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A Crise dos Papeleiros
Leopoldo
Camara
Leopoldo trabalhou em quase todas as áreas
da Comunicação Social em jornais, revistas, rádios,
televisões, agências de propaganda, assessorias de
imprensa e produtoras de comerciais. Durante oito anos também
lecionou, na Pontifícia Universidade Católica do Rio
de Janeiro.
Escreveu três romances: "João Apocalipse",
"Como num passe de mágica" e "Apocalipse II",
este último inédito. Trata-se de ficção
econômica, um romance "if" desenvolvendo a hipótese
sobre o que teria acontecido ao Brasil e ao mundo se um presidente,
conhecido pelo povo apenas como João, tivesse colocado em
marcha um processo para restaurar a verdadeira economia, desestabilizando
o atual modelo baseado num dólar sem fundos, que lastreia
um mar de papéis especulativos que estão levando o
mundo à garra.
Evidentemente, nenhuma editora ousou publicar, mas o autor fez uma
pequena edição particular.
Cansado desta vida de comunicação, o autor prepara-se
para realizar agora seu grande sonho: ser dono de botequim, um bar
chamado Rabo de Galo, em Fortaleza, Ceará.
Nunca o mundo foi tão rico, com novos
produtos de alta tecnologia sendo lançados a cada dia. A
agricultura atinge novas marcas e, teoricamente, não haveria
mais fome no planeta. No entanto, estamos diante de uma crise que
insiste em permanecer e se renova sempre na sua infinita e criativa
capacidade de nos assustar.
A crise aí está, viajando na alta velocidade das modernas
telecomunicações, de braço dado com seus parceiros
preferidos: a fome e o desemprego.
Estamos atravessando um momento de grande perplexidade onde o esporte
preferido da imprensa é adivinhar que país será
a próxima bola da vez a sofrer - como eles dizem - "um
forte ataque especulativo".
Mas quem ataca? A imprensa não sabe dizer, limita-se a repetir
o que dizem seus informantes, sem maiores aprofundamentos. Perplexos
também estão os senadores da CPI do Sistema Financeiro,
que, diante das complexas manobras das mesas de operação
dos bancos modernos, transmutam-se em insólitas contrafações
de Hercule Poirot, perguntando onde a testemunha/réu estava
a tantas horas do dia tal, na esperança quase infantil (apesar
das idades) de pegar a vítima em contradição
para, a partir daí, dar seu showzinho para o pequeno eleitorado
que os acompanha pela TV Senado.
Profissionais do mercado de capitais também se assustam ao
perceberem que, mais uma vez, as bolsas estão despencando,
que o prejuízo do dia é inevitável e sempre
se consolam dizendo "pior que hoje é impossível".
Vê-se um esforço de todos na tentativa de explicar
a crise, mas se enrolam, confundem alhos com bugalhos, como se dizia
antigamente, e falam, indiscriminadamente, em riqueza e dinheiro,
como se fossem a mesma coisa.
No entanto, para se entender esse momento é fundamental perceber
a profunda diferença de significados, pois nela está
a explicação da crise:
EXISTE DINHEIRO DEMAIS PARA RIQUEZA DE MENOS.
A capacidade do mundo de produzir riquezas
é imensa, mas não consegue superar a habilidade do
homem em produzir dinheiro. E essa é a essência do
aperto que estamos passando.
Vamos tentar explicar isso começando pelo fim, pelos chamados
investidores do capital especulativo, esses que entram e saem dos
países, sem qualquer cerimônia, sem sequer pagar o
Imposto de Renda, como descobriu-se só agora no Brasil, provocando
crises nas bolsas, no câmbio e nas reservas monetárias
e, principalmente, na verdadeira economia da cada país.
