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Internet
Inconformado com o progresso
Sergio Cavalcanti *
Jamais poderia imaginar que um simples
artigo enaltecendo a Internet fosse provocar tantos comentários
desfavoráveis à rede mundial de computadores. Um deles,
dos mais irados, veio do Luiz Lara Resende, consultor da Rede Globo
de Televisão. Inconformado com o sucesso da Web, Lara deitou
e rolou em críticas. Diz ser favorável ao fim da rede.
Afirma que, com poucas exceções, a tecnologia trabalha
para bestializar cada vez mais o ser humano que, segundo ele, quase
nunca falha: humilha, mata, fere, esfola, assalta, rouba, gasta
bilhões em guerras estúpidas e deixa milhões
morrerem de fome.
Embora se utilize da rede, Lara se recusa
a ser considerado um
internauta e não consegue imaginar o prazer daqueles que
ficam na frente de um computador, inclusive pela madrugada, navegando
pelo mundo. Diz que prefere viajar mesmo é de avião,
de carro, de ônibus, de carroça, a pé, conhecer
com seus próprios olhos. Sentir as cores e os odores. Ao
condenar a Internet, enaltece as árvores, os pássaros,
as nuvens, os rios, as montanhas, o mar, as flores, os animais,
a chuva, o chope amigo da mesa de um bar. E afirma saber onde tudo
se perdeu ; no maldito dinheiro. Por isso é a favor da volta
do escambo. Citando Rubem Braga, diz que o homem devia viver de
caça, pesca e colheita de frutos naturais E faz um alerta
aos internautas : cuidado, ligado sempre à Internet você
pode perder o falar. Abra uma janela para o mundo e feche o monitor
de vídeo ? sentencia ele em sua mensagem a este escriba contando
ainda o exemplo ocorrido há alguns meses, quando assistiu
a uma palestra de um "cobra".
A passagem é interessante e aqui abro
aspas para o Lara :
"O palestrante, um idiota (sim trata-se
de um idiota, quem sabe, um monstro), um ser humano desprovido de
emoção (meu Deus, como viver sem emoção
, na frieza da Internet ?), creio que um andróide (sim, agora
tenho certeza, trata-se de um andróide, de um software, um
hardware, construído pelos magnatas da tecnologia) arrotando
certezas ele disse , bem alto para que todos ouvissem : o livro
vai acabar. Será substituído por uma maquininha
que, através do manuseio de um botão, você vai
passando as páginas.
Imagine, levar uma bosta dessa para a praia,
para a beira da piscina, para o banco da praça, para o banheiro...
Não ter contato com o papel, não se poder fazer anotações
ao pé e ao lado das páginas. Não haverá
mais biblioteca e sim maquinoteca. Tudo eletrônico, ascético,
gelado, sem emoção, sem lirismo. Eu perguntei-lhe
quando isso ia acontecer. Ele quis saber por que. E eu disse-lhe
: quero morrer antes, não quero viver num mundo de
seres-máquina".
Como se observa, o Lara Resende estava possesso contra a rede mundial
de computadores. Quem sabe contra o mundo atual. Daqui, o que posso
dizer ao Lara e a outros escribas inconformados com a Internet e
o progresso da era em que vivemos, é que eu também
prefiro o passado : o ar do campo, andar de charrete, pescar, nadar
em águas limpas, um feijão na panela de barro e no
forno a lenha, morar em casa, sem grades e com segurança,
jogar uma pelada na rua, cuidar da horta, viajar no trem maria-fumaça,
apanhar um fruto no pé, conhecer e ser conhecido por todas
as pessoas do bairro, ver o avô e o
pai almoçarem em casa e ainda tirarem uma soneca antes de
voltarem ao batente ,enfim, tudo aquilo que pude desfrutar na infância.
Mas que, infelizmente, não tem mais espaço nas grandes
cidades do agitado e violento mundo contemporâneo. Onde, apesar
de tudo, a felicidade também existe. O habitante das grandes
metrópoles, meu caro Lara, é como o passarinho nascido
na gaiola. Ele também é feliz . E a Internet para
muitos
não deixa de ser uma alavanca, um caminho virtual para se
alcançar sonhos impossíveis e um real para amenizar
tristezas e sofrimentos.
* Sérgio Cavalcanti é jornalista
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