Virgínia Woolf, as saladas do
Celeiro e os mistérios da alma feminina
Carla
Rodrigues
Até julho, a família
Herz, dona do restaurante Celeiro, lança mais um
livro de receitas. Com ênfase especial nas saladas,
Dona Rosa é uma cozinheira de mão cheia, que
nos últimos tempos aderiu aos orgânicos, à
soja e seus derivados, e ao almoço vegetariano (sempre
às quartas). Tenho o privilégio de trabalhar
no Leblon, e o hábito de almoçar no Celeiro
que, como diz um amigo meu, é o restaurante a quilo
mais caro da cidade. É, o Celeiro é um quilo
sofisticado, que não passa nem perto dos abomináveis
"kilos" que se espalharam feito praga (e ainda
reduziram os postos de trabalho dos garçons...).
Todos os dias o almoço é
um momento divertido, do qual coleciono histórias
(as mesas são muito próximas, e se você
está sozinha, é impossível não
ouvir o que se passa ao lado...), personagens e observações
sobre o clima blasé que inunda o lugar. Noutro dia,
uma mulher que almoçava ao meu lado me disse, sem
a menor cerimônia:
- Ih! Saí de casa de manhã
com a blusa ao contrário e só agora percebi.
Tentei tranqüilizá-la
e garanti que não dava para notar. Não sei
se o resultado da minha observação foi positivo,
mas pelo menos ela pôde engrenar numa conversa animada
com a sua amiga sobre uma festa regada a fondue de ravióli,
iguaria sobre a qual nunca tinha ouvido falar. Um dos temas
mais freqüentes, aliás, entre as habitués
do lugar é, claro, comida. Dieta, peso, ginástica
- existe o grupo que invariavelmente chega de roupa de ginástica,
recém-saída da academia, que passa o almoço
inteiro a lindas folhas de alface e água mineral
- está entre as maiores preocupações
de todas elas.

É certo que as saladas no Celeiro
inspiram, também, situações mais introspectivas.
Afinal, nem só de dietas e blusas do avesso é
feita a alma feminina. Com o sucesso de "As horas"
no cinema, Virgínia Woolf está em voga. Não
que as saradas do Celeiro invejem o falso nariz da Nicole
Kidman, mas semana passada uma bela mulher, elegantissima
na sua blusa branca, saia cinza e sandália preta,
encarnou Mrs. Dalloway ali, numa calçada do Leblon.
Bem-vestida a ponto de ser impossível
adivinhar se ela vinha do trabalho - as poucas mulheres
que estão pegando no pesado estão, invariavelmente,
metidas em ternos cada vez mais feios - ou se apenas encarnava
uma personagem intelectual que não teria a mesma
credibilidade se ela estivesse metida num macacão
de malha e um tênis Nike, a dublê de Clarissa
chegou sozinha, serviu-se no balcão e, concentrada,
postou-se a ler Virgínia Woolf como se estivesse
em casa. Se a escritora inglesa inspira profundidade, conflitos
interiores e questionamentos sobre a angústia da
existência, a versão carioca de Mrs. Dalloway
dava a impressão de que os enigmas da alma feminina
podem perfeitamente ser compreendidos ali, entre uma garfada
de salada e um gole de suco de abacaxi com hortelã.
O fenômeno mais interessante
na casa que este ano completou 20 anos de existência
é a chegada, ainda que tímida, dos homens.
Com a construção de um prédio comercial
bem em frente ao restaurante, eles invadiram um reduto que,
até então, era exclusivo das mulheres - 90%
das habitués fazem o tipo não-trabalho-fora-porque-não-preciso.
Talvez por isso, de vez em quando,
eles olham para as mulheres com um jeito de quem está
com inveja daquela vida boa. Resignados, almoçam
correndo, esperam na fila impacientes, enquanto as mulheres
engarrafam o trânsito interno com longas conversas
existenciais ("Não sei o que está acontecendo
com meu marido" é uma frase que pode ser ouvida
todos os dias...), numa perspectiva de tempo de quem nunca
ouviu falar em patrão. Entre uma folha de alface,
uma porção de tofú assado ou uma sobremesa
diet, o que se descortina todos os dias no almoço
no Celeiro é de que substância é feita
a versão light da alma feminina.
(voltar ao topo)