Qual é o tamanho desse capital? Não se sabe ao certo
mas é enorme. Estima-se que ele esteja oscilando entre 13
e 17 trilhões de dólares. Alguém muito inspirado
chamou este fenômeno de nuvem, pois não tem forma definida,
desloca-se constantemente ao sabor dos ventos da especulação
e é difícil de determinar o ponto exato onde ela se
originou. Antigamente, classificávamos o mundo dividido entre
nações ricas e nações pobres, com alguns
intermediários nesta história. Houve, no século
passado, a solidez da libra lastreada em ouro do reinado de Victoria
e em 1945/46 surgiu o dólar, garantido pela mirífica
visão das inesgotáveis reservas de ouro estocadas
em Fort Knox.
Contos de fadas. Se existir uma reserva de ouro em Knox, será
apenas um truque de cenografia, muito bem montado com acrílicos
mais polidos e brilhantes que o próprio ouro. Este ouro todo
já foi sacado pelos governos europeus, liderados pela França
de De Gaulle, quando, saídos da guerra e já reconstruídos,
descobriram que tinham em seus cofres uma avalanche de moeda escriturada
e de papel moeda em US$, ironicamente, a moeda que ajudara a Europa
a se levantar e que agora a sufocava através da compra indiscriminada
de suas riquezas industriais, por meio de um cheque, aparentemente
de boa qualidade mas, na verdade, quase sem fundos.
Ainda não era um cheque sem fundos total, como franceses
e alemães logo perceberam, já que o dólar ainda
era lastreado em ouro, na cotação de US$ 35 a onça
troy uma coisa bem abaixo da cotação atual (a onça
troy hoje vale dez vezes este valor).
De posse de seus títulos em papel americano, os governos
europeus trataram de transferir o ouro equivalente para suas contas,
num movimento tão alucinado e acelerado que, primeiramente,
o governo americano tratou de reavaliar a paridade, reajustando-a
para US$ 160 a onça. Não adiantou, os saques em ouro
continuaram e o governo americano, numa crise parecida com esta
de agora, desvinculou o dólar do ouro e o papel passou a
flutuar desde então ao sabor do mercado.
Foi a segunda falha do sistema financeiro mundial.
A primeira falha teve origem em 1944, na conferência de Bretton
Woods, quando as potências vitoriosas se reuniram para traçar
os rumos da economia mundial do pós-guerra. John Maynard
Keynes, o representante da Inglaterra e um dos mais brilhantes pensadores
da economia, propôs que a partir de então, as transações
econômico-financeiras fossem regidas por uma moeda escriturada,
o bancor, que seria monitorada por um banco central mundial que
manteria vigilância permanente sobre as trocas internacionais,
lançando alertas vermelhos toda a vez que aflorasse um desequilíbrio,
não importava se positivo ou negativo. O superávit
exagerado seria tão punido quanto o déficit incontrolável
e haveriam mecanismos de socorro para o reajuste das economias.
A proposta de Keynes foi brilhantemente aprovada... Em parte.
Em vez de um banco central que controlasse planetariamente a economia,
criaram o FMI, Fundo Monetário Internacional, uma entidade
sem muita força, cujo fundo de caixa foi proporcionado por
todos os países membros, depositando uma parte em ouro e
o restante em sua própria moeda nacional. Não aprovaram
a moeda escritural. abrindo lugar para que o dólar assumisse
rapidamente este papel. Nada mais justo, afinal os Estados Unidos
eram credores de todos os países vitoriosos na guerra da
Europa e eram credores até da reconstrução
da Alemanha, financiada pelo Plano Marshall.
Além disso, os Estados Unidos tinham amargado séculos
de país do terceiro mundo, dominado pela matriz inglesa.
Agora, com uma Inglaterra combalida - para não dizer falida
- era vez da moeda americana substituir a libra como balizadora
das trocas internacionais.
E assim se deu.
Com todas as cagadas que estamos vendo agora.
* * *
Durante todos os anos 50, o turista americano
foi o visitante dos sonhos de qualquer país em reconstrução.
O casalzinho do Arkansas, passava no banco da esquina, sacava parte
de suas economias em dólar e se mandava para a Europa.
