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Conversa de Botequim (via celular)
Caio
Mourao*
Atendo ao telefone e tento escutar, por trás
de um ressoar de vozes, gargalhadas e tinir de copos e daquela zoeira
que costumam ter os bares em horas animadas, a seguinte pergunta:
- Como era o nome do toureiro que comia o Hemingway?
Pasmei. O Ernest, maior espada, virar "Hemin gay", agora?
Isto jogava no chão um dos maiores ídolos da minha
infância e vida. "Por Quem os Sinos Dobram", "O
velho e o Mar", "Neves do Klimandjaro", "Adeus
às Armas", tudo reduzido a lantejoulas e plumas? Essa
não!
Vi logo a confusão e tentei explicar por cima do barulho
e risadas: Quem comia - ou ao contrário - um toureiro era
Garcia Lorca, o poeta fuzilado por Franco, e o toureiro chamava-se
Ignácio, El Gitano (O cigano). Para ele, Lorca fez aquela
linda poesia "A las Cinco de la Tarde".
Do outro lado:
- Então foi o Picasso?
Enquanto tentava entender o que Picasso fazia nesta tourada, ouvi
uma voz esganiçada ao fundo dizendo:
- Prefiro Van Gogh.
Então primeiro me perdi, mas depois vi a conexão:
o pintor que teve um caso com Lorca foi Salvador Dali, de quem dizem
que continuou apaixonado pelo poeta, apesar de ter sido casado por
toda a vida com Gala, a quem nunca traiu. Ela sim, com todos os
amigos, antes e depois do casamento. Coisa que não importava
ao pintor, porque era vidrado em ouro, ou dolares, tanto que certa
vez um crítico fez um acróstico do seu nome e conseguiu
"Salvador Dali = Ávida Dollares". Podem conferir,
dá certinho! O pintor, que todos julgavam que ia se ofender
agradeceu e disse que era isto mesmo.
Voltemos ao boteco. Respondi que tinha sido Dali, o Surrealista.
Mais vozes não entendidas, então outra pergunta:
- O Hemingway então era amante do Scott Fitzgerald?
Mais esta agora. Estão pensando que sou Enciclopédia
de quem comeu quem, na época que "Paris era uma festa"?
- Não. Respondi, e expliquei: - Detestavam-se, Scott morava
com Zelda (a doida), sua mulher, no George V, ou no Ritz, era rico
e esnobe, enquanto o Hemingway, de calcinha de veludo surrada, se
escondia numa água furtada em Saint Germain, e pelos pobres
bistrots (botecos) bebia e comia, sempre batendo furiosamente na
sua máquina de escrever portátil, (era jornalista
correspondente) nem tanto assim na época. Um escrevia sobre
a high society, o outro sobre gente mesmo. E os dois eram muito
bons.
Dissem que Ernest teve um caso com Zelda, aprovado pelo marido,
mas isto é outra estória, e não comprovada.
Fofocas parisienses da época.
Mais um pouco de barulho, chiados, celulares e a última pergunta:
- E o Inácio, o Gitano era bonito?
E eu sei? Sei que era cigano e devia ter um charme violento, e além
disto, toureiro. Devia ser um Zulu da época, todo sarado,
e com toda a mídia em cima .
- Uma graça! Respondi, só de sacanagem.
Caiu a linha, ainda bem, pois já estava com receio das próximas
perguntas. Até quando iria saber ou inventar mais explicações
e estórias?
Se estivesse in loco no botequim, com uns cinco ou seis choppinhos
correndo pelas minhas veias, poderia continuar ou sair para outros
caminhos, mas por celular...?
Pois é, botequim faz uma falta....
*Designer, escultor e saudoso de botecos
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