
Comida sob medida para neuróticos
Carla
Rodrigues *
Pelo que consigo me lembrar, tudo começou
com as verduras da salada. Era melhor se fossem compradas sem
agrotóxico. A tarefa, ainda no início dos anos 90,
era compelxa. Exigia fontes confiáveis que informavam,
à boca pequena, qual era o endereço para comprar
as tais folhas imaculadas. É claro que conseguir a iguaria
demandava caminhar quilômetros atrás de um fornecedor
especial, e fosse pela praticidade, fosse por que ninguém
no fim das contas acreditava muito mesmo que aquelas alfaces estivessem
sem agrotóxico, a moda não colou.
Passaram-se alguns anos, e as tais verduras
sem agrotóxicos invadiram a prateleira dos supermercados.
Em qualquer quitanda da esquina é possível encontrá-las
(é verdade que as quitandas já não existem
mais...). A explicação técnica é relativamente
simples: tendo esgotado seu público-consumidor para verduras
comuns, os produtores resolveram "agregar valor" aos
seus hortifruti e oferecer um diferencial no produto. As tais
folhas orgânicas freqüentam a geladeira da minha casa
há mais de dois anos. O que eu não sabia, quando
as adotei, é que aquele seria apenas o primeiro passo no
maravilhoso mundo da comida sem.
Hoje, tudo que a minha família e
eu consumimos tem o tal do valor agregado que faz com que o alimento
perca alguma das suas características originais. O melhor
exemplo é o do café sem cafeína, meu preferido
para depois do jantar ou apenas para manter as doses diárias
de cafeína sob controle. Mas também tem a maionese
sem ovo (o creme Becel que faz as vezes de maionese com louvor),
a margarina sem colesterol, o queijo sem leite (o tofú,
queijo de soja), o leite sem vaca (o SupraSoy oferece um leite
de soja de ótimo sabor), o adoçante sem aspartamente
e sem ciclamato (o stevita, um pó de estévia que
não altera o sabor do líquido), o pão integral
sem casca (e, melhor, light!).
O campeão desta onda é o frango
sem antibiótico. Primeiro, por que me parece simbólico:
a tecnologia avançou a ponto de produzir frango em quantidade
suficiente para que o preço caísse. O recurso foi
acelerar o crescimento do frango e encurtar o tempo de abate.
Deu certo, mas o gosto da carne ficou ruim. Seca, sem sabor. O
frango sem antibiótico custa mais caro, lógico,
mas recupera a textura e o gosto original do frango. Ficou imbatível.
O mesmo fenômeno se dá com
o leite. Quando a tecnologia de conservação os retirou
do saco e os levou para a caixinha, destruiu completamente o paladar
do leite. Os tais longa-vida ficaram intragáveis. Para
"agregar valor", a Parmalat lançou no mercado
um leite "premium", que vem numa garrafa plástica,
é classificado como "natural" e custa o dobro
do leite comum. Mas, por que expurga o sabor artificial do leite
de caixa, é também infinitamente melhor.
Com toda esta oferta, o resultado
é uma mudança de hábito alimentar brutal
que, tenha ou não sido imposta pela indústria, tem
ganhos de paladar, de qualidade, de saúde. Mas a cada vez
peço café sem cafeína num restaurante, ou
que sirvo frango sem antibiótico a convidados, ou que pago
o dobro por um leite que só existe para corrigir um problema
que a própria indústria criou, me sinto como uma
exótica personagem de Woody Allen, daquelas mulheres cheias
de manias, problemas, restrições, totalmente capturadas
pelo mercado por suas preocupações com a vida moderna,
com os riscos de câncer, com o problema de hormônios
na menopausa. Ou seja, para preferir e pagar pela comida sem,
você precisa estar "com" todas as neuroses deste
estranho século 21.
*Jornalista
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