Em função de sua cultura arraigada, o casal, com seu
trajes facilmente reconhecíveis à distância,
não entendia muito bem o velho mundo, com suas casas arcaicas
e muitas ruínas, vistas a partir das confortáveis
poltronas dos ônibus de citytour, mas se maravilhava com a
gentileza do povo, sempre disposto a fazer favores, em troca de
uns poucos níqueis.
E aí surgiram filmes maravilhosos: An American in Paris,
Sabrina, Tree Coins in The Fountain, O Candelabro Italiano, Rossano
Brazzi, etc, etc, etc.
Saco!
Cansei de ver aquela história, onde um americano chega no
interior da França e uma garotinha, a mais gostosa do pedaço,
começa a falar em inglês, porque ela tinha um tio,
que gostava muito da América e a ensinou a falar a nova língua,
durante a pérfida ocupação alemã.
Senão, como é que o caso ia rolar até a cama
sem legendas?
* * *
E tome dinheiro, tome papel, invadindo a economia e se tornando
cada vez mais indesejável.
O Balanço de Pagamentos americano vinha sendo deficitário
desde 1951e aqui devo chamar a atenção para que não
confundam Balanço de Pagamentos com Balança Comercial.
O déficit do Balanço de Pagamentos representava o
total de moeda emitida para cobrir principalmente, os investimentos
de longo prazo das empresas americanas no exterior. Em outras palavras,
o governo americano emitia dólares sem qualquer lastro para
a compra de riquezas reais (indústrias e similares) no velho
mundo e no Oriente. O segundo componente do déficit eram
as crescentes despesas militares que respaldavam o papel dos Estados
Unidos como o defensor muito bem armado do mundo livre. Finalmente,
numa escala menor, mas bastante significativa, vinha o déficit
provocado pela conta turismo do cidadão comum americano.
O Balanço de Pagamentos americano só foi superavitário
em 1968/69, durante o governo Nixon, o que também é
simbólico e bastante inquietante, já que a melhor
gestão econômica dos Estados Unidos no pós guerra
foi defenestrada pelos honestos cidadãos da classe média,
porque o presidente era um mentiroso e um espião de campanhas
eleitorais do partido adversário.
Coincidentemente, a segunda melhor gestão econômica
da moderna história americana pertence a um presidente que
correu o risco de perder o mandato num longo processo jurídico-parlamentar
porque é um mentiroso e tem uma preferência por práticas
de sexo oral com indefesas estagiárias.
Mas voltando aos anos 60/70, a moeda americana sofreu uma forte
pressão especulativa, talvez mais violenta do que as que
presenciamos há pouco tempo no Sudeste Asiático, que
depois passou pela Russia, chegou ao Brasil e agora ameaça
a Argentina. Naquele tempo, a pressão especulativa contra
o dólar não era feita por anônimos investidores.
Na sua liderança estava Charles De Gaulle, que não
era um investidor oportunista como os de hoje. Ele era apenas um
grande estadista que se indignava com a facilidade de um país
em imprimir papel para comprar riquezas.
Mas nessa época, a Balança Comercial, aquela que regula
as trocas de produtos e serviços entre os países,
apontava um superávit em favor dos Estados Unidos.
E isso durou até 1971.
A partir de então, foi um despencar pela ribanceira. A administração
Jimmy Carter (1977/80) quase conseguiu implantar a inflação
galopante no país, que ameaçou até a hegemonia
do "quarter" como moeda capaz de comprar qualquer coisa
nas máquinas automáticas. Reagan (1981/88) levantou
a moral do povo americano, afastou a ameaça da inflação,
empurrando-a para baixo do tapete com o artifício de lançar
títulos da dívida do governo americano, uma coisa
que, anos depois, seria copiada pelo governo brasileiro
Com Reagan, os Estados Unidos deixaram de emitir mais dólares
sem lastro, pois seria escandaloso. Passaram a vender papéis.
