
A MINHA MENINA MÁ
Nei Leandro de Castro
Impossível ficar indiferente às travessuras da menina má que Mario Vargas Llosa descreve no seu novo romance. É uma história cheia de tramas e traumas, pequenas e grandes maldades, humor, amor e desamor. O que me fascinou ainda mais no romance do peruano foi a lembrança que ele me trouxe de uma menina com uma boa dose de malvadeza, que conheci no Rio de Janeiro, no início dos anos 70.
Numa noite de autógrafos, na Livraria Timbre, Copacabana, vi uma jovem de cabelos lisos e escuros, com traços de Silvana Mangano quando estrelou em “Arroz Amargo”. Parecia ausente da balbúrdia à sua volta, onde escritores e jornalistas ostentavam seus egos estrelados. A jovem passava a mão pelos cabelos, não fixava o olhar em ninguém, fazia uma exibição discreta de sua beleza. Eu, que vinha de desencontros e desamores, sem nada a perder, me aproximei e lhe perguntei as horas. Ela respondeu, eu ousei ir adiante: “Escute. A gente já se viu antes, não?” A moça olhou para mim e disse, com uma mistura de zanga e deboche: “Essa é muito manjada, hem?” Em seguida, esboçou um sorriso e disse, agora só com deboche: “ Ei, que sotaque é esse? De onde você vem, cara?” Arrisquei tudo: “Venho para uma estação de águas em teus olhos.” Ao perceber um leve rubor nas suas faces e um sorriso de mulher lisonjeada, agradeci a Joaquim Cardoso pelo verso que lhe pedira emprestado.
Nessa mesma noite, saímos do Posto Seis e fomos caminhando pelo calçadão de Copacabana, parando nos bares, trocando informações, até o meu apartamento no Leme, a uns seis quilômetros de onde a gente se conheceu. Fiquei sabendo que ela se chamava Lina Vetucini, 19 aninhos (eu tinha 31), filha de mãe carioca e pai italiano de Florença. Tinha vocação de hippie ainda não totalmente assumida, curso de Letras interrompido no primeiro ano, leitora apaixonada de poesia. No meu apartamento na rua Anchieta, mais desarrumado do que a minha cabeça, ela tomou um banho, deitou-se despida na cama e disse: “Esse é um teste que faço com os homens. Eu não quero ser tocada durante toda a noite. Se tocar, saio fora.” Deitou-se, bela como uma aprendiz de deusa, e ficou à procura de uma posição para dormir sem lençol. Levou uns dez minutos para adormecer e a visão do seu corpo nu era uma tortura, um suplício. A solução foi apagar todas as luzes, pegar um travesseiro e dormir no chão, como um condenado.
Acordei tarde, atrasado para o expediente, e Lina já havia saído. Deixara um bilhete em cima da cama: “Passou no teste, coroa. Vou terminar uns namoros e voltar para você. Beijos.” Voltou uma semana depois, de mala na mão e uma disposição para as batalhas amorosas como nunca vi igual. Nos intervalos dos embates, Lina lia poemas para mim, contava sua vida, enfeitava a narrativa com mentiras tão lindas que eu quase desfalecia, como diria Manuel Bandeira, seu poeta preferido. A lua-de-mel durou quatro meses e nesse tempo cresceu em mim o receio de que poderia morrer de exaustão ou de paixão. Numa tarde, final de expediente, recebi um telefonema dela: “Coroa, eu te amo. Mas entrou outro coroa na história e é rico pra caramba. Imagina! Vai me levar pra Florença e vamos morar seis meses por lá!” Nunca mais a vi. Jamais toquei nessa ferida. Por onde andou, por onde andará Lina Vetucini, a minha menina má?
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