
A ETERNIDADE DOS AMORES FUGAZES
Maria
das Graças Targino *
Pedro Juan Gutierrez, escritor cubano, ignorado em sua terra natal e
festejado em outros países, pela coragem em decantar em seus
livros, muitas vezes, de forma brutal e venal, as atrocidades vividas
pelo seu povo, costuma, de forma direta ou indireta, exaltar os amores
fugazes. Para ele, o amor fugidio, oculto, proibido, recôndito,
secreto ou interdito tem muito de magia e encantamento. São amores
sem expectativas. Sem passado. Sem futuro. Nada há para lembrar.
Nada há para lamentar. Nada há para esperar. Daí
se enquadrarem na frase quase histórica do eterno Vinicius de
Morais, ao cantar o amor: "que seja eterno enquanto dure!"
Sim, que seja eterno enquanto dure! Isto incentiva a todos nós,
pobres mortais, para que vivamos intensamente cada amor, nas mil vidas
que fazem a nossa própria vida. Vale viver! Viver intensamente!
Viver sem medos! Sem rancores! Sem amarguras! Viver a delícia
de cada momento! Mas, se as expectativas em excesso podem destruir e
corroer os sentimentos humanos, porque fortalecem grilhões, algemam
com dor, geram cobranças, estabelecem prazos, pedem respostas
e mais respostas, a falta total de esperança também é
arrasadora. Não permite a criação de laços.
Não permite um viver sem sobressaltos. E não falo de um
viver pautado na acomodação dos amores de caserna. Falo
na tranqüilidade de que é possível esperar, confiar,
amar. Amar sem temor. Amar com esperança. Amar com amor infindo!
Se mesmo assim, o amor se for, o sentimento deixado é o de uma
eternidade vivida, é de uma delícia saboreada que acabou,
mas não deixou um travo amargo de dor e pesar. É chorar
o amor perdido. É lamentar o sonho abortado. É recordar
com saudade, mas sem horror, a beleza dos momentos vividos.
Caso contrário, frente ao amor fugaz, porque nós o queremos
fugaz; frente ao amor fortuito e passageiro, porque nós o queremos
fortuito e passageiro, quando este se vai, deixa em seu rastro e como
legado uma sensação de fracasso infindo, um sentimento
de dor, uma sensação de pesar, um gosto amargo de fel.
E a busca continua. É preciso prosseguir. É preciso correr,
quase insanamente, para viver novos amores. Mas a vida se vai e se esvai
numa trajetória que não permite tréguas...
Por tudo isto, mesmo se não há certeza de um viver até
que a morte nos separe, vivo, de cara limpa e alma límpida, esta
história de amor que a vida me reservou. Não posso renegar
um presente dos deuses. Um presente que se torna presente a cada momento,
quando transformamos um amor fugaz em eterno. São os gestos infindos
de carinho. A compreensão que se impõe a cada dificuldade.
A cumplicidade dos olhares enamorados. A troca de beijos apaixonados.
As lágrimas de saudade. A emoção incontida em cada
encontro. A coragem de transpor as quase intransponíveis barreiras
da possibilidade... Enfim, é, antes de tudo, a esperança
sem fim de transmutar a fugacidade dos amores tardios e longínquos
na eternidade dos amores intensos e verdadeiros!
* Doutora em ciência da informação,
pesquisadora do CNPq, estudante de jornalismo.
(voltar ao topo)