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A IRREALIDADE DA ARTE CONTEMPORÂNEA
Antônio Luiz M. Andrade (Almandrade)*
"A crise não afeta apenas a
arte contemporânea, a produção de novas obras
de arte: se a arte não continuar, tudo aquilo que resta da
arte do passado e que constitui ainda hoje uma parte notável
do ambiente material da vida, perderá todo o valor e acabará
por ser abandonado e destruído."
(Giulio Carlo Argan)
Todo trabalho cultural requer um mínimo
de compromisso com uma determinada forma ou sistema de saber. O
objeto artístico é resultado de uma pesquisa especializada
para interrogar a própria natureza da arte. É inútil
o trabalho do olhar debruçado na incerteza de uma definição
de arte, perdido na impossibilidade de uma verdade definitiva. Estranha,
a obra de arte é aquilo que é reconhecido como manifestação
de um saber. Uma aventura imprevisível, um jogo sem fim,
com regras sendo inventadas a todo momento, sem ganhador nem perdedor.
A arte está sempre nos propondo mais problemas que soluções.
Uma relação de tensão e desconfiança
passou a reger a arte contemporânea, pela sua condição
de ser provocativa e recusar a contemplação passiva.
Com a modernidade e suas vanguardas, principalmente
Marcel Duchamp, a arte passou a ser qualquer coisa deslocada para
o circuito da arte. Um objeto/lugar de um pensamento ou de uma idéia,
independente do verniz textual e da autorização de
um curador. O artista era um pensador, tinha uma atitude crítica.
A produção do belo era a transformação
de uma matéria prima em produto simbólico, segundo
a razão e a sensibilidade de um artista que dominava um saber,
porque a arte não era um acidente diante da razão.
Nos anos 70 no império da arte conceitual, fazer qualquer
coisa arte era dominar uma teoria, se posicionar de forma consciente
no universo da arte, da sociedade e da cultura de uma maneira geral.
O processo de inventar o objeto estético
se deteriorou com a facilidade e a rotina de um fazer mecânico
que se repete sem o hábito da reflexão. Duchamp, quando
inventou o readymade tinha consciência da armadilha da facilidade:
"Logo percebi o perigo de repetir indiscriminadamente esta
forma de expressão e decidi limitar a produção
de 'readymades' a uns poucos por ano." O tempo da arte parece
condenado com o descrédito dos paradigmas que norteiam a
arte contemporânea. O artista precisa conhecer o seu ofício,
é indispensável ter referências, na arte acadêmica
o artista dominava um conhecimento que era o artesanato, a técnica,
o saber das mãos. As chamadas novas linguagens e os novos
suportes utilizados sem a precisão do raciocínio,
são inovações duvidosas, muitas vezes, aquém
dos suportes tradicionais. Num cômodo deslize, um estilo fácil
dominou a contemporaneidade, como se a arte fosse um clichê,
uma moda, ou um evento para o entretenimento de um público.
A obra de arte passou a ser secundária.
E quem decide é o curador, o marchand, o cronista social
ou o produtor cultural. A hegemonia do mercado foi acompanhada do
aparecimento do curador em lugar do crítico, do produtor
cultural e depois as leis de incentivo a cultura. O objeto deslocado
do contexto de origem, por determinação de um artista,
é sustentado pela "teoria" imaginária de
um curador. Dessa forma a arte enquanto produto de um conhecimento
específico deixa de existir. Por outro lado, esse suporte
teórico é incapaz de fazer uma leitura crítica
desse sucateado trabalho de arte e situá-lo no seu devido
lugar cultural.
Um fluxo de produtos artísticos descontrolado,
deixa de ser uma surpresa. A imagem da arte não é
um fragmento do mundo sensível destinado a ornamentar uma
experiência mundana; mas um esquema de ordenamento do espaço
plástico, a partir de um modelo abstrato de pensamento. Essa
qualquer coisa chamada arte, que se utiliza de fáceis e limitados
procedimentos, faz da arte contemporânea um estilo simulador
de complexidades, cada vez mais incentivada pelos salões,
pelo mercado e pela crítica inventada pela indústria
cultural.
A arte contemporânea, recalcada nos
anos 70, ficou na moda, faz parte do cotidiano dos atuais salões
de arte. O belo é, para os novos especialistas da arte, a
negação do pensamento, uma brincadeira da sociedade
do espetáculo. A arte foi confinada a um campo restrito de
experimentação, que tem como referência a tradição
da facilidade. Os salões estão de cara nova, mas continuam
com o mesmo modelo de seleção e premiação,
o mesmo processo burocrático de outros tempos, que reforça
a idéia de cultura como uma superstição, e
não algo real.
No momento em que a diluição
e a facilidade são as regras do fazer artístico, a
reflexão cessa, a arte deixa de ser saber e passa a ser acessório
de um lazer cultural. A ausência de estilo converteu-se num
estilo inculto e inseriu o contemporâneo na periferia da cultura,
protegida pela publicidade do olhar do espetáculo.
* Artista plástico, arquiteto, mestre
em desenho urbano e poeta.