Os resultados financeiros do país eram desastrosos. O déficit
entre as despesas do governo e a arrecadação de impostos
passou a girar na casa dos 200 bilhões/ano. A Balança
Comercial, outros 200 bi negativos e mais uns déficits da
Balança de Pagamentos, com despesas militares, somando mais
80 bi.
Nesses 17 anos, os Estados Unidos emitiram cerca de 5 trilhões
de dólares(*) em papéis da dívida interna.
Esses papéis, que na verdade significam a incapacidade de
um país em pagar suas contas até do armazém,
estão na mão dos investidores da nuvem e são
encarados como riqueza sólida, tão sólida e
segura que remunera o investimento com pouco mais de 5 por cento
ao ano.
Esta é a reserva técnica. O restante, que pode ser
8 ou 12 trilhões, e eu aposto mais na segunda hipótese,
precisa ser remunerado à altura dos méritos de quem
acumulou tanto dinheiro.
(*) atualizando este valor para julho de 2002, a dívida
interna americana já chegou a 6 trilhões, 111 bilhões
de dólares e cresce na velocidade de 25 mil dólares
por segundo.
Mas como surgiu este dinheiro?
É um processo constante e coerente.
Na primeira hora, foram os euro-dólares, resultantes do soerguimento
da economia européia e da enxurrada de papel americano que
entrou trazido pelos bolsos dos turistas e através das grandes
aquisições corporativas. As bases militares da OTAN
também cumpriram seu papel de distribuir generosamente dólares
para todos os tipos de cofres da Europa, incluindo ai os porquinhos
de barro da irmã caçula e chata da namorada gostosa
do soldado de Tio Sam, aquela que acompanhava a ida do casal ao
cinema.
Como resultado desta primeira acumulação
indesejada, tivemos as já citadas pressões especulativas
contra a moeda americana, lideradas pelo governo francês.
Um segundo movimento da economia mundial
que contribuiu para a crise atual se inicia com a guerra de 1973
entre Israel e seus vizinhos. Naquele momento, os países
produtores de petróleo, quase todos árabes, estavam
reunidos numa associação de classe, a OPEP. Como represália
ao apoio que Estados Unidos e países da Europa ocidental
estavam dando a Israel, a OPEP suspendeu inicialmente a entrega
de petróleo para os países ocidentais, estabelecendo
ao mesmo tempo um novo preço para o barril de petróleo,
que se mantivera, até então, décadas e décadas,
por volta dos 3 dólares.
Em poucos meses, o barril de petróleo já era cotado
a 30 dólares no mercado spot de Amsterdam, uma espécie
de bolsa de futuros, mais uma vez o papel substituindo a riqueza.
O choque desta operação na economia mundial foi muito
maior do que o percebido. Ele está na base de toda a desestabilização
financeira atual.
Toda a economia mundial girava no pressuposto
de matérias primas baratas, uma vez que os países
dominantes, os importadores de tais produtos, vinham impondo o preço
aos exportadores, países do e pra lá do terceiro mundo.
Tomemos como exemplo o automóvel,
a grande vedete da civilização industrial do pós-guerra.
Basicamente, um carro se faz com tecnologia (know-how); aço
derivado do minério de ferro; borracha, hoje mais derivada
do petróleo do que da seringueira e combustível, basicamente,
até então, extraído do petróleo.
De todos os componentes, o único existente com fartura no
chamado primeiro mundo era o conhecimento tecnológico. Os
demais eram buscados no terceiro mundo a preço vil. Uma tonelada
de ferro, que movimenta as siderúrgicas e a indústria
automotiva, custa hoje a metade de um almoço numa churrascaria
paulista. Os Estados Unidos sempre foram grandes produtores de petróleo,
mas em função do preço de banana praticado
no exterior, fecharam grande parte de seus poços, mantendo-os
como reserva técnica estratégica.
Mas vamos ao mais importante: a economia
mundial passou a viver com um de seus componentes de preço
custando dez vezes mais. Como em economia não existem milagres,
pois trata-se de um sistema de vasos comunicantes, o que começou
a ser cobrado a mais aqui, iria faltar, inevitavelmente, mais adiante.
