
John Lenon e eu
Carlos Alberto Jales
Depois que comprei e paguei as compras no Mercado Público, ouvi uma voz que me chamava: - Doutor, quer que eu ajude a levar as sacolas no carro? O senhor me dá o que quiser. Ecoava em mim a retórica de Sociólogos, Pedagogos, Curadores da Infância e da Adolescência, Membros do Ministério Público: - Não dêem esmolas, não incentivem a preguiça, não sejam paternalistas.
Aquele pedaço de gente tinha no máximo 8 anos de idade: pequeno, muito magro, rosto desconsolado. Concordei: está bem,me ajude a levar as compras. O carro estava a uns 100metros do mercado. Dei metade das sacolas a meu ajudante e no caminho fui puxando conversa.
- Qual o seu nome?
- John Lenon
- Você sabe quem foi John Lenon?
- Diz que foi um cantor
- Você sabe onde ele nasceu?
- Não, nunca me disseram.
- E que idade tem você?
- 11 anos.
Me espantei , mas prossegui.
- Estuda?
- Não senhor, eu estudava, mas a Prefeitura começou a reformar a Escola e já faz dois anos que nós não tem aula.
Aos meus ouvidos, o discurso dos Gestores chegava: “Construímos tantas escolas, reformamos outras, toda criança agora tem vaga garantida, não estuda quem não quer, a merenda não falta, a qualidade do ensino, o método Paulo Freire, combatemos a educação bancária... “
Continuei perguntando:
- Você tem pai, John Lenon?
- Minha mãe diz que ele foi embora caçar emprego noutro lugar e nunca mais voltou. Eu era novinho, não conheci ele não senhor.
- E sua mãe, trabalha em que?
- Trabalha na casa dos outros, é faxineira, lava roupa, faz muita coisa.
- Você sabe a idade de sua mãe?
- Parece que tem 25 ano. - E você tem irmãos?
- Tenho três irmão e uma irmã fêmea
- Mas seu pai não foi embora quando você era pequeno?
- Foi doutor, mas minha mãe já teve três marido.
Não quis perguntar se seus irmãos estudavam, o que faziam. Quis saber de coisas mais amenas.
- Você gosta de futebol?
- Gosto e torço pelo Flamengo. Uma vez, um marido de minha mãe me levou ao Almeidão para ver ele jogar contra o Botafogo daqui.
- E qual o melhor jogador do Brasil?
- Garrincha
- Mas Garrincha já morreu faz tempo. Eu quero saber de um jogador de hoje...
- É o Imperador, diz que ele faz muito gol... John Lenon já estava cansado, eu não queria mais sofrer, mas uma pergunta martelava minha cabeça: “Que país é este?” E me lembrava que ninguém sabia a resposta, por mais que se discutisse em Simpósios, Seminários, Congressos, Convenções de Partidos. Sociólogos, Cientistas Políticos, Parlamentares, Economistas, Pastores, Educadores, Psicólogos, despistavam e marcavam o próximo encontro.
John Lenon não sabia quem era o Presidente da República, nem Governador, nem Prefeito, nem nenhum nome de Vereador. Não sabia também o que era um Juiz, um Deputado. O menino que me acompanhava era um não-cidadão, um número perdido em estatísticas que não servem para nada.
Chegamos ao carro. Acomodei as sacolas. Dei a Lenon o que achava que ele merecia. Ele não pedira esmola. Oferecera trabalho. Minha consciência estava apaziguada. Liguei o motor, dei partida, sintonizei uma rádio no aparelho de som. Por ironia, ou coincidência, ou por um aviso dos Deuses, a rádio tocava “Imagine”, a música mais famosa de John Lenon. Pelo retrovisor, vi o outro John Lenon, o meu, se afastando, talvez satisfeito com a migalha que lhe dera, talvez pensando em comprar alguma coisa para comer. No carro, a voz do Beatles cantando “ Imagine “ me feria como um punhal.
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