
DE BRUXAS E FADAS
Maria das Graças Targino *
De bruxas e fadas. De patinhos feios e cisnes. De tristeza e alegria. De amor e desamor. De admiração e condenação. De antagonismo e compreensão. De derrotas e vitórias. Descobri muito cedo na vida que a relatividade é sempre absoluta. E não se trata de frase de efeito. Ao contrário. Trata-se de uma das poucas verdades irreversíveis com as quais convivemos ao longo da vida. Falo dos olhares diametralmente opostos que podemos ter diante de uma mesma pessoa ou diante de um mesmo fato. Falo dos julgamentos que impiedosamente ou piedosamente impomos às pessoas e aos fatos que vivenciamos. Falo, sobretudo, das mudanças que tais olhares e tais julgamentos podem sofrer. Falo de vida...
Falo, particularmente, de Camilla Parker Bowles: a bruxa que se transforma em fada; o patinho feio que se transfigura em cisne. A mulher que, às vésperas de entrar pela porta da frente nos palácios reais britânicos ganha, agora, olhares complacentes, compreensão e até solidariedade. A destruidora de lares passa à condição de mulher capaz de construir um caminho pleno de afeto e dedicação, em meio à vida de enfado do príncipe Charles. Imprime ao rosto do amado um sorriso de felicidade. Não um sorriso qualquer. Mas aquele que diferencia os quem vivem um grande amor ou uma grande paixão.
Mais do que tudo, Camilla rompe a longa e paciente espera. Trinta e cinco anos de espera. Em surdina. À espreita. Às ocultas. A vida da “outra” vivida por tantas camillas perdidas nas ruas das vilas pequenas ou das cidades grandes, nos palácios ou nas casas modestas, na insensatez da juventude ou no devaneio da maturidade. Não importa! A solidão da “outra” é sempre a mesma. A solidão em momentos que pedem companhia: os natais, as comemorações em família, as viagens de férias, os domingos de preguiça, a cama vazia. E muito mais.
Por tudo isto, ao contrário do Arnaldo Jabor, para quem, se antes, era possível perguntar a Camilla “se é assim mesmo ou se está pelo avesso”, agora, descobre “uma mocréia sexy que parece ainda dar um bom caldo”, sempre tive para a futura duquesa da Cornualha um olhar complacente e, por que não dizer, de cumplicidade. Se a mim não interessa, particularmente, a história de príncipes e princesas, sempre consegui ver na Camilla, assim, à distância, mais do que a mocréia de Jabor. Por uma razão muito simples: como mulher e, por que não dizer, como a “outra”, em algum momento lindamente vivido, sempre acreditei no amor verdadeiro como força maior e avassaladora, mas nunca pecaminosa, porque não maquiavelicamente construída.
A grosseria desse comentarista ilustra muito bem a relatividade que impera. Os julgamentos que se suavizam. Afinal, 35 anos de espera representam muito mais do que uma vitória sobre a hipocrisia social. Representam, sim, uma linda história de amor, com direito à transfiguração em fadas e cisnes. Transfiguração que transcende as marcas que o tempo impõe, inexoravelmente, ao nosso corpo, mas deixa a salvo, algumas vezes, a nossa alma, porque, afinal de contas, não se trata, nem de uma linda e nem muito menos de uma jovem mulher!
* Maria das Graças TARGINO , doutora em ciência da informação e estudante de jornalismo.
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