O FESTIVAL DE CINEMA RIO 2009 SOBE O MORRO
Léa Maria Aarão Reis
Há onze anos, sempre no começo da primavera, no fim de setembro, o Festival de Cinema do Rio mobiliza fãs e cinéfilos estressados organizando agendas e tentando o impossível: combinar horários de trabalho e compromissos do dia a dia e assistir uma enxurrada de filmes inéditos. A maioria dos filmes não será mostrada nas telas, no circuito comercial, nem encontrada nos videoclubes para alugar ou em lojas para vender, aqui ou lá fora. Em geral, são documentários, alguns deles pérolas preciosas com edições pequenas e exibições restritas, arquivados em centros culturais e em diversas instituições.
Este ano, apenas na mostra principal, a Mostra Panorama, há filmes para todos os gostos, de cineastas ícones de várias nacionalidades. Fora as mostras dos documentários, de cineastas estreantes, de filmes nacionais, dos filmes gays, dos políticos, das homenagens a Jeanne Moreau e ao cinema turco, pouco conhecido aqui.
E há filmes iranianos, coreanos, africanos, romenos e europeus em geral além dos americanos, com a ficção ao lado de documentários badalados. Mas a marca do Festival de Cinema do Rio 2009 é a democratização. É imenso o número de exibições gratuitas para o público carioca, em praças, em salas improvisadas, nos bairros, mas, em especial, exibições voltadas para a população das favelas da cidade: Morro da Providência, Mangueira, Jacaré, Acari, Rocinha e Vidigal, Cantagalo, Engenho de Dentro, Ramos, Tavares Bastos, têm programadas sessões específicas.
É animador ver o cinema ir de encontro a um público carente que, ao contrário do que alguns ainda pretendem, muitas vezes mostra uma curiosidade intelectual maior que a das classes médias. A grande estrela do festival é Pedro Almodóvar, representado pelo seu mais recente filme, Abraços Partidos onde novamente trabalha com a sua musa Penélope Cruz. Ang Lee, o chinês radicado nos Estados Unidos (diretor de O Segredo de Brokeback) abre a mostra com o documentário Aconteceu em Woodstock e o diretor de Honk Kong John Woo (Missão Impossível II) mostra A Batalha dos três Reinos.
Outro peso pesado oriental, também chinês, Jia Zhang-Ke, enviou um documentário seu, 24 City, precedido de excelentes críticas. Para completar essa formação de respeito, Chen Kaige (Lanternas Vermelhas), outro chinês, apresenta Eterno Feitiço. Emir Kusturica, o compositor, escritor, músico e cineasta sérvio nascido em Saravejo, de enorme prestígio internacional (autor de Underground, exibido no Brasil) mandou seu mais recente filme para o Rio, o famoso documentário Maradona by Kusturica, dizem que um festival de egos - dele e do jogador de quem é fã fervoroso. Do francês François Ozon (Swiming Pool e Oito Mulheres) temos Ricky, mais um intrigante trabalho seu.
De Alain Resnais vem Les Herbes Folles (ainda sem título em português) e vamos poder ver mais uma vez a excelente atriz inglesa, Brenda Blethyn, em uma co-produção França/Argélia, London River. Do mexicano Guillermo Arriaga (roteirista festejado de Babel e Amores Perros) temos The Burning Plan com a surpreendente participação da inesquecível Kim Basinger, hoje uma atriz bissexta. O talentoso chileno Raul Ruiz (Em Busca do Tempo Perdido), radicado em Paris, mandou o filme de terror A Casa de Nucingen.
Depois de um jejum prolongado vamos poder ver novamente o cinema da australiana Jane Campion (O Piano), que enviou para o festival O Brilho de uma Paixão – o amor da vida do poeta John Keats. O sueco Lasse Hallstrom (Chocolate), cujos filmes sempre fazem sucesso comercial no Brasil, assina Hachiko: a Dog Story, com Joan Allen e Richard Gere, e o ator Liam Neelson estará em Five Minutes of Heaven, um obscuro filme irlandês – mas com Neeson e James Herbitt.
O conhecido cineasta russo Nikita Mikhalkov (Olhos Negros) tem o filme 12 Jurados e Uma Sentença, refilmagem do americano Doze Homens e Uma Sentença. Alexander Wajda, outro ícone do cinema, dirigiu uma produção polonesa deste ano, recém saída das salas de montagem, Doce Perfume, que estará disponível nessa Mostra Panorama, e Sam Mendes, nascido indiano e cidadão americano (diretor oscarizado dos ótimos Beleza Americana e Estrada para a Perdição) apresenta Distante Nós Vamos, filme cercado de expectativa.
Embora esteja longe de ser uma unanimidade – há quem desteste o seu cinema – o conhecido cineasta sueco, outro radicado nos Estados Unidos, Steven Soderbergh (Syriana e Michael Clayton) mostra duas produções: a segunda parte do seu tedioso Che e O Desinformante, filme comercial com Matt Damon e cuja bilheteria promete. Do instigante cineasta belga Michael Haneke (Caché) vamos poder ver White Ribbon, co-produção de quatro países europeus. Do incansável diretor centenário portugues Manoel de Oliveira, Singularidades de uma Rapariga Loura. Do alemão Werner Herzog, com o pano de fundo da passagem do furacão Katrina por Nova Orleans, Bad Lieutenant.
E não acabou: temos ainda Vincere, do italiano Marco Bellochio, uma referência histórica do cinema italiano; The Time that Remains, do ótimo palestino Elia Suleiman; White Material e 33 Doses de Rum, da francesa Claire Denis; dois novos filmes sobre Coco Chanel (ainda) e um filme curioso: A Doutrina de Choque, documentário de longa metragem do correto inglês Michael Winterbottom (de Caminho para Guantánamo e Bem Vindo a Saravejo) baseado no conhecido livro da jornalista Naomi Klein sobre o fracasso das economias desreguladas.
Para coroar a orgia de filmes de autor temos o mais novo Quentin Tarantino, dos célebres Pulp Fiction e da série Kill Bill, desta vez com um filme blockbuster sobre os soldados na Segunda Guerra Mundial, Bastardos Inglórios, com Brad Pitt, e, é claro, chega cercado de curiosidade. Tarantino, aliás, junto com a lendária francesa Jeanne Moreau são os convidados muito especiais do Festival deste ano. Como brinde final, dois filmes sobre a francesa hoje octogenária: Retrato Íntimo e Conversas com Jeanne Moreau. Se restar fôlego cinematográfico, há a Mostra de Filmes Latinos, com o sempre no mínimo interessante cinema argentino e a Mostra de Documentários – Dox e Fronteiras – cada vez mais concentrando atenção dos cinéfilos e espectadores comuns, o chamado grande público, porque abordam temas políticos, econômicos e sociais da vida contemporânea - cada vez mais se assemelhando à boa ficção, às vezes, e à ficção de pesadelo. *
* Jornalista, autora de Maturidade, Além da idade do Lobo e Cada um Envelhece como Quer (Ed. Campus/Elsevier).
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