
QUASE TRISTE. QUASE FELIZ
Maria das Graças Targino
Hoje, amanheci triste. Triste, mais uma vez. Uma tristeza que, estranhamente, dá paz. A paz que só a consciência de que a nossa vida é a vida que nós mesmos construímos, para o bem ou para o mal . Não culpe ninguém por seus fracassos , por suas dores , por seus desencantos e até por suas vitórias. Tudo é conquista sua . No meu caso , trata-se de opção , acertada ou não , mas é a minha opção : a busca meio compulsiva , é verdade, por viver intensamente , seja lá o que for, sem mentiras ou meias-verdades e, principalmente , sem quase . Não quero ser quase feliz . Recuso a quase amar . Odeio quase odiar . Quero tudo , na íntegra . Sem meios-termos. A saudade , a transformo sempre , de nostalgia em faísca que me leva adiante para me entregar de novo , seja lá a que diabos de sonhos for. Quando a gente se sente sozinho , capta, com mais rapidez , os prenúncios de felicidade . E os deposita no coração , os prende na alma e segue adiante ...
Assim , prefiro ir deixando, pelo meio do caminho de flores e pedras , os quase amigos , os quase inimigos , os quase amores . E continuo sem deixar que o medo e a saudade tornem-se impeditivos para novas tentativas ou novas buscas . Às vezes , é verdade , sorrateiramente , vem o desejo intenso de olhar a “vidapeloretrovisor”, como alguém me disse um dia . Mas só de vez em quando . O resto do tempo , dedico-me a olhar para a frente , a sonhar , a caminhar . É a busca pela sonhada felicidade . São momentos intensos e, às vezes , fugidios , mas que afastam a sensação de vida-velório, e faz da vida uma estranha festa . Uma festa a que se vai, sabendo que há fim . É assim a sensação de felicidade que sempre vivo . Verdade que , um dia , em meio ao meu primeiro e louco amor , pensei que tudo era para sempre . Tudo , imutável . Tudo , eterno , Tudo , para sempre . Só ali . Nunca mais . Cedo , muito cedo , aprendi que nada é para sempre . Em oposição , tudo pode ser de verdade .
E em tudo isto , uma certeza – uma única certeza . A de que prefiro o sim ou o não ao quase ou ao talvez . É exatamente o talvez que me entristece. A certeza de que , desta vez , quase amei, quase fui amada . Afinal o quase é uma pedra no meio do caminho . Não precisa ser a pedra de Carlos Drummond. Todos nós temos as nossas próprias pedras . Quem quase foi feliz , não o foi. Quem quase ganhou nas loterias repletas, a cada final de semana , prossegue jogando. Quem quase finalizou um livro sonhado, não o fez. Quem quase pôs para fora as mágoas contidas diante do amigo , quase amigo , continua engasgado de pesar . Quem quase foi traído, continua acreditando na traição como fantasma sem cor .
Afinal , nada expressa tão bem a impossibilidade de compreender a vida como a sensação densa ( mas não morna ) de ser quasetriste e, ao mesmo tempo, quasefeliz. Novamente, mais uma opção: ou passamos a vida, tentando compreendê-la ao dissecá-la como os legistas o fazem diante de um corpo sem vida, ou a vivemos, sofregamente, usufruindo a magia da própria vida, distante de uma quase vida. De que serve uma vida outonal, em que o verde não é verde e as folhas não são secas, de fato? Tudo é odiosamente quase!
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