
Um mapa possível para o Festival de Cinema
Lea Maria Aarao
Reis
Há vários modos de entrar num festival de cinema - Festival
do Rio 2004 - para selecionar, escolher e organizar uma agenda em meio
a mais de 300 filmes apresentados.
Dependendo do perfil, dos gostos, tendências e interesses do espectador
pode-se ficar nos clássicos restaurados, como o espetacular A
Batalha de Argel, de Pontecorvo; na mostra de filmes gays; nas novidades
do cinemão, inéditas no Brasil ou nas apresentações
de filmes de ficção científica.
Pode-se ficar também nas homenagens a Sergio Leone - autor de
um clássico do espagueti western, Era Uma Vez no Oeste, e a Dario
Argento, que vem com um filme novo, O Jogador de Cartas; ou a Peter
Davis, do inesquecível Corações e Mentes.
Pode-se escolher os filmes indianos de Bollywood , as interessantes
produções da movida conematográfica da América
Latina ou os documentários políticos - o forte deste ano.
Há os gigantes em cartaz - filmes imperdíveis,
comprados para exibição aqui, como Os Sonhadores, o mais
recente Bertolucci, realizado depois de uma longa doença do cineasta
e após um silêncio de mais de dez anos; Mala Educación,
de Almodóvar; o famoso chinês Hero, de Yimou; o aguardado
Spartan, do fabuloso David Mamet; e o mais novo Kitano, Zatoichi - a
intrigante saga de um samurai cego.
Temos o mais novo filme do premiado bósnio Kusturica - A Vida
é Um Milagre . Um outro do queridinho dos intelectuais franceses,
o egípcio Youssef Chahine - Alexandria/ Nova Iorque
São cartazes para quem tem pressa e está impaciente com
este ano cinematográfico medíocre, pobre e sem graça,
onde, para desespero dos bons cinéfilos, as atrações
maiores são o lixo do cinema americano.
Mas há, sobretudo, a chance, talvez única, de conhecer
tesouros que, talvez, não haja mais chance de passar no Brasil
- os documentários políticos, da enorme Mostra Limites
e Fronteiras, uma das mais fortes do Festival, que segue a tendência
internacional da produção dos docs de contestação,
de alerta, resistência e reflexão para quem quer se manter
antenado ao complexo e estarrecedor mundo de pós - 11 de setembro.
Destes, uma das estrelas máximas é a co - produção
França/Alemanha/Grã-Bretanha/Bélgica, Route 181
- Fragmentos de Uma Viagem na Palestina-Israel, a ser exibida inteira,
com quatro horas de duração.
Outro cartaz ansiosamente esperado é Control Room, traduzido
aqui para Central Al Jazeera, da egípcia/americana Jehane Noujaim,
montado pela brasileira Julia Bacha, que faz cinema em Nova Iorque -
vem precedido de elogios entusiasmados.
Descrença (Disbelief) é o título da co-produção
russa-americana de Andrei Nakrasov sobre a "nobre arte da descrença
política", como define seu autor, e sobre a violência
e tragédia que vivem os chechenos, vítimas de uma guerra/matança
que dura de mais de dez anos.
Deve-se prestar atenção ao documentário americano
Farmingville, Premio Especial do Júri do Festival de Sundance
deste ano, revelando os subúrbios das grandes cidades dos Estados
Unidos como os novos focos da violência no país, através
da história da tentativa de assassinato de um grupo de trabalhadores
mexicanos e da relação ambígua de ódio e
medo que (des)une cidadãos americanos e imigrantes ilegais.
Filmes mostrando as eleições no Irã (Nosso tempo),
ou sobre as centenas de crianças nascidas nos bordéis
de Calcutá estão programados.
Com a promessa de cenas chocantes, O Grito do Leão Branco mostra
a crueldade do jugo chinês no Tibet, desde 1949 e, em contrapartida
(mais chocante ainda) a rotina contemplativa de um povo pacífico,
porém vítima à revelia, do acordo Nixon - Mao Tsé
Tung, firmado na década dos anos 70.
É claro que na Mostra Limites e Fronteiras não podia deixar
de ser exibido Verdade Revelada - A Guerra no Iraque , doc americano
de Robert Greenwald, filmado ano passado para DVD e agora acrescido
de novas cenas e depoimentos sobre as sinistras mazelas dos bastidores
do da política externa do governo Bush, especialmente no Iraque.
Nem Re-Inventando o Talibã? o ponto-de-vista do paquistanês
Sharmeen Obaid sobre o recrudescimento do talibã na seu país.
Ou a investigação sobre a vitória suspeita de Bush
nas últimas eleições, na Flórida, um filme
chamado Sem Precedentes -A Eleição Presidencial de 2 000
nos EUA.
Numa época de repúdio planetário à força
imperial do governo americano, a vinda do diretor Peter Davis e a re-apresentação
do seu Corações e Mentes, de 1975, não poderiam
faltar, assim como filmes comerciais já negociados para grandes
circuitos, como A Corporação, dos canadenses Mark Achbar
e Jennifer Abbot, no qual Michael Moore e até Noam Chomsky são
persdonagens!
Como vêem, para compensar a burrice vigente nas telas, este ano,
o cinema do Festival do Rio 2004 nunca foi tão politizado. Manda
ver com o fino da produção feita pelas cabeças
pensantes ao redor do mundo.
Mas não esquece de Kill Bill - Vol. Dois, outra obra prima de
Tarantino, entretenimento puro de altíssimo nível.
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