
Lya Luft
O SILÊNCIO DOS AMANTES
Maria das Graças Targino *
Lya Luft é um nome que, pouco a pouco, consegue espaço na literatura brasileira. No entanto, como às vezes ocorre, face à dificuldade de concepção do que é literatura no sentido estrito do termo ou do que é literariedade (qualidade do que é literário), surgem vozes dissonantes em torno de sua obra. Desconfia-se, e pode ser engano, que sua coluna quinzenal na revista Veja é uma faca de dois gumes. Ao tempo que vem dando visibilidade à sua produção, com reações quase sempre favoráveis às opiniões emitidas invariavelmente sobre temas diversos, como amor, educação, pena de morte, violência urbana etc., em sentido oposto, gera resistência por parte do público que faz objeção à linha editorial da citada revista semanal.
De qualquer forma, é evidente que a gaúcha Lya Luft mantém capacidade de “passear” dentre os mais diferentes gêneros da literatura. A princípio, romance: nos anos 80, Reunião de Família; em 1999, O Ponto Cego. O sucesso chega com os primeiros livros de ensaios, Perdas & ganhos, de 2003 e 600 mil exemplares; Pensar é transgredir, com 215 mil, em 2004. As crônicas integram o fazer-escrever da autora. Agora, livro de contos, O silêncio dos amantes. Porém, independente do gênero, Lya está sempre a explorar a incomunicabilidade subjacente ao relacionamento humano, que aprofunda a solidão, o sentimento de desamor, o tédio que ronda as relações e assim por diante. E não se refere tão-somente aos relacionamentos amorosos, mas, sim, a qualquer convívio entre pessoas que, de uma forma ou de outra, mantêm vínculos, seja na família, seja na comunidade onde vivem, seja no ambiente de trabalho.
A comunicação nos relacionamentos é fascinante, em suas facilidades, em suas dificuldades, por uma razão única e que se basta: nenhum homem é uma ilha, e, como tal, necessita de manter contato com os demais, em níveis os mais distintos. É claro que há o silêncio mágico, em que olhar de cumplicidade ou gesto pleno de carícia vale mais do que mil palavras ditas e reditas. A incomunicabilidade, por sua vez, assume feições distintas. Às vezes, a palavra silenciada, que corresponde aos ressentimentos e / ou às mágoas acumuladas no peito. Outras vezes, a palavra negada, quando falar teria feito a diferença, com o agravante de que, nos dois casos, pode-se nem sequer perceber o equívoco do não dito.
Assim, em O silêncio dos amantes, editado no Rio de Janeiro, pela Record, ano 2008, Lya explora, ao longo de suas 160 páginas, trágicos desencontros. É o filho adolescente (conto A pedra da Bruxa), que se joga despenhadeiro abaixo em busca da morte, deixando aos pais, como herança maldita, sentimento quase intolerável de culpa, por sua incapacidade de não desvendar os contínuos pedidos de socorro. Em O internato, a autora traz à tona cicatrizes que impedem um homem de perdoar o gesto do pai ao condená-lo, ainda criança, à solidão de um internato. Velho decrépito, o pai não decifra as palavras não mais silenciadas do filho adulto, que rosna em seu ouvido, “com a ferocidade de um cachorro batido que finalmente pode morder: - Vamos, velho nojento. Hora de ir para o internato.” (p. 88). São apenas exemplos... Há mais, muito mais.
Lya Luft finaliza o livro com o conto que lhe dá o título, O silêncio dos amantes. Evidencia, então, que, na vida, existe alegria e não apenas sofrimento, descrevendo, com magia, a história de um casal não jovem, que consegue seguir em frente e juntar os cacos de suas vidas aparentemente destruídas. É a prova cabal de que existe alegria além da dor... Afinal, há momentos de pura magia para quem ainda é capaz de ouvir, dentro da escalada do “silêncio bom”, as palavras, que espocam sem qualquer interrogação. Simplesmente explodem no coração dos homens!
* Maria das Graças TARGINO é jornalista e pós-doutora em jornalismo pela Universidad de Salamanca / Instituto Interuniversitario de Iberoamérica.