:
Madame Satã, navalha,
boemia que fez escola,
dentro da noite que orvalha
com seus amores se embola,
no céu da Lapa retalha
sombras da nossa memória.

Trabalhos Manuais (homework)
Sérgio Oiticica
E ele era um só deleite, regalado, maginoso,
nem no mundo, prazenteiro de ficar.
E lhe cabia ficar.
Cabia cada um daqueles frêmitos, convulsos
quase, que era assim que ele ficava.
Mas não que não. Nem não,
jamais, que era pecado aquilo.Em tudo.
Mas ele via e via que via.
E ficava imaginando todas como se fossem bonequinhas
cavilosas, todas de todo lindas, úmidas, mimosas, dispostas diante
de si, se desfazendo no imaculado azul e branco dos uniformes de saiote,
ele a cavaleiro, na cátedra, elas au rez-de-chaussé, à
frente, derreadas, com as vergonhazinhas expostas à sanha febril
que o corroía, num bê-a-bá que lhe refizesse a luxúria
atávica, que lhe lhe fizesse o humor varonil como único
representante do sêmen da vida, como alguém capaz de derrotar
a mágoa de ser e não ter.
E a música dos risinhos bichanava-lhe aos
ouvidos. E cambava-se-lhe a moral. E já sentia o roçado
das carnes tenras.
E, aos poucos, vara na mão, brandia contra
aquela classe todo o seu ódio impotente de mestre fobó
daquele lupanar ilusório.
Que enfeitava de prazer, vara na mão, seus
ociosos vagares solitários.
E ficava num só deleite, regalado, maginoso,
nem no mundo, prazenteiro de ficar.
Gozo só.
Ah!
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