
CINEMA NO OUTONO DE PARIS
Léa Maria Aarão Reis
Mal começou o outono – a temporada nobre dos concertos, das exposições e
das grandes estréias de filmes e peças teatrais, em Paris, e já os cartazes deixam malucos os cinéfilos, vindos dos quatro cantos do mundo.
Lá, neste fim de ano, está em cartaz um mar de documentários que, com certeza, nunca vão ser exibidos no Brasil, porque “não dão lucro”. Um, contando a trajetória dos zapatistas, no México; outro, mostrando como é a vida cotidiana nos subúrbios das grandes cidades de Israel; outro ainda, revivendo o assassinato do líder argelino Ben Barka, na rua, na frente de todo mundo, defronte de um café em Saint Germain, nos anos 60 – este, aliás, um assunto tabu, traumático até hoje para os franceses. E assim por diante.
Também estão em cartaz retrospectivas de clássicos de todas as nacionalidades, e filmes atuais, que pipocam da África e da Ásia, os quais, sem pessimismo, na sua esmagadora maioria, não veremos por aqui.
E tem a produção vigorosa de filmes franceses – alguns noirs interessantes, mas em geral mediana -, que, esta então, provavelmente não chegará mesmo ao Brasil.
Meca dos peregrinos cinéfilos que não conhecem ainda o novo prédio da legendária Cinemateca de Paris, agora situada em Bercy – linha 14, metrô Bercy -, fomos até lá, em uma fria manhã de terça-feira. Agora ela está mais distante do pulsar dos acontecimentos, dos cinemas e dos pequenos estúdios – aqueles, memoráveis, emblemáticos, como o das Ursulinas, ou as três mini-salas do Luxembourg.
Embora a Cinemateca não abra às terças-feiras, o que constatamos quando chegamos, a excursão valeu. O projeto do celebrado arquiteto americano Frank Gehry merece ser conhecido: é inspirado em um jogo de luzes e
sombras magnífico, valorizado pela localização do edifício, no belo parque de Bercy. A nova Cinemathèque Française tem uma grande sala, com 415 lugares, e foi batizada pelo seu atual diretor, Serge Toubiana, merecidamente, de Sala Henri Langlois.
Mas algumas das principais atrações especiais, na nossa maratona cinematográfica, foram três filmes específicos. Caso não sejam exibidos no Brasil ( porque não dão lucro...) procurem vê-los onde estiverem em
cartaz. São imperdíveis.
Um deles é o mais recente Woody Allen, Matchpoint, inesperadamente filmado em Londres, com a extraordinária atriz Scarlett Johansson (de
Encontros e Desencontros em Tóquio/Lost in Translation).
Comenta-se que Allen ficou tão surpreso com o excelente desempenho de Scarlett que as filmagens ainda não haviam terminado e ele já a contratara para o seu próximo trabalho, o filme Scoop, também rodado na
capital inglesa.
Em Matchpoint - que, em uma partida de tênis, é o momento em que a bola flutua sobre a rede e como que hesita em cair para um lado ou para o outro dela, decidindo desta maneira o destino da partida (e dos
jogadores) – Woody Allen não aparece como ator e nem faz piadas; a não ser no fim do filme, a grande piada.
Ele retoma o tema da culpa, assunto de seu filme Crimes e Pecados/Crimes and Misdemeanors, com Martin Landau e Angélica Huston, e sublinha claramente sua intenção de abordá-lo, embora em outro tom, utilizando o ator Jonathan Rys-Meyer como protagonista, cuja semelhança com Landau jovem é impressionante.
Matchpoint é uma história dramática contada em tom quase burlesco: um professor de tênis, classe média e duro, entra para as altas rodas londrinas por meio de um casamento com uma moça rica. Mas, louco de paixão por uma americanazinha vinda do Arizona e aspirante a atriz, e classe média dura como ele, começa a viver com ela uma história clássica de adultério pontilhada de lances sórdidos até que ocorre o momento do seu matchpoint.
