ARTE DA HORA
Helio Jesuino,
artista plástico.
A obra de arte é indissociável do
contexto em que foi produzida. Da concepção à realização
ela incorpora as marcas e idiossincrasias de seu tempo, mantendo vínculos
umbilicais com a sociedade, as condições e os valores
sob os quais foi gerada. Não há como nem porquê
evitá-lo.
Muitas obras criadas no passado e que admiramos
até hoje abordaram temas e adotaram maneirismos que, na época
em que foram produzidas, sintonizavam-nas com o que era então
considerado a quintessência do moderno.
Hoje, esses mesmos elementos que lhe conferiram
aquela efêmera contemporaneidade ainda que não lhe
retirem a permanência e a qualidade intrínsecas não
são mais que resíduos sem função. Não
é a eles que essas obras devem sua longevidade , mas a valores
de outra ordem que, resistindo à passagem do tempo, determinaram
sua sobrevida. Pois bem, o que se vê hoje em dia é aquele
mosto residual transformar-se no fulcro da obra, sua finalidade última
e precípua.
Aí estão os espaços institucionais
tomados pelos modismos e estéticas de ocasião ditadas
pelas novas academias. Cada época tem as suas, com os respectivos
cânones, arrogâncias e circunstanciais influências.
Umas duram mais , outras menos, mas acabam todas por desaparecer e,
com elas, suas palavras de ordem e hoje, a ordem-do-dia é
a contemporaneidade no que ela tem de mais fugaz , entronizada em seu
aspecto mais volátil e perecível.
Plugados numa sociedade que venera o descartável,
os artistas da hora exaltam sem qualquer conteúdo crítico
essa volubilidade fashion, obcecados pela novidade, refratários
a qualquer busca de permanência.
Só confete, conceitos e purpurina...
E tome de lixo up-to-date escoltado pelos textos
dos curadores que dão nó em pingo dágua para
justificar num palavrório tão vazio quanto pedante a fragilidade
das obras que promovem.
Quem é do ramo sabe que o problema não
é mais uma das mazelas genuinamente nacionais. Nada mais o é,
nem mesmo as mazelas. O vírus, como tantos outros males, globalizou-se.
A diferença está no fato de que, lá fora, outras
vertentes artísticas têm forças e meios para impor
sua visibilidade, e o público, menos ingênuo e desinformado,
adquiriu anticorpos e discernimento para exigir do mercado e das instituições
públicas uma pluralidade de ofertas inexistente entre nós.
Finalizando, pergunto-me se nós que recusamos
essas empulhações, não teríamos uma parcela
de culpa neste estado de coisas já que são raríssimas
as vozes que manifestam publicamente sua insatisfação,
desmentindo uma aparente unanimidade em torno desta nova ordem
estética que, permitam-me, já encheu o saco!
(voltar ao topo)