Como aconteceu.
* * *
Comecemos analisando o impacto desta reviravolta
nos países exportadores. Países árabes, com
estrutura de poder familiar, feudal, que já viviam bem com
3 dólares o barril, de uma hora para outra, se viram atolados
por uma enxurrada de dinheiro.
O que fazer com ele?
Foi uma loucura. Na primeira hora, compraram Rolls Royces folheados
a ouro, fecharam o Harrod's de Londres, uma das maiores lojas de
departamentos do mundo, por um domingo inteiro, com todos os empregados
a postos, para que a família de um príncipe árabe
pudesse comprar com calma tudo o que quisesse.
No segundo estágio, mais sofisticado, pensaram em comprar
todas as empresas do mundo. Começaram a fazer isso, mas a
empresa ocidental era muito complicada para a cabeça anárquica
dos monarcas árabes. Chegaram a comprar algumas coisas, patrocinaram
a Williams, escuderia da Fórmula 1 e com isso eliminaram
a tradicional champanhe comemorativa da vitória no pódium,
por motivos islâmicos.
Comemoravam com refrigerante.
Saco!
Indisciplinados como eram, os árabes chegaram à conclusão
que empresas ocidentais eram muito chatas, que seus ganhos eram
muito pequenos, comparados com o girar da manivela dos poços
e desistiram de controlar economicamente todo o mundo.
Resolveram então aplicar as sobras desse dinheirão,
numa caderneta de poupança.
* * *
Analisemos agora a posição das
casas bancárias, diante deste novo fato.
Os banqueiros, há muito tempo, já estavam acostumados
à difícil rotina de captar dinheiro que era posteriormente
aplicado em bons negócios para o banco, principalmente.
De uma hora para outra, as portas das casas bancárias foram
arrombadas por uma avalancha de dinheiro, que desejava ser remunerado...
E bem!
Somas de tal grandeza punham em risco a estabilidade do próprio
sistema bancário. Um bilhão de dólares, aplicados
à menor tacha, representavam um custo diário para
o banco de US 1 milhão e 600. Só a partir desse ganho
é que o banco teria que procurar sua remuneração.
* * *
Na outra ponta do processo, estavam os países
- ricos ou pobres, não importava - que precisavam comprar
o petróleo pelos novos preços e, é claro, não
tinham bala para isso. Mas aí, pela primeira vez, estes países
se depararam com bancos para lá de amistosos, oferecendo
exatamente o que eles mais precisavam:
Dinheiro a custo barato para comprar gasolina.
A coisa foi tão alucinante que o ministro
da economia do Brasil na época, Delfim Neto, chegou a autorizar
o aumento dos juros no Brasil para forçar os empresários
e governos estaduais e municipais a ir buscar o dinheiro lá
fora. Os dólares que entravam desta maneira ficavam na porteira
do Delfim, que repassava para os tomadores o equivalente em cruzeiros
da época.
Este processo ia muito bem, até que os bancos começaram
a se assustar, por volta de 1982, com os fortes índices de
inadimplência dos tomadores e fecharam a torneira do dinheiro
fácil.
E aí chegamos à crise dos anos 80.
No Brasil começamos a falar em dívida externa, FMI,
alta de juros, aumento do custo dos serviços, aumento dos
impostos, redução dos salários, desemprego,
inflação, inflação, INFLAÇÃO...
Em dezembro de 82, o Brasil baixou à UTI, com sua saúde
econômica bastante abalada.
E nós, brasileiros, perdemos um pouco mais de dez anos de
nossas vidas apenas por conviver com esta crise.
Crime!
Mais uma vez, crime dos papeleiros.
* * *
O tempo foi passando e as dívidas
se transformaram em papéis que, até hoje, têm
cotação no mercado.
É impressionante como uma clara evidência de falência
se transformou em dinheiro que, a partir daí, é confundido
com riqueza.
