
Casa de Areia
Maria das Graças Targino
Lençóis Maranhenses. Fernanda Montenegro. Dois ícones para mim. Um que retrata a beleza natural e selvagem do Nordeste brasileiro e onde vivi dias de uma felicidade morna e dolorida. O outro, Fernanda, (re)lembra a grandeza de ser atriz, livre dos estereótipos de traseiros formosos ou bustos siliconados. Dois elementos decisivos que me levam de imediato à Casa de areia, mais um filme do brasileiro Andrucha Waddington.
Desta vez, o diretor não recorre ao humor refinado de sua produção mais conhecida, Eu. Tu. Eles. Trabalha, de forma densa, a vida de Áurea, num período que vai de 1910 a 1969. Forçada pelo compromisso de acompanhar o marido português, Vasco, em busca do sonho de riqueza fácil, atravessa um deserto imenso de areia, luz e sol, de onde jamais partirá. Como única companhia feminina, a mãe. Com a fuga dos homens da caravana e a morte solitária do marido, soterrado por sua própria ambição, começa uma história que se funde e se entrelaça na história de três mulheres.
Três gerações – Áurea, a mãe Maria, e a filha, também Maria. Em todas elas, a imensa solidão feminina e pior, a dependência da mulher à figura do homem. Ao expressar o sentimento de liberdade, por não mais enfrentar a tirania dos homens, Maria é contestada pela filha Áurea, que recorda a presença onipotente de Massu, jovem negro viúvo, morador do quilombo local, que se torna protetor das mulheres, de forma silenciosa, mas voraz e até impiedosa, quando destrói no coração de Áurea a esperança de retornar à sociedade, ao mentir sobre a morte de Seu Chico, comerciante que percorre vagarosamente, a cada ano, o deserto inóspito, trazendo sal e outras bugigangas, e que constitui o único elo que as mantém em contato com a civilização.
É a sua única e última cartada para reter Áurea. Na verdade, a sua tenacidade e firmeza, aliadas à sensualidade contida terminam por conquistar a mulher. E Áurea transforma aquele sonho, que nunca fora seu, em sua própria vida. E é este afeto que vence. Tal como a mãe o fizera até a morte, ela encontra, enfim, paz na imensidão do areal. Toma para si a família de Massu. Toma para si a perfeição do mar impenetrável, da areia que brinca selvagemente com o vento, do céu vergonhosamente azul. É a plenitude mais do que o conformismo. É a descoberta de uma vida livre de supérfluos mais do que a covardia de cessar de lutar.
Porém, é preciso dar à filha perdida no álcool fácil e no sexo escancarado, a possibilidade suprema de conhecer pela primeira vez a beleza da “música de verdade”. E o consegue ao reencontrar o Tenente Luiz. Com ele, num espaço perdido no tempo, Áurea vivera uma só noite de amor e toda uma esperança de voltar à cidade grande, até descobrir a morte da mãe Maria. E Luiz, por tudo que tão fugazmente viveram, mas que permaneceu intocável em seu coração, atende o pedido e leva embora a filha, para o conforto das cidades grandes.
Anos depois, o reencontro da anciã com a “filha da cidade”, que lhe traz de presente a música dos homens, além do sussurro do vento, do gorjeio dos pássaros e do canto do mar… De fato, Casa de areia mexe no imaginário. Explora sentimentos. Machismo. Solidão Paz. Plenitude. Solidariedade. Persistência. Crueldade. Lealdade. Todos, elementos presentes.
Andrucha Waddington acerta, sim. No local, de beleza ímpar. Toda a filmagem, entre julho a setembro de 2004, se dá nos Lençóis Maranhenses, contando com a infra-estrutura, mesmo deficitária da pequena vila de Santo Amaro. No roteiro de Elena Soárez. Aliás, ao que se sabe, é o terceiro filme do diretor com Elena. Os dois outros, Gêmeas, de 1999 e o já citado Eu Tu Eles, de 2000.
E o acerto continua. No elenco, que traz, pela primeira vez, num mesmo filme, mãe e filha – a Montenegro e Fernanda Torres. Elas se alternam nos personagens. Fernanda Montenegro é Maria e Áurea. Fernanda Torres, idem. Massu é interpretado por Seu Jorge, quando jovem, e por Luiz Melodia, aos 62 anos. Stênio Garcia divide com Enrique Diaz a figura do Tenente Luiz. E há muito mais, como Camila Facundes, que vive Maria, na infância. Uma infância perdida num deserto perdido!
* Maria das Graças TARGINO, doutora em ciência da informação e estudante de jornalismo
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