BISCOITOS
FINOS: A PROVA E A COR DO PARAÍSO
Léa Maria Aarão Reis
Dois espetáculos interessam neste decepcionante
inverno de vacas magras, clima inseguro e cínico, carregado
de tristeza e de tensão. Pois são cada vez mais raros
os momentos de emoção, perdidos nos fragmentos dos
produtos vomitados na internet, que enjoam e funcionam como a TV:
chicletes para os olhos e para a cabeça. Mas, agora, aparecem
estes dois espetáculos para quem (ainda) se interessa por
uma poesia comovente e pelas histórias bem contadas _ cinema
e teatro de qualidade. Para quem tiver medo de ir vê-los à
noite, porque, agora, raramente saímos à noite neste
atormentado Rio de Janeiro, vá de tarde, vá de táxi,
mande blindar o carro, mas não deixe de ir. São dois
raros biscoitos realmente finos.
O primeiro programa está no teatro Leblon. Desfaça-se
dos preconceitos a respeito do teatro produzido aqui e vá
ver A Prova. É um texto brilhante, de David Auburn, um americano
que segue a tradição realista do mais nobre teatro
escrito e feito nos EUA _ de O'Neill, o pai de todos, de Tennessee
Williams, Arthur Miller e Albee. Tem a direção consistente,
criativa e inteligente de Aderbal Freire-Filho. _, o diretor cearense,
um dos melhores do seleto e talentoso grupo de diretores, remanescentes
de um passado mais rico, em ação nos nossos palcos.
A peça apresenta também Andréa Beltrão,
a mais provocante atriz da sua geração. Artista autêntica,
sempre surpreendendo. Aