IRRESISTÍVEIS REALIDADES
Léa Maria Aarão Reis
Perversamente fascinante, e atraentemente
perigosa e insegura, as nossas realidades hoje. Nelas, parece haver
pouco espaço para a fantasia e para a imaginação,
artigos que daqui a muito pouco podem vir a cair em desuso, como
um luxo que, fora de época e de lugar, não chega mais
a mostrar a força escapista de antes e agora sabe mais a
mofo que às suaves alfazemas de um passado cada vez mais
anacrônico.
No rastro do vórtex das notícias cuspidas atropeladamente,
de manhã e à noite, pelas mesmas vozes e pelos mesmos
rostos dos talking heads clonados (iguais na entonação,
atitude e trejeitos), nas rádios e nas telas de TV, fica
a depressão permanente e resta a ansiedade tratada a generosas
doses de lexotan.
O que consumimos _ no caso, filmes _ é nossa própria
realidade reciclada, a História revista e remexida, na tentativa
esforçada de procurar entender o que começou a ocorrer,
depois da ruptura de 11 de setembro e do que está ainda vindo
depois. Quais os monstros que escaparam da caixa de Pandora dos
fundamentalistas, como diz o escritor paquistanês Tarik Ali
_ dos que vêm do Islã, do lado de lá, e os do
império americano, daqui, bem sobre a nossa cabeça,
acima da grande fazenda sul-americana.
Os filmes mais vistos nos recentes festivais de cinema do Rio e
de São Paulo mostram isto: como as realidades de agora são
irresistíveis. Platéias superlotadas, estudantes sentados
no chão, algumas sessões seguidas de mesas redondas
e de debates sobre os temas apresentados. Doses cavalares de realidade.
Ou seja: Um Casamento à Indiana e O Caminho para Kandahar,
Promessas de um Novo Mundo, Édem, Terra de Ninguém,
Que Vivam As Mulheres, Timor Lorosae _ o Massacre que o Mundo não
Viu, ABC África, Crianças (Kosovo 2 000), o brasileiro
A Vida em Cana _ e , lembrando de outro filme brasileiro, Os Nordestinos,
em cartaz há uma boa dúzia de semanas no Rio.
Estes são os novíssimos filmes blockbusters, quem
diria, os que arrasam quarteirão.
São documentários, semidocumentários e filmes
documentais, e procuram mostrar as dolorosas, absurdas, ás
vezes indecifráveis realidades da Índia, do Afeganistão,
de Israel, da Palestina, da Bósnia, do Timor Leste.
Correndo paralelamente, a recriação das realidades:
o amoroso italiano Ettore Scola chega com Concorrência Desleal;
o americano sem piedade Daren Aronofosky apresenta-se com o terrível
(e temível) Réquiem Para Um Sonho, _ este, um must,
mas para estômagos blindados e para viciados de toda espécie
_ e Stephan Frears revisita mais uma vez a sua amada Irlanda, em
Liam.
Sintomaticamente, as mostras retrospectivas dos dois festivais agendaram
os magníficos filmes políticos, o cinema ideológico
de Francesco Rossi (novo em folha; O Caso Mattei, por exemplo, aula
clara de introdução ao curso para os que procuram
entender como e porquê o planeta desembocou na atual enrascada),
e do cineasta feliniano, o iugoslavo Emir Kusturica, cujo documentário
Memórias em Super-8, trajetória da fascinante banda
de rock cigano a que ele pertence, ainda não veio para o
Rio _ ficou por enquanto apenas em São Paulo.
Como curiosidades, duas vinhetas: em Édem, do israelense
Amos Gitai, vemos Arthur Miller como ator, fazendo o pai. O filme
foi inspirado na sua novela The Homeless Girl.
E no emocionante O Caminho para Kandahar, do festejado iraniano
Monhsen Makhmalbaf, quem foi hippie ou para-hippie nos fim dos anos
60/início dos 70 e por algum motivo se encontrava na Europa,
com certeza vai lembrar que uma das mecas das viagens feitas na
época, que partiam de Istambul, era, além de Katmandu,
Mahzar-el-Sharif (de onde vinha o melhor haxixe produzido no Oriente)
e Kandahar, a segunda maior cidade do Afeganistão. Nomes
familiares que atiçam recordações. Tênues
lembranças de um mundo que desapareceu diante dos nossos
olhos abismados.
Mas aí chega o cineasta Luiz Fernando Carvalho, maduro, grande
poeta da imagem, com um primeiro filme, e inscreve seu trabalho
na pedra dos maiores brasileiros de todos os tempos. Lavoura Arcaica,
inspirado em outro poeta escritor, Raduan Nassar, este agora sendo,
através do cinema, redescoberto _ ótimo que seja assim.
Luiz Fernando, com um cinema zen e tão teimosamente brasileiro,
força a passagem para a fantasia, a imaginação,
a beleza lírica sem pudor. E elas desfilam, no seu magnífico
filme, por entre os destroços das nossas miseráveis
e irresistíveis realidades. É bom prestar atenção
no que diz Carvalho, apresentando o seu Lavoura Arcaica: "No
mundo de hoje, decreta-se diariamente a morte da imaginação,
como se imaginar fosse o mesmo que agredir a realidade. Imaginar
causa medo, pois é em si mesmo um ato de liberdade, de transgressão,
de cidadania, ato perigoso".
Numa direção ou noutra, sejam a da realidade ou da
ficção, não deixem de ver pelo menos alguns
destes títulos sobre os quais costuramos estas modestas anotações.
Em qualquer cidade do mundo, em algum cinema, estes filmes estarão
sendo exibidos. Mas é prudente, se o caso for viajar, e vê-los
logo. Ninguém garante o dia de amanhã.
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