| Uma
lição de vida
Jorge Fernando dos Santos
Jorge Fernando dos Santos é escritor,
compositor e jornalista, editor de Suplementos e Revistas do jornal
Estado de Minas, onde publicou a presente crônica. É
autor de 18 livros, a maioria infanto-juvenil. Sua obra mais conhecida
é o romance "Palmeira Seca", ganhador do Prêmio
Guimarães Rosa e adaptado para teatro e minissérie
na TV Minas. A trilha sonora dele, em parceria com Chico Lobo e
Valter Braga, foi gravada em disco na voz de vários cantores
de Minas.
Uma coisa que sempre me comoveu (e intrigou)
é a alegria da rapaziada da coleta de lixo. Dia sim, dia
não, o caminhão da SLU desce a minha rua e eles fazem
aquela algazarra. Quase sempre estão brincando, tirando sarro
uns com os outros, sorridentes e solícitos com os moradores.
Mesmo na pressa de apanhar os sacos de lixo, encontram tempo para
gritar "bom dia patrão" ou para comentar a vitória
do Galo, a derrota do Cruzeiro ou vice-versa.
Dia desses levantei de bom humor, o que nem
sempre acontece nas manhãs quentes de verão. No momento
em que saía de casa, vi surgir no topo da rua o grande caminhão
amarelo. E eis que de sua traseira saltou um negão todo suado,
com um sorriso branco no meio da cara. A vizinha do lado estava
lavando o passeio, desperdiçando água como já
é de costume. O sujeito limpou o suor na manga da camisa
e a cumprimentou. "Será que a senhora me deixa beber
um pouco d'água?", ele perguntou sem rodeios. "Essa
água não é boa", ela disse. "Espera
um pouco que eu busco água filtrada." "Que é
isso, madame? Precisa não. Água da mangueira já
está bom demais."
Ela estendeu o jato d'água e ele se
deliciou. Depois de beber boas goladas, meteu a carapinha sob a
água e se refrescou. O sol no céu azul estava de arrebentar
mamona e o alto da rua oscilava sob o efeito do calor. O negão
agradeceu a "caridade" da minha vizinha e seguiu correndo
atrás do caminhão amarelo, dentro do qual atirava
os sacos de lixo apanhados no passeio.
Na esquina de baixo, o caminhão parou, pois o condomínio
em frente sempre produz muitos sacos plásticos. Quando passei
pelo negão e seu companheiro, ambos atiravam sacos no triturador
do caminhão. Parei na sombra de uma quaresmeira para observar
o trabalho deles enquanto esperava ônibus.
O motorista saiu da boléia com um cigarro
na boca e perguntou se eu tinha fósforo. Emprestei-lhe o
isqueiro e, enquanto ele acendia o seu "mata rato", comentei:
"Sempre admirei a alegria com que vocês trabalham."
O motorista soprou a fumaça, devolveu-me o isqueiro e comentou:
"E por que a gente devia de ser triste?" "Não
sei... Um trabalho desses não deve ser mole." "Claro
que não", ele retrucou. "Mas duro mesmo é
a vida de quem revira o lixo à procura de comida. A gente
pelo menos não chegamos lá." Em seguida, ele
entrou na boléia, os dois homens de amarelo terminaram a
coleta e subiram na carroceria. O caminhão arrancou e eu
fiquei pensativo, enquanto esperava o "busun".
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