
HERANÇAS DE FESTIVAL
Léa Maria Aarão Reis*
Chega-se ao fim do ano ainda com os ecos do Festival de Cinema do Rio. Não nos ouvidos, mas nos olhos. Há promessas de exibição ainda não cumpridas, há filmes comerciais fazendo, como se previa, sucesso de bilheteria (Coco antes de Chanel, Bastardos Inglórios, Aconteceu em Woodstock) e o mais recente Almodóvar, Abraços Partidos, é um dos bons presentes do natal cinematográfico. Mas há filmes sem qualquer perspectiva de lançamento e, outros, com poucas chances de chegar na tela grande nos próximos meses.
Seria necessário a pressão e o interesse da mídia. O que infelizmente não há. Num festival, os ansiosos não conseguem se segurar e aguardar a exibição dos grandes lançamentos. Jogam-se nas preestreias superlotadas dos blockbusters e nas sessões de filmes legendados, prontos para exibição comercial, o que pode demorar alguns anos, especialmente se não estiverem na esteira dos distribuidores americanos. Uns vão atrás dos roteiros de filmes das mostras Documentários & Fronteiras. Persistem na inglória sina de procurar entender o mundo de hoje através também do cinema real.
Há nacionalistas que não faltam às mostras dos filmes do Panorama Brasil. Vão conhecer, nas telas grandes, o trabalho de atores afeitos às telas da TV ou marcam presença tentando chamar a atenção das revistas e colunas de celebridades. Meninos e meninas estudantes de cinema vão ver os curtas com que, geralmente, começam na profissão. Os gays comparecem ás sessões tardias dos perdidos na meia-noite. Ociosas mulheres maduras escolhem sessões da tarde com filmes, por exemplo, de Jeanne Moreau e saem das salas discutindo, animadamente, não o filme, mas o envelhecimento e o físico da atriz. Os aposentados aproveitam de tudo um pouco. Os tarados pelo terror e pelos anime não perdem o cinema japa e companhias orientais onde, com frequência, dois temas se entrelaçam: horror e sadismo. É o cinema oposto ao ocidental o qual se detem, com falso pudor, nas perversões veladas. Os orientais vão direto ao ponto.
Cinéfilos autênticos que nunca vêem o sol, afundam, pálidos, nas primeiras filas de platéias vazias, em sessões de filmes iranianos, turcos, latinos e africanos. O povão vê filmes brasileiros nas praças, e de graça, o que é melhor - a galera não é de ferro. Gazeteiros, vagabundos, executivos com obsoletas pastas na mão, frilas, biscateiros, garotada, muitos velhos, muitas cabeças brancas, muito mais mulher do que homem, a fauna é extraordinária, num festival de cinema.
Mas é com tristeza que não veremos a exibição comercial de documentários como o italiano Anna, de Giovanna Massimetti e Paolo Serbandini, sobre o assassinato da jornalista Anna Politkovskaia por agentes do governo Putin, há três anos, quando entrava no prédio em que morava, numa rua movimentada de Moscou. Um doc honesto, seguro, sem pirotecnias. O pano de fundo da história da jornalista que escreveu, insistentemente, sem se intimidar, sobre as barbaridades cometidas pelo governo russo na Chechênia. Há imagens, algumas raras, da deposição de Gorbachev, do golpe dentro do golpe ao comunismo e da ascensão de Yeltsin e de Putin. O assassinato de Anna foi o 211º caso de jornalista morto no período de dezoito anos, na Russia. São rápidos e evasivos os depoimentos, recolhidos nas ruas moscovitas, entre os passantes, no início deste ano. Poucos dizem lembrar do episódio. Muitos fingem que não lembram ou saem de fininho, com medo de falar.
