
O Jornalismo em mutação
Maria das Graças TARGINO *
Em apresentação brilhante, o organizador
de Formação & informação ambiental:
jornalismo para iniciados e leigos, Sérgio Vilas Boas, chama
a atenção para o fato de jornais e jornalistas contribuírem
com a degradação ambiental, não apenas com a produção
do lixo doméstico, mas muito mais com a não produção
de matérias aprofundadas sobre o meio ambiente. E, de fato, ao
longo dos capítulos, é evidente que o livro clama por
mutações no jornalismo.
Um jornalismo em mutação é
a exigência maior. Urge uma postura mais educacional, esclarecedora
e orientadora do jornalismo especializado em meio ambiente e da imprensa
em geral. É a contribuição dos profissionais de
comunicação para sensibilizar o grande público
da relevância de se combater os danos ambientais, sem alarde e
sensacionalismo, distante da postura dos ecoterroristas, para quem manifestações
pacíficas ou o processo de conscientização são
esforços inúteis. Neste sentido, energia, água,
alimentos, ecossistemas, empresas e cidades são tópicos
discutidos pelos autores, a partir da premissa básica de que
o meio ambiente está intimamente relacionado com valores sociais,
culturais, econômicos, políticos e com o estágio
de desenvolvimento científico e tecnológico das nações.
Assim sendo, o jornalista que cobre meio ambiente necessita conhecimento
além do domínio de meras técnicas jornalísticas,
qual seja, demanda uma visão ampla de mundo, que lhe permita
compreender o todo, sem isolar as partes.
A responsabilidade direta pela produção
dos seis textos é de seis diferentes estudiosos. Dentre eles,
todos são, como o organizador, jornalistas respeitados. A única
exceção fica por conta de Odo Primavesi, engenheiro agrônomo
e pesquisador científico da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária
(EMBRAPA Sudeste), além de educador ambiental.
A princípio, Roberto Villar Belmonte, com
Cidades em mutações, traz à tona os efeitos da
violenta degradação ambiental, que combina possíveis
benefícios da modernização agrícola e urbano-industrial
com a promiscuidade das concentrações populacionais das
áreas urbanas, causada por lixões a céu aberto,
esgotos in natura em rios e lagos, e engarrafamentos quase infindos.
Tudo isto mesmo quando a biofilia afirma que o ser humano, como as demais
espécies, sofre graves danos psicológicos se submetido
a ambiente menos saudáveis. O autor propõe, com base no
conceito de Ignacy Sachs, a desruralização, como tentativa
de desinchar as megalópoles, mas incluindo gente. É o
combate ao êxodo rural em condições precárias.
É o combate pelo direito à cidade para todos, sem que
se perca de vista a qualidade de vida. Sem dúvida, trata-se de
uma proposta discutível em termos de operacionalização,
mas as soluções apresentadas não podem ser simplesmente
ignoradas.
No momento seguinte, Regina Scharf inicia seu
texto, Verde como dinheiro, desafiando repórteres para que façam
a distinção entre expressões comuns no nosso cotidiano,
como: papel reciclado x papel reciclável; produto vegetariano
x produto orgânico e assim sucessivamente. É uma forma
bem humorada de denunciar a falta de conhecimento acerca do desenvolvimento
econômico sustentável, num país como o nosso, cuja
imprensa, paradoxalmente, cobre, com desenvoltura as temáticas
econômicas. Em sua visão, a temática ambiental é,
quase sempre, folclorizada, esvaziada, reduzida e distorcida, como confirmado
em estudos sobre a produção da imprensa à época
da Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente
(ECO-92), no Rio de Janeiro. Exemplificando, pesquisa efetivada nos
cinco jornais diários de Teresina (Piauí), à época,
comprovou que a maioria das matérias veiculadas acerca da ECO-92
tende para o simplismo, o circunstancial, sem a devida acuidade (TARGINO;
BARROS, 1996).
Assim, Regina disserta sobre os conflitos de interesses,
nem sempre explícitos, entre as empresas capitalistas, a legislação
ambiental, as certificações internacionais e o custo-benefício
embutido no esforço do ecologicamente correto e da produção
mais limpa. É evidente que investir em meio ambiente significa
custos adicionais para o empresariado. Mas, não fazê-lo
custa ainda mais, como retratado em filme hollywoodiano bastante comentado,
baseado em fato real. Erin Brockovich, vivida nas telas por Julia Roberts,
é secretária num escritório de advocacia e decide
investigar a fundo, e por conta própria, um caso de poluição
ambiental causado por uma empresa estadual de eletricidade, sediada
numa pequena cidade norte-americana, resultando numa multa milionária
imposta à empresa.
O terceiro capítulo é responsabilidade
de Eduardo Geraque. Perceber a biodiversidade fazendo jus ao subtítulo
jornalismo e ecossistemas parecem (mas não são)
elos perdidos , discute a vinculação estreita entre
diversidade biológica e o seu interior e exterior. Sob esta perspectiva,
uma das funções do jornalismo ambiental é [...]
entrar na espiral de relações que a natureza oferece.
Na teia de significações. Na história humana. No
povo ribeirinho. Nos grandes empresários [...] O cerne da questão
ambiental, e de como o jornalismo enxerga o problema, passa pelo preenchimento
que existe hoje desse hiato entre o mundo vivo e aquele pedaço
de mundo recortado para a página do jornal ou a tela da TV. (GERAQUE,
2004, p. 80).
Água de uma fonte só retrata a experiência
concreta vivenciada pela população de Uberaba, Minas Gerais.