Esse dinheirão domina o mundo e é o único responsável
criminal pela crise que estamos vivendo hoje.
* * *
Como os papeleiros servem ao dinheiro.
Ao papeleiro só interessa buscar a
maior remuneração possível para o papel chamado
dinheiro.
Os banqueiros, historicamente os primeiros papeleiros, já
que inventaram o papel moeda, descobriram rapidamente que o dinheiro
que não mais captavam, mas jorrava aos borbotões em
suas mesas, não podia ser remunerado com empréstimos
a terceiros por uma pequena taxa acima, o famoso spread.
E aí os bancos começaram a recrutar jovens brilhantes,
na faixa dos 27 anos, recém saídos de mestrados e
doutorados, para bolar fórmulas mágicas capazes de
remunerar o criminoso papel.
A criatividade da juventude foi fundamental nesta brincadeira irresponsável
que está nos fudendo agora.
O raciocínio é simples.
Qual é o mecanismo financeiro capaz de proporcionar grandes
ganhos num curto espaço de tempo?
As bolsas de valores, é claro. E as de futuro, também!
A partir daí, começa a festa.
A compra e venda de ações pode proporcionar ocasionalmente
grandes ganhos, ou grandes perdas, mas nada acima do um por cento,
em períodos de estabilidade.
E um por cento era pouco. Aí, os garotinhos começaram
a criar novos games mais fascinantes.
* * *
O primeiro deles, chama-se mercado futuro.
É um joguinho muito engraçado onde eu aposto que a
ação que eu me comprometi a comprar daqui a trinta
dias pelo valor de 1 dólar, estará valendo na época
1 dólar e 20. E aí eu ganho 20 centavos por ação.
Se ela estiver valendo 80 centavos, eu perco 20 e tenho que honrar
o compromisso.
Volto a repetir: tenho que honrar o compromisso.
Mas na hora da compra, eu não pago
nada e se meu palpite der certo, eu ganho uma fortuna aplicando
nada.
É um jogo, não é?
* * *
O segundo joguinho chama-se mercado de opções
e está intrinsecamente ligado ao primeiro. Eu compro, no
mercado futuro, uma ação que pagarei um real daqui
a 60 dias.
Na euforia das bolsas da primeira metade dos anos 90, em 30 dias
a ação que eu me comprometi a comprar já está
valendo 1 real e 50. Aí chega um interessado e me oferece
30 centavos pela opção de comprar aquela ação
daqui a trinta dias.
Se eu vendo, eu ganho 30 centavos por ação sem ter
desembolsado um níquel.
Imagine se eu tivesse comprado 1 milhão de ações,
o que é normal neste mercado, eu teria na carteira 300 mil
dólares.
Entenderam porque os garotinhos de 27 anos dirigem, no mínimo,
um Audi?
Vamos adiante.
O segundo comprador da opção, aquele que desembolsou
30 centavos, ou seja 300 mil dólares, vê que ação
em dois dias, pulou de R$ 1.50 para R$ 2.
Ai ele vende sua opção por 50 centavos.
Ou seja, em dois dias, ele aplicou 300 mil dólares e recebeu
500 mil!
Joguinho interessante, não?
Foi isso que aconteceu nestes últimos anos.
E iria continuar desde que as bolsas continuassem a crescer.
Só que elas começaram a cair.
* * *
E ai, como é que fica?
Fica uma grande cagada que o pobre cidadão não entende
e acha que é em parte culpado.
Não é culpado. A culpa inteira deve ser debitada aos
papeleiros!
* * *
Voltemos àquele cara que comprou a
opção de compra das ações por 500 mil
reais, já que elas valiam quase 2. Lembram-se: essas ações
estavam para ser pagas no valor de 1 real, dentro de mais 30 dias.
Grande lucro!
Só que as bolsas caíram, depois de 10 anos de euforia
e aquela ação que aparentemente valia 1 real, estava
cotada agora a 60 centavos.
E o que fazer com um papel de opção de compra que
foi pago a 500 mil reais?
Limpar o rabo?