Os acontecimentos nos nossos tempos, mesmo os mais graves, são descartáveis. No Festival do Rio foram exibidos três documentários mostrando as sérias distorções do mundo neoliberal, sobre as quais as mídias mantêm escandaloso silêncio: O Cerco Neo Liberal, American Cassino e A Doutrina de Choque. O primeiro, L’Encerclement – la démocratie dans les rets du néolibéralisme, de Richard Brouillette, produção canadense de 2008, deveria ser exibido, obrigatoriamente, para alunos de todos os cursos de economia. Trata dos dogmas do neoliberalismo. O professor americano Noah Chomsky e o francês Ignacio Ramonet, editor do jornal Le Monde Diplomatique, são estrelas dessa análise sobre a frenética desregulação da economia na falida era neoliberal e raiz da crise econômica do ano passado. O filme mostra o que há por detrás da cortina de fumaça do neoliberalismo e do conceito de livre mercado. Uma lição a ser repetida à exaustão. American Cassino, de Leslie Cockburn, mostra em detalhes como a crise atingiu duramente as minorias da população pobre americana, que viviam penduradas em hipotecas, em contraponto com impressionantes depoimentos de ex-funcionários de firmas de investimentos revelando os truques que usavam para enganar os clientes. Muitos desses clientes, hoje, quase moradores de rua. O cenário é o dos bairros onde viviam as comunidades negras da cidade de Baltimore, atualmente desertos. É um documentário de impacto.
O terceiro é baseado no best seller mundial da jornalista canadense Naomi Klein. Assim como o livro ele se intitula A Doutrina de Choque (The Shock Doctrine) e apresenta o desastre do que Klein chama de capitalismo catástrofe, criado à força e clandestinamente na América do Sul, na década dos anos 70, com a mais absoluta conivência e colaboração dos governos ditatoriais. Argumentação límpida, pesquisa primorosa e imagens de arquivo preciosas remontando aos anos 50, á época de Milton Friedman, considerado o pai da doutrina neo liberal. O filme foi exibido com grande repercussão no Festival de Berlim deste ano. Um dos seus dois diretores, o inglês Michael Winterbottom (o outro é Mat Whitecross) é um velho conhecido engajado que fez Caminho para Guantánamo (Road to Guantánamo) e Welcome to Saravejo.
Na ficção, há o bonito filme de Sam Mendes (Beleza Americana), Distante Nós Vamos (Away We Go). É um road movie desconcertante, feito com atores feios, desengonçados, sem glamour e profundamente humanos. Gente feliz que deseja continuar sendo feliz, observando as tristezas, frustrações e os dramas ao redor. Um azarão de bilheteria.
Outros dois filmes podem não ser comerciais - mas são provocantes. O francês Ricky, de François Ozon, que segue envolvido na mesma questão de outros dois excelentes filmes seus - Sob a Areia (Sous le Sable) e o celebrado À Beira da Piscina (Swimming Pool) – ou seja: qual é o momento em que resvalamos e a nossa cabeça se descola da realidade para viver a fantasia de um modo mais real ainda que a própria realidade? Ou é tudo imaginação? O turco A Caixa de Pandora (Pandora’nin Kutusu) de Yesim Ustaoglu é de 2008, foi premiado no Festival de San Sebastián e é um pequeno tratado sensível sobre uma mãe velha e doente cuja existência vem acirrar antigas diferenças familiares tornando a vida de todos um inferno – e, em especial, a da velha mãe. O cinema turco tem mostrado internacionalmente a sua força produtiva nos últimos anos. É uma onda cultural associada ao esforço que o país vem fazendo para vencer as grandes resistências religiosas discriminatórias dos europeus cristãos e entrar para a União Européia - o que, afinal, é só uma questão de tempo. Como esperamos seja também apenas uma questão de tempo a exibição comercial desses e de outros filmes que não se encontram na órbita desgastada da indústria e da pressão cinematográfica norte americana e trazem novos ângulos de discussão para se contrapor ao perigoso pensamento único.
Jornalista. Autora de Maturidade, Além da Iidade do Lobo e Cada um Envelhece como Quer.
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