Relato de uma viagem ao inferno
A autora enviou sua colaboração
depois de ler o texto de Affonso Romano de Sant'Anna "Nós
que matamos Tim Lopes". Por razões óbvias, pediu
para ser mantido o seu anonimato.
Permita-me concordar
Affonso, permita-me concordar com seu artigo,
ilustrando suas idéias com um exemplo pessoal. Tinha 16 anos
em 1977 quando comecei a cheirar cocaína. A incursão
no universo da droga durou três anos, período durante
o qual pude experimentar, de forma trágica, muitas das situações
que você descreve.
Sou de uma geração que perdeu
a chance de ser revolucionária na política: para mim,
o 1968 de Zuenir Ventura foi um ano que nunca começou. O
jeito que encontrei de ser rebelde foi entrar de cabeça nas
drogas. Era uma oportunidade de contestar, de ser "contra tudo
e contra todos", de ser contra o sistema.
Neste três anos, subi o morro do Santo
Cristo para comprar cocaína lá em cima com um traficante.
Certa noite, mudou o dono da boca, e o seu sucessor, que estava
doidão tomando conta do movimento, não nos conhecia.
Ficamos, meus amigos e eu, presos lá em cima. Como era a
única mulher no grupo, fui eu quem saltou do carro para negociar
com o traficante a nossa "libertação". Depois
de um papo amigável, digamos assim, ele nos liberou.
O Santo Cristo era ótimo: relativamente
perto, relativamente fácil de subir, só tinha o perigo
de ser pego lá embaixo na saída. Mas de repente a
fonte secou - note que, naquele momento, dispostos a inundar de
cocaína o mercado carioca, o tráfico cobrava tão
barato por 5 gramas de cocaína que eu as comprava com a minha
mesada.
Fomos obrigados a trocar de fornecedor, e
lá fui eu parar numa favela do que hoje se chama "Complexo
da Maré". Muito pior para o consumidor, por que é
favela plana, onde você não tem muito como se esconder.
Fomos presos na saída, cocaína escondida na bainha
da calça (tem certas coisas que nunca mudam...).
Novamente, fui eu quem negociou com os dois
PMs da patrulhinha. Armei um escândalo e não me deixei
ser revistada, o que os obrigava nos levar par a a delegacia. E
fomos em dois carros: no nosso, um PM, na patrulhinha, um dos nossos.
No caminho, negociamos com o PM e conseguimos, mediante módica
quantia em dinheiro, nos livrar do flagrante.
Do jeito que conto tudo isso, pode parecer
que me orgulho do que fiz. Não, não me orgulho não.
Ao contrário, tenho tanta vergonha que você não
me verá assinar este texto. Mas escrevo por que acredito
que o meu relato confirma o que você diz: tudo isso me parecia,
no auge da minha idiotice de adolescente, totalmente revolucionário,
rebelde, contestador.
Hoje, sou radicalmente contra o uso de drogas,
embora não consiga impedir minha filha de fumar maconha no
posto 9, na saída da faculdade, em casa com os amigos. Sou
considerada conservadora, e a sociedade que assim me rotula concede
a ela o direito de me chamar de mãe-careta.
Minha história me justifica, se não
me redime. Em 1982, portanto há 20 anos, quando o Rio entrou
na rota de Medelín e nenhum de nós se deu conta, meu
namorado foi assassinado por um traficante de drogas. Envolvido
ele também em tráfico pesado,ele "cheirou"
o lucro e não pagou a conta. Foi seqüestrado, morto
sob tortura e enterrado ainda vivo. Seus algozes eram glamurosos
rapazes de classe média que tinham se metido no tráfico
de drogas por duas razões básicas: uma, a óbvia,
sustentar o seu próprio consumo, a outra, o charme de transgredir.
De transgressão em transgressão,
chegamos nisso. Tim Lopes está morto, mas ele é só
mais uma vítima, a que está morta. Por que o tráfico
de drogas está acabando com a vida de todos nós, mesmo
os que estão vivos, no asfalto, supostamente ilesos.
O efeito do tráfico é
perverso por que semelhante ao da própria droga - morremos
lentamente, todos os dias. Cedemos sempre mais um pouco aos traficantes,
somos coniventes, nos calamos, mas sempre prometemos que, um dia,
vamos mudar de vida.
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