* * *
Esse é o negócio. Enquanto
as bolsas subiam qualquer jogo era aceitável. Agora que as
bolsas caíram, cabe ao cidadão comum pagar a conta
dos garotinhos de 27 anos com suas máquinas maravilhosas,
tipo Ferrari Testa Rossa.
* * *
O presidente do Federal Reserve, Allen Greenspan,
informou que os investidores americanos perderam cerca de 1 trilhão
e meio de dólares com as oscilações da Bolsa
desde outubro de 1999. O mundo inteiro, calculam outros, viram 3
trilhões e meio se evaporarem, o que eu acredito e faz com
que a nuvem esteja menor. Segundo esses cálculos, ela varia
agora entre 9.5 e 13.5 trilhões.
Ainda é muito dinheiro irresponsável... Criminoso.
***
Conclusão:
Nos últimos dias, os jornalistas do
tipo papagaio começam a falar em nova arquitetura para o
sistema financeiro mundial.
Quem acompanhou e acreditou no que aqui foi
exposto já sabe porque o sistema financeiro mundial precisa
de uma reforma radical.
Do jeito que está, estamos caminhando irremediavelmente para
o apocalipse econômico.
A civilização já passou por isso pelo menos
três vezes. Nas vésperas de 1914, a grande mobilização
de mão de obra para ser bucha de canhão, resolveu
o problema do desemprego, que era iminente. Depois, em 1929, a aparente
exuberância da economia americana sofreu o refluxo de uma
Europa que não se saíra bem da Primeira Grande Guerra
e que estava sendo sustentada pelo aporte de capitais americanos.
Mas aí a linha política caipira americana prevaleceu
no Congresso e o dinheiro para a Europa foi cortado. Com isso, a
Europa deixou de comprar aos americanos e o resto todos nós
sabemos: a queda da Bolsa de Nova York, uma profunda recessão
nos Estados Unidos, com advogados desempregados na fila da sopa,
em Chicago e Nova York, enquanto no interior as colheitas apodreciam
por falta de preço e de transportes.
Toda a crise do papel é muito burra!
Em 1929, não foi apenas o corte do fluxo de capitais para
a Europa que provocou a crise. Os negócios em papel no mercado
americano estavam chegando ao delírio. Imagine-se uma pequena
estrada de ferro de 100 quilômetros. Era a única coisa
real. Ai inventavam uma companhia holding para administrar a ferrovia
e seus papéis eram vendidos na bolsa. Na seqüência,
criavam uma nova holding que unificava a primeira holding citada
com uma outra que controlava uma ferrovia mais adiante com 150 quilômetros
de trilhos.
Aí, os papeleiros foram fazendo a holding da holding e todos
os papéis eram lançados na bolsa, com excelente cotação
e aceitação. Quando sentaram na realidade, descobriram
que companhias de bilhões tinham como base física
apenas duas estradinhas de ferro que somavam 250 quilômetros.
Não vou adiante. Quem quiser que leia e estarei aqui para
indicar.
Quando os papeleiros de então dirigindo seus carrões
Ford saíram de cena, constrangidos pela cagada provocada
na economia, sem querer abriram espaço para um homem competente
que começou aos poucos a reconstruir a América, partindo
da verdade econômica. Roosevelt, com sua política do
New Deal, atacou a região mais miserável dos Estados
Unidos, o Vale do Tenessee.
Juntando tecnologia e planejamento, represas foram planejadas para,
a partir dos afluentes, regular o fluxo do rio principal. Cada represa
era uma fonte de empregos, cada represa era uma geradora de energia,
cada nova vila operária era um centro de consumo, principalmente
para aparelhos elétricos.
O que os papeleiros tinham destruído com sua ganância
exacerbada, Roosevelt começou a reconstruir passo a passo,
tratando de garantir emprego para o americano mais despreparado.
Temos que pensar nisso, já que estamos mergulhando numa situação
muito parecida e não há sinal de vida inteligente
no horizonte.
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