OSCAR SAFRA 2011
Léa Maria Aarão Reis*
Poucas vezes o ritual de premiação do Oscar, em Los Angeles, foi tão monótono. Poucas vezes os filmes concorrentes e os vencedores foram tão sem sal. Sabe-se que o Oscar sempre foi e continua sendo - hoje mais do que em qualquer outra época – um evento comercial, da indústria cinematográfica, com o objetivo de alavancar a renda dos filmes, a cada ano, e, de carona, aproveita para assegurar a mística e a magia do cinema. Tarefa cada vez mais árdua.
Hoje, qualquer espectador habilidoso baixa no computador quase todos os filmes que deseja assistir sem pagar a entrada no cinema. A televisão exibe outras tantas produções – filmes clássicos, os novos e reprises -, e os vídeo clubes, espécie em via de extinção, oferecem DVDs de alta definição para rodar nas telas dos home theaters do público mais comodista.
Mais do que nunca Hollywood trata suas produções como produtos, como batatas, como coca – cola; e procura garantir a continuidade dos lucros bilionários aumentando a carteira de indicados para o premio do Oscar de cinco para dez filmes. Como de hábito, e mais ainda que no passado, não arrisca premiar zebras, experimentações, novidades, inovações e muito menos o cinema de autor.
Assim, é óbvio que, este ano, ganharia O Discurso do Rei (The king’s speech), de Tom Hooper . Filme careta e meloso, um fio de história, que, na verdade, com o bom empurrão que teve, da mega campanha de publicidade, mobiliza e, de repente, se transforma em uma história que interessa às multidões. Filme perfeitamente dispensável, mas tendo como protagonista Colin Firth, o queridinho do momento no universo do cinema de língua inglesa, acompanhado pelo brilhante ator australiano Geoffrey Rush. Este faz, diga-se honestamente, o único personagem interessante, rico, complexo, mas inconcluso, da trama previsível e ingênua desse filme com mais uma – que cansaço! - história de superação. Um filme de autoajuda à moda americana que, como disse um crítico de cinema, poderia ter sido feito vinte anos atrás sem se tornar um clássico.
O Cisne Negro (Black Swan), de Darren Aronofsky, pretendeu dar credibilidade artística ao Oscar deste ano. O filme é maneirista, a narrativa pretende ser moderninha, e, à primeira visão, conquista e seduz de modo fácil. É desagradável e incômodo e, justamente por isso, por estimular a reflexão, poderia ser um bom filme. Fascina porque reforça dramáticos jogos de projeções psíquicas, paranoias, fantasias negativas se tornando realidade e fala sobre a sombra que convive (se integrando ou não à personalidade) com o lado luminoso de cada um de nós. Natalie Portman, celebrada em versos e prosa pela Academia de Ciências e Artes de Hollywood, figura adorada pelos seus sócios, não me convence como a bailarina virtuose reprimida e surtada, na vida e na profissão.
A Rede Social (The Social Network), do diretor David Fincher, é outro filme - apenas uma produção bem feita - que fascina o público americano. Trata da trajetória de um herói (ou anti herói) : a figura venerada naquele país, do self made man da mitologia nacional agora travestido de gênio da tecnologia da informática. A história do sociopata Mark Zuckenberg, o jovem 2.0, bilionário pelas próprias mãos aos 23 anos, ganhou três Oscars. Melhor trilha musical, roteiro adaptado (é uma boa adaptação) e edição (nada de especial). De quebra levou o premio do Globo de Ouro. Nada que emocione.
Sempre na contramão do cinemão americano, os irmãos Cohen trazem Bravura Indômita (True Grit), faroeste extemporâneo, releitura cheia de frescor de uma boa história: a garota vingadora de 14 anos, vivida pela pequena atriz da mesma idade (Hailee Steinfeld) extraordinária até mesmo quando é over acting em alguns momentos. Mas os Cohen já foram favorecidos com o Oscar, no passado, e os lucros com esse western (por sinal já realizados) não são comparáveis aos que o produto apresentado pelo sedutor Colin Firth e pela nova velha historinha do seu discurso embevecido pela realeza britânica podem oferecer.
Representando o cinema independente dos EUA não esquecer Inverno da Alma (Winter’s bone), da diretora Debra Granik. Interessante, filme duro, com narrativa mais ao jeito europeu, pontuada por lapsos, silêncios, tempos esfarrapados e criando espaços de imprevisível delicadeza. A jovem Jennifer Lawrence concorreu a melhor protagonista – estreia como uma senhora atriz.
E lembrar A Origem (Inception) de Christopher Nolan, um argumento espetacular - como as pessoas entram nos sonhos dos outros? Dentro de um sonho pode nascer um segundo, terceiro sonho, num infernal labirinto? E, principalmente, a questão mais séria, aliás, já resolvida pela filosofia oriental: vivemos, nós todos, dentro de um sonho, de uma ilusão e transitamos por isso que chamamos de realidade? O que é, então, a realidade? A Origem poderia ter sido até um clássico nas mãos de Scorsese ou de Polanski. A direção de arte e os efeitos especiais são extraordinários. Impressionantes, por isso mesmo o filme ganhou esse Oscar. Mas a mão pesada americana se abate sobre a ação desenfreada e o roteiro, cheio de concessões, deixa Leonardo DiCaprio perdido embora esteja ótimo, no papel do sonhador.
Outra coisa boa no Oscar deste ano é Melissa Leo, Oscar merecido de melhor atriz coadjuvante em O Vencedor (The Fighter), de David O. Russell, outro filme interessante, outra história real de superação e de autoajuda com o batman Cristian Bale irretocável fazendo o boxeador viciado em crack. Enfeiada e envelhecida, Melissa é uma mãe ambiciosa e histérica inesquecível.
Nessa safra há duas menções honrosas e uma obra prima que ganhou nada. O Oscar de melhor filme estrangeiro, o dinamarquês Em um mundo Melhor ( Haeven) também dirigido por mulher, Susanne Bier e Trabalho Interno ( Inside Job), do americano Charles Ferguson, um cientista político, empresário de tecnologia e consultor de empresas que dirigiu, anteriormente, o aplaudido The American Ocupation of Iraq: no End in Sight. O primeiro se encaminha, com uma narrativa correta, para falar sobre a violência do mundo de hoje, do bullyng das escolas das crianças aos trágicos acampamentos de refugiados africanos. Mas se perde no final. Assistir ao segundo é obrigatório: uma lição de como a crise econômica mundial de 2008-2010 foi arquitetada, criminosamente, pela academia americana (Harvard), pelo governo de Washington (agentes de fiscalização governamentais) e por Wall Street; e como hoje tudo continua como antes. Ao redor de Barak Obama, trabalhando como seus assessores, estão os mesmos mestres da safadeza de anos atrás. São essas as tristes sequências finais.
A obra prima da safra pós Oscar é a produção Espanha/México Biutiful (Biufitul), de Alejandro Iñarritu. Não ganhou nem melhor filme estrangeiro nem premio de melhor ator embora Javier Bardem seja um dos melhores em atividade, no cinema mundial. Mas está em cartaz nos cinemas há mais de um mês, tímida prova de que às vezes Hollywood pode enganar-se. Fala sobre a doença e a morte do indivíduo, e sobre a doença e decadência da Europa (do ocidente). E prova como a delicadeza pode temperar o mundo feio e brutal em que vivem os mais pobres, esses que são um dos efeitos colaterais do sistema. Biutiful mostra como o mundo pode até ser tragicamente bonito.
*Jornalista a escritora
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