
Dois textos de Mario Castelar
LUZ
Li, outro dia, na seção de ciência
de um jornal do Rio (creio que O Globo) uma pequena nota sobre a
foto que o telescópio Huble tirou de uma aurora no planeta
Júpiter.
Uma linha de explicação para
os leigos, dizia, mais ou menos, que o fenômeno se devia às
partículas elétricas que excitavam os átomos
presentes nas camadas mais altas da atmosfera do planeta e que esses
átomos se transformavam em luz.
Ainda não consigo evitar um certo espanto
diante deste tipo de informação. Ali estava eu, sem
nenhum preparo, entrando em contato com uma área muito especializada
do conhecimento humano ( tenho amigos que seriam capazes de falar
horas sobre a banalização e a magia das coisas ).
Então, toda aquela beleza, era apenas
efeito da excitação que um grupo de partículas
elétricas causava nuns átomos ?
Depois, fiquei pensando se nós, como
aglomerados de átomos que somos, não teríamos
- desde que devidamente excitados - a oportunidade de virar luz.
Concluí que sim.
Esse deve ser, mesmo, o nosso destino. A razão
da nossa existência. Ir aprendendo, acumulando experiências,
aperfeiçoando métodos, criando em nós próprios
um estado propício para vir a sermos aurora num mundo qualquer.
Estava assim, meio tomado pela magnitude desse
pensamento, quando compreendi, também que, se era perfeitamente
possível ser essa a razão de ser da nossa existência,
por outro lado, havia, no processo, uma exigência básica,
que eu não estava certo de pode alcançar:
para serem excitados pelas partículas
elétricas e serem transformados em luz, os átomos
precisam estar presentes nas camadas altas da atmosfera.
Xamã
A floresta estava pegando fogo, no estado
de Roraima. O incêndio alcançou tamanha proporção,
que já se havia iniciado uma discussão internacional
( que aliás perdura ). Organizações não
governamentais, ligadas à questão do meio ambiente
e a mídia em geral, levantavam suspeitas quanto à
atitude do Governo e particularmente do Ministro da área.
As Nações Unidas ofereceram
ajuda, a Argentina enviou bombeiros especializados no controle de
fogo em florestas e o País estava acompanhando o desenrolar
dos fatos no horário nobre.
As autoridades locais começaram a dizer
que só uma grande chuva poderia debelar o incêndio.
As previsões eram ruins.
Não havia, segundo a meteorologia,
perspectivas de chuva, senão para maio.
Tudo ilustrado com fotos tiradas por satélites
e sempre no horário nobre.
Foi aí que a Funai mandou trazer para
a região do fogo, dois caciques Caiapó, para fazer
o ritual da chuva.
Houve contestação ( os Yanomani,
que vivem na área, também sabem fazer o ritual da
chuva, o dinheiro necessário para o deslocamento dos dois
índios poderia ser melhor empregado, etc.).
Choveu.
É, choveu.
Depois que os Caiapó fizeram o ritual
da chuva. Não estava chovendo antes, não havia previsão
de chuva e choveu.
Só choveu depois que os índios
realizaram sua pajelança.
E agora José ?
Há uma certa consternação
geral. Afinal, dizem vozes de todos os cantos, toda a população,
conduzida por seus diferentes líderes religiosos também
rezou por chuva.
Alguns moradores já estavam vendo sinais
de chuva na natureza ( caíram as flores do jambeiro e quando
elas caem, sempre chove, antes que elas sequem no chão ).
E por aí vai.
Só não se pode desmentir alguns
fatos :
1 - não chovia há quase um ano
( alguns moradores tinham esquecido onde estava seu guarda-chuva
)
2 - não havia previsão para
agora ( conforme as fotos do satélite e por culpa do fenômeno
El Niño )
3 - só choveu depois do ritual Caiapó.
Reconheço que é difícil,
nesta época de reinado da tecnologia, onde crianças
brincam na rede mundial de computadores, discutindo pixels, bytes,
fibra ótica e quejandos.
Mesmo prá mim, descendente de índios,
nascido em Rio Bonito e criado na Umbanda.
Só que prá mim é difícil,
mas é lindo. Estou morrendo de rir. Eu e os Caiapó.
Choveu em Roraima.
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