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PODE HAVER POESIA NA VIOLÊNCIA? Mas não parou. Pelo contrário. Filma sem parar e trabalha feito um doido. Filmes maravilhosos e desconcertantes. Kitano aproveitou para usar as marcas do acidente de moto no seu rosto e compõe personagens impassíveis, quase sempre introvertidos e inesquecíveis: testemunhas oculares da nossa época. São os durões, os safados-kafkanianos, mafiosos, tiras-de-boa-índole _ tirando fora os clichês, porque, não esquecer, a linguagem é oriental. Consagrado lá fora como um dos melhores cineastas vivos, Kitano, aqui, é relativamente pouco conhecido. Esta semana, estreou um novo filme seu, Brother, recebido antes, pela crítica européia, com honras de acontecimento cinematográfico. Mal lançado aqui, passa por mais um filme oligofrênico do gênero dá-lhe-porrada. Nada disso. Brother é imperdível. Como são os seus filmes Hana-Bi (onde se vê dezenas de aquarelas suas) e Kikujuro Um Verão Feliz (o mais fraco de todos), os dois disponíveis nos vídeo clubes de classe. A obra-prima Sonatine, de 93, filme sem palavras; um poema de imagens e música, deslumbrante, e De Volta às Aulas (96) não vieram para cá nunca _ em Paris, volta e meia são exibidos. Brother se passa um pouco no Japão e é quase todo filmado em Los Angeles. Trata das entranhas da Yakuza e da psicologia complicada dos seus tenebrosos mafiosos. No primeiro nível fala de amor (inclusive homossexual e de entrega absoluta). De violência, rejeição afetiva e vulgaridade. De raízes e rituais culturais intocados e da verdadeira fidelidade. Do multiculturalismo americano, daquela sociedade que já foi wasp, branca, loura e de olhos claros. Aquela, de Norman Rockwel. Numa outra leitura Brother fala da definitiva solidão do ser humano, o que, até aí, não tem novidade. Mas é que Kitano filma essa solidão de um modo zen, tão poético e tão trágico, no meio do sangue, do horror e, especialmente, da cupidez (o dinheiro vale para comprar meia dúzia de símbolos ridículos de status), e com uma correção tão rigorosa (planos gráficos e minimalistas), regando as imagens com uma trilha musical original, de uma tristeza lancinante (como já era a de Hana-Bi) que deixa o espectador embasbacado/maravilhado. Vai correndo ver. |