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Mel 1990-2002
Elogio aos Gatos
Celso Japiassu
Ao contrário do que pensa a maioria
das pessoas, êles são desastrados e sujeitos a todo
tipo de acidente. A agilidade natural que possuem evita coisa pior,
na maior parte das vezes. Adorados e odiados na história
do seu relacionamento com o homem, foi o último dos animais
domésticos a ser domesticado. O cão foi o primeiro
a ser atraído para ajudar nas caçadas, o cavalo para
ser usado como meio de transporte, o boi para o trabalho e para
fornecer leite e carne. O gato, sem qualquer utilidade, permaneceu
selvagem e livre, dono de si mesmo, independente e orgulhoso.
Os ratos que comiam metade da colheita dos egípcios foi que
tornaram necessária a ajuda desse perseguidor que se diverte
com a caça e ataca tudo o que se movimentar a sua frente.
Foi difícil para o homem, ao se aproximar dos gatos, permanecer
indiferente a sua beleza e à elegância de seus movimentos.
Divindades na Birmânia e representação
do mal na Idade Média cristã, foram perseguidos como
símbolos da heresia e do feitiço, torturados e mortos
a pauladas, queimados na praça de todas as cidades européias.
Muito do preconceito até hoje existente
para com os gatos tem origem nessas crenças medievais. A
Europa inteira acabou pagando caro por sua superstição
e crueldade, pois a ausência de gatos fez com que os ratos
se proliferassem e a peste bubônica matou dois terços
da população do continente.

Na companhia dos artistas
O gato não tem sido visto apenas como
caçador de ratos. Esopo, Fedro, Cícero, entre os antigos,
escreveram sobre êle. Beaudelaire comparou seu pelo macio
ao corpo da mulher amada. Hemingway viveu em Havana na companhia
de 50 gatos e transformou um deles - Bose - num personagem forte
e inesquecível de As Ilhas da Corrente - o companheiro solidário
e silencioso de um artista a viver momentos de solidão e
angústia.
Eles gostam do silêncio das bibliotecas,
dos estúdios com suas mesas abarrotadas de papel e do ruído
dos teclados. Dormem com profundo prazer sobre a capa dos livros.
Os trabalhadores literários amam verdadeiramente a companhia
dos gatos.
O historiador francês Taine escreveu:
"conheci muitos pensadores e muitos gatos, mas a sabedoria
dos gatos é infinitamente superior."
Theophile Gautier disse que "Deus criou
o gato para dar ao homem o prazer de acariciar um tigre".
É extensa a lista dos compositores
influenciados pelos gatos. Scarlatti compôs a Fuga del Gatta,
Rossini o Duetto Buffo dei due Gatti, Ravel um dueto entre gatos
em L'enfant et les Sortiléges. Tchaikovsky, Grieg, Jules
Massenet também deixaram obras inspiradas nos gatos. Por
coincidência, uma das características dos felinos é
a sua sensibilidade à música, que os faz especialmente
tranquilos e propensos a um sono imediato.
Obras primas da pintura têm os gatos
como tema. Da Vinci tem A Virgem do Gato, Albrecht Dürer pintou
um gato a lamber os pés de Eva, Jean Antoine Watteau o imortalizou
em seu quadro O Gato Doente. Veronese, Rubens, Bosh, Brueghel, Rembrandt,
Tintoretto, todos lhe renderam homenagem fascinados com a sua beleza.
Da mesma forma que os modernos Delacroix, Renoir, Courbet, Gauguin
e Picasso. Edouard Manet, que os pintou com paixão, costumava
observá-los na rua, olhando-os durante horas seguidas debruçado
na janela de sua casa.

Uma verdadeira amizade
No cinema, desde o musical Cats a Tom e Jerry,
Felix, the Cat e a Pantera Cor de Rosa, que não passa de
uma charmosa gata, os gatos são fonte de entretenimento e
criatividade.
O pintor Silva Costa me afirmou que um gato
de nome Rachid, habitante de um telhado vizinho, já lhe deixou
inúmeros recados fazendo uso do teclado do computador. O
gato tem suas próprias formas para se comunicar com o homem.
Mia, exprime satisfação e prazer ronronando, exibe
seu mau humor mediante total indiferença a qualquer tentativa
de aproximação. Expressa amor roçando-se nas
pernas do dono, lambendo ou trazendo alguns presentes exóticos,
produtos do seu trabalho de caçador: um rato ou um pássaro
agonizantes.
Os gatos são bichos egoístas,
esnobes, insolentes, orgulhosos e desobedientes. Mas quando se convive
com eles descobre-se uma verdade antes insuspeitada: a de que é
possível existir uma bela e verdadeira amizade entre um homem
e um animal.
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