Manchester à Beira Mar e O que está por vir

 

 

O vai e vem da vida

 

La Maria Aaro Reis*

Dois filmes simples e despretensiosos – o que é raro, em nossos tempos de agora, de vaidades, afetação e muito barulho por nada –  chamam a atenção e apaziguam nossa inquietude em meio a um punhado de produções medíocres candidatas ao Oscar de Hollywood, e em cartaz nesta temporada do cinema.

O americano Manchester à beira mar (Manchester on the beach) e o francês O que está por vir (L’avenir), embora produtos de duas culturas diversas e quase opostas, são filmes com muito em comum. Igualmente perturbam pela sua singeleza e pela naturalidade – não indiferença! – com que retratam a vida que, de repente, pode e quase sempre passa uma rasteira em todos nós, cada um e cada uma ao seu tempo.

O primeiro é dirigido por Kenneth Lonergan, 54 anos, diretor, dramaturgo e roteirista reconhecido (autor do roteiro de Gangues de Nova Iorque, de Scorsese) e se desenrola na pequena cidade pesqueira de Massachussets, nos Estados Unidos. A direção estava destinada ao ator Matt Damon que desistiu da empreitada e entregou-a a Lonergan. O astro se manteve como o produtor principal.  

Manchester estreou no Sundance Festival de 2016, discretamente, mas logo chamou atenção. Foi fazendo, à sua maneira, uma carreira de bilheteria significativa e, hoje, está indicado para seis categorias do Oscar: melhor filme, diretor, ator, roteiro e dois coadjuvantes: o excelente ator Lucas Hedges, quase ainda um menino, e a extraordinária atriz Michelle Williams que em apenas duas sequências nos deixa de coração partido.

Ao lado deles, como eixo principal, o ator Casey Affleck (seu nome completo é Caleb Casey McGuire Affleck-Boldt) vive o protagonista numa dessas excepcionais composições inesquecíveis – delicada e difícil. Casey, irmão caçula do badalado Ben Affleck, estudou por alguns anos filosofia, astrologia e física na Universidade de Columbia. Tem consistência intelectual, nota-se no seu trabalho.

O que está por vir é o outro biscoito fino da temporada cinematográfica. Filme dirigido por uma parisiense com pedigree familiar artístico, a jovem Mia Hansen-Love, de 35 anos, é mulher do conhecido cineasta Olivier Assayas e irmã de um músico respeitado nos círculos sofisticados da capital francesa. Já foi atriz e dirigiu dois bons filmes: O pai de minhas filhas e Um amor de juventude. Com L’avenir ganhou o Urso de Prata de Melhor Diretora na Berlinale, ano passado.
 
Se no primeiro filme um acontecimento terrível rompe a estabilidade da vida de Lee Chandler e o que vemos, depois, é um homem encharcado de uma culpa irreversível, porém chamado, pelo acaso, a uma nova vida, à ação e à responsabilidade de cuidar, mesmo apático, do sobrinho adolescente que é órfão repentino (e aí entra o trabalho encantador de Lucas Hedges), na segunda fita o fim inesperado do casamento de 25 anos da bem sucedida professora de filosofia, Nathalie, uma mulher de meia-idade (Isabelle Hupert), e o fim que se aproxima da sua mãe doente (único sinal da sua angústia e descontrole emocional) são os detonadores das mudanças formidáveis que virão.

Huppert está hoje para os franceses como Meryl Streep para os americanos. É um ícone intocável. Que me perdoe a legião de seus fãs ardorosos. Vejo as duas como atrizes tarimbadas, porém de um papel único, abusando, cada uma, de seus cacoetes. Fazendo a sua Nathalie, às vezes me convence, em outras ocasiões, não.


Mas o importante observar é que o acaso, as súbitas rupturas violentas, a visão racional da existência humana, a morte em vida e a culpa original são as grandes linhas com as quais trabalham, de modo discreto,  Hansen-Love e  Lonergan nas duas narrativas que poderiam ser banais e melodramáticas – e, pelo contrário, não são porque seu meio tom confere um naturalismo exemplar.


Ambos falam das supostas bases que sustentam a ilusão da permanência. Os dois falam dos abalos que tiram o chão de debaixo dos nossos pés e sobre como seguimos adiante, do modo menos doloroso.


A professora Nathalie define o seu papel:  ‘’Ensinar meus alunos a pensar por conta própria.” Não se engaja nem se comove com os protestos de ruas dos garotos (já viveu o mesmo, no passado, quando era jovem) e sua companhia são Rousseau e os grandes clássicos. “Zizek, um pouco superficial?” ela pergunta, provocativa, folheando os volumes da estante do aluno dileto.


Chandler por sua vez, em lancinante reencontro, na rua, com a ex-mulher que o convida a tentar outra vez a relação apesar da tragédia passada, recusa, com simplicidade, e se rende: “Eu não consigo superar.”

“A sensação,” anotou o escritor e crítico de filmes José Geraldo Couto sobre O que está por vir é a de que (...) “cada cena dando a impressão de começar já no meio e terminar antes do fim, reforça essa sensação de algo inconcluso, deixado aberto à interpretação.”

“Tudo é narrado com um certo distanciamento, quase nonchalance,” escreve ele. “Como se a câmera estivesse ali por acaso, ou como se os personagens estivessem pensando em outra coisa. No entanto, nada é gratuito ou desleixado, há uma grande precisão no que é mostrado e no que é omitido, mas não se trata da precisão rígida do cinema clássico, que conduz nosso olhar de modo tirânico, mas de uma espécie de precisão suave.”

Em Manchester, a atmosfera é semelhante embora menos sutil - não fosse um filme americano. Mas a precisão é a mesma.

Não há fechos convencionais nem finais felizes ou sombrios,  nestes dois belos filmes. Apenas o movimento do vai e vem da vida - a sua irredutibilidade, como defendia Sartre.

*Jornalista. Autora de Novos Velhos (Ed. Record) e co-autora, com o médico João Curvo, de Nada Muito (Ed.Rocco)

 

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