O tema de Fausto e da venda de sua alma ao diabo, e o da amargura que vem com a culpa são destrinchados por Allen com aquela sua sensibilidade típica mesclada de cinismo - duas referências de seus filmes.
O segundo excelente filme em cartaz em Paris pertence à atual extraordinária safra asiática. Vem de Taiwan e é de um diretor de Taipei, Hou Hsiao Hsien, bastante familiar dos franceses. Fez Millenium Mambo e Café Lumière, dois dos mais conhecidos de seus dezoito filmes, e pertence ao fechado clube das forças mais vivas do cinema moderno. Ele trabalha com material semelhante ao dos filmes de outro diretor chinês, este de Hong-Kong, Wong Kar-Wai: os fragmentos de lembranças pungentes que
guardamos inscritos na memória. O filme também trata de três histórias de amor e se chama Three Times - embora o título original, em chinês, seja muito melhor: Nossos Melhores Momentos. São três episódios.
O primeiro transcorre nas salas de bilhar na Taiwan dos anos 60 ao som da música Smoke Gets In Your Eyes. Chama-se O tempo dos Amores.
O segundo, mudo, é extraordinário e de beleza plástica atordoante. Chama-se O tempo da Liberdade e se passa em um único cenário, na casa de uma grande dama prostituta, em 1911, quando a ilha era ocupada pelo
Japão.
E o terceiro, O tempo da Juventude, conta uma história de amor na Taipei de hoje, superpovoada, barulhenta, castigada pela poluição, decadente e medíocre como a maioria das grandes cidades do mundo de hoje.
Os três episódios mostram o resultado das pesquisas e das fascinantes experimentações de Hsiao Hsien em relação a tempo cinematográfico, a cortes inesperados, ao uso do som, pontos-de-vista de câmera e utilização
cromática.
A protagonista deste empolgante Three Times, travestida em três personagens díspares, é uma das mais bonitas atrizes do cinema oriental, Shu Qui e o ator principal é Chang Chen - um ator de Kar-Wai. Ambos, belos e brilhantes.
O terceiro filme imperdível é o segundo do ator Tommy Lee Jones. Chama-se Los tres enterros de Melquíades Estrada. Ganhou o premio de melhor roteiro e de melhor interpretação masculina, em Cannes, este ano, mas não é nem um pouco badalado por aqui. O roteiro é de um craque, o mexicano Guillermo Arriaga, autor dos roteiros dos festejados filmes Amores Perros e 21 gramas, e um antigo amigo de Lee Jones, que por sua vez é nascido e criado justamente na região do Rio Grande, no Texas, fronteira entre Estados Unidos e México, reino dos coyotes e da truculenta polícia local americana.
A história: após o assassinato de Melquíades Estrada, vaqueiro mexicano trabalhando em uma pequena cidade americana, próxima da fronteira, o corpo é rapidamente enterrado pelas autoridades policiais, que não se dão ao trabalho de descobrir o autor nem as razões do crime. Por insistência de um grande amigo de Melquíades (Pete Perkins, o personagem de Lee Jones), é feita a exumação do cadáver mas logo volta-se a enterrá-lo. É Perkins quem descobre o assassino, quem desenterra o corpo, e leva a ambos por uma viagem espantosa, para Melquíades de volta, em direção ao México, onde o corpo será novamente enterrado - então, definitivamente.
"Esta região," diz Tommy Lee Jones, a propósito de seu filme, "não tem nada a ver com o que se passa na Cidade do México ou em Washington. A fronteira internacional não conta; é uma divisão artificial porque a região é uma única. E o homem que se encontra do outro lado do Rio Grande é o mesmo que está aqui, deste lado."
A dupla de atores centrais - Lee Jones e Barry Pepper, que faz o assassino - cria um espetacular virtuosismo de interpretação.
E a história, ah, a história é um chamado às referências de humanidade, amizade, fidelidade, desinteresse e desprendimento, hoje em desuso.
Mas, ainda bem, há sempre quem se interesse por estas histórias.
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