O descarrilamento, na Ferrovia Centro Atlântica, no ano de 2003,
de 18 vagões de uma locomotiva fez com que 13 deles despejassem
no córrego Congonhas cerca de 720 toneladas de produtos tóxicos
metanol, cloreto de potássio e octanol. E tudo isto a
poucos metros de distância da estação de captação,
responsável pelo abastecimento dos quase 260 mil habitantes do
município mineiro, causando pânico imediato.
A partir deste fato, André Azevedo da Fonseca
discorre sobre o problema da água potável como uma questão
real, que requer soluções imediatas. No entanto, como
tudo que acontece no meio ambiente, constitui uma problemática
relacionada com diversas questões sociais, e, por conseguinte,
exige estratégias articuladas com outras áreas. No entanto,
de forma lúcida, o autor acredita que pode haver certa histeria
ambiental e a própria visão apocalíptica da escassez
da água pode ser contestada, segundo dados divulgados insistentemente
por um estatístico, Bjorn Lomborg. Para esse dinamarquês,
muitos dos presságios acerca de um futuro catastrófico
para o meio ambiente resultam de [...] uma interpretação
equivocada de estatísticas, além de imprecisões
conceituais, preconceitos movidos pela paixão ideológica
e, é claro, muita retórica. (FONSECA, 2004, p. 121).
Com o texto Oxigênio para a energia, Carlos
Tautz alerta para a urgência de a imprensa entender ela mesma
a idéia de um jornalismo para o desenvolvimento: jornalismo que
expressa [...] a variada produção de organizações
sociais que em sua práxis buscam elaborar um verdadeiro projeto
de país e terminam por gerar muito conhecimento não-acadêmico.
(TAUTZ, 2004, p. 151). A partir desta idéia, discute uma nova
forma de fazer jornalismo. Ao dar voz a essas organizações,
o jornalismo possibilita discutir novos paradigmas técnicos e
éticos no âmbito da agenda do desenvolvimento internacional
e, particularmente, do desenvolvimento na América Latina e no
Brasil, em torno do modo de produção de energia.
Alertando para o fato de que um projeto energético
nacional extrapola a questão meramente técnica de geração
de eletricidade, para incorporar o risco da dependência tecnológica,
o autor detalha a capacidade brasileira de diversificar a matriz energética.
Contrapondo-se à alternativa termelétrica, que em sua
opinião é injustificável em termos de realidade
ambiental, econômica, financeira, energética e de segurança,
cita outras opções, como: aproveitamento de biomassa em
terras agriculturáveis, captação de raios solares
e aproveitamento do potencial eólico.
Finalmente, Odo Primavesi apresenta Dilemas da
agricultura. Trata-se de um ensaio de extrema lucidez, que expõe
uma das contradições do Brasil. Ao mesmo tempo em que
a agricultura ocupa cerca de 70% do seu território, os agricultores,
em geral, vivenciam uma situação de extrema pobreza e
fome, sem terem como pagar pelos produtos que geraram, o que o faz assim
sumarizar: a produção de alimentos colide com o
ambiente porque sofre de avareza. (PRIMAVESI, 2004, p. 177). Numa
denúncia consistente, chama a atenção para a realidade
das políticas agrícolas, grosso modo, direcionadas para
a geração de divisas para produzir aquilo que tem bom
preço no mercado, e mais ainda, que atende às exigências
de importação, mesmo em detrimento da população
brasileira.
São paradoxos como estes que a imprensa
deve trazer para o grande público, dentro da linha de pensamento
do organizador de Formação & informação...,
Vilas Boas, para quem Jornalismo são reportagens especiais
(especiais mesmo), perfis, livros-reportagem, documentários audiovisuais,
radiofônicos etc. [...] O jornalista deveria ser também
um ensaísta, e não um simples transmissor passivo de informações
(FORMAÇÃO & informação ambiental, 2004).
De fato, acreditamos que reduzir a informação ambiental
à mera descrição, sem aprofundamento e sem postura
crítica, representa um risco. Risco para a coletividade, para
a ciência e para o processo desenvolvimentista de qualquer nação.
Assim sendo, seria interessante (e torcemos para
que isto se concretize) que os próximos volumes da coleção
Formação & Informação prime pela consistência
e atualidade dos temas, como o faz este seu primeiro volume, cuja leitura
é imprescindível para todos aqueles que acreditam num
JORNALISMO que requer MUTAÇÃO permanente, como todo e
qualquer processo social. Afinal, numa época em que tanto falamos
sobre qualidade de vida, é bom lembrar que ela consiste, essencialmente
em [...] colocar o ser humano no centro do processo de desenvolvimento,
criando políticas e instrumentos que assegurem uma distribuição
mais eqüitativa dos benefícios do crescimento econômico.
(PROGRAMA DAS NAÇÕES UNIDAS PARA O DESENVOLVIMENTO, 1999,
p. III).
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Fontes
FORMAÇÃO & informação
ambiental. Disponível em: <http://www2.uol.com.br/ ambienteglobal>.
Acesso em: 21 ago. 2004.
PROGRAMA DAS NAÇÕES UNIDAS PARA
O DESENVOLVIMENTO (PNUD). Relatório sobre o desenvolvimento humano
no Brasil: 1999. Brasília: IPEA, 1999. 186 p.
TARGINO, Maria das Graças; BARROS, A.
T. A informação ambiental no jornalismo piauiense. In:
DENCKER, A. de; KUNSCH, M. M. K. (Org.). Comunicação e
meio ambiente. São Bernardo do Campo: INTERCOM, 1996. 216p. parte
2, cap. 6, p.71-100.
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* Doutora em Ciência da Informação,
Universidade de Brasília, Brasília - DF
Pesquisadora do Conselho Nacional de Desenvolvimento
Científico e Tecnológico
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