O DESCASO PELA ARTE
Antônio Luiz
M. Andrade (Almandrade)*
"Na época atual, a fatalidade
de toda e qualquer arte é ser contaminada pela inverdade
da totalidade dominadora." (Adorno)
A arte como um trabalho intelectual que amplia
a experiência que o homem tem do real e do imaginário,
se opõe ao trabalho alienante da sociedade moderna. Por outro
lado, no meio de arte convivem compromissos e interesses alheios
à própria arte; suas condições de produção
se encontram dentro de um campo social e político, sujeito
a um conjunto de pressões. O Estado, os patrocinadores e
o mercado, visando interesses imediatos, privilegiam, muitas vezes,
artistas cujas obras pouco acrescentam ao mundo da inteligência.
No espetáculo montado pela política,
tudo se confunde, tudo passa pela ideologia do poder e pela estética
do espetáculo, como: a educação, a economia,
a ecologia e os discursos políticos. Nesse palco, a cultura
foi relegada a uma coisa mundana, uma espécie de conhecimento
ornamental que serve à mídia e ao jogo social; a arte
perdeu sua singularidade e suas qualidades que a colocavam acima
das banalidades do cotidiano, deixando de ser o olhar que interroga,
que transforma cores, texturas, formas, experiências sensoriais
em meio de conhecimento. Nesta relação cultura e poder,
insere-se a "crise da arte", onde o poder tem prevalecido
diante da pesquisa estética.
Enquanto trabalhos que têm alguma importância
pela pesquisa neles investidos, passam despercebidos trabalhos diluidores
da informação, reproduções de clichês
divulgados pela mídia são celebrados pelos consumidores
de decorações e divertimentos culturais. Uma sociedade
sem demandas culturais acaba fazendo da arte uma atividade menor.
O cotidiano da política e da economia faz o discurso que
se infiltra em todos os espaços, expulsando a cultura para
a periferia dos interesses da cidadania. Os artistas, que mesmo
sem construírem uma obra, tem os seus reconhecimentos garantidos
pela indústria da publicidade, se sobrepõem àqueles
que tem uma vida dedicada à pesquisa e ao trabalho de edificar
uma linguagem, contribuindo para a demolição da ética
e do pensamento crítico.
Sem uma consciência crítica e
sem uma convicção ética, artistas, críticos,
intelectuais, administradores culturais inventados pela mídia
e pelo poder político tomam posição e decidem
contra a autonomia e a independência do trabalho de arte.
Promovem e divulgam os bens culturais em proveito próprio,
para se sustentarem de forma privilegiada numa relação
de poder. - Nada mais paradoxal, por exemplo, do que essas leis
de incentivo a cultura. Por que incentivar a cultura se ela é
um componente essencial para o enriquecimento da sociedade? Antes
de ser uma questão de lei, a cultura é uma questão
de sensibilidade e de cidadania.
Há um desinteresse geral pela cultura
que ocupa um lugar cada vez menos importante nos discursos do cotidiano.
Para ser artista, antes de mais nada, é preciso um tráfego
de influências pessoais, acesso à mídia e aos
patrocinadores, que fazem da arte um produto incapaz de atribuir
um sentido à existência da sociedade. E quem realmente
patrocina a arte? - "Os contribuintes pagam aquilo que as empresas
recuperam através de isenções fiscais pelas
suas doações, e somos nós que verdadeiramente
subvencionamos a propaganda." (Hans Haacke). Numa sociedade
comandada pela economia, tudo se resume à lei da oferta e
da procura.
A arte, burocraticamente falando, é
mais uma imagem carente de sentido que divulga um certo prestígio
social e econômico, e menos um meio de conhecimento indispensável
para o homem contemplar o mundo. Se a obra de arte é expressão
de uma sociedade, testemunho de um tempo, de um estágio de
conhecimento, renunciar à sua inteligibilidade é renunciar
à história.
A política, por sua vez, apropriou-se
da cultura e fez dela um verniz para animar ou dar um polimento
ao discurso político. A arte perdeu sua inocência,
ela agora é objeto do mercado, do Estado e de outras instituições
que desconhecem seus mecanismos de produção e sua
história. Se os partidos políticos que falam de cultura
em seus programas de campanha querem fazer alguma coisa pela cultura,
não deveriam fazer coisa alguma, e sim, devolverem aos intelectuais,
aos artistas, a quem trabalha diretamente com a cultura, o poder
de decisão e o comando do processo cultural. É preciso
devolver à arte seu território perdido.
Quem atualmente exerce o poder sobre o destino
dos bens culturais, trabalha, direta ou indiretamente para o mercado,
ou é burocrata de carreira que pouco entende das linguagens
artísticas e suas leituras. Acabam desprezando os seus valores
à serviço do senso comum. Muitas instituições
que lidam com a arte, sem recursos econômicos e sem um corpo
técnico ligado à área, perderam a importância
e a autonomia, quando não são agências de eventos
irregulares sem um projeto definido. A mídia dominou a cultura
e o artista deixou de lado a indagação da linguagem
da arte, abandonou a solidão do atelier, para se tornar um
personagem público do teatro social. E a proliferação
de um produto designado como arte e do discurso estético,
sem a arte, pode significar o desaparecimento da própria
arte.
* Artista plástico, arquiteto, mestre
em desenho urbano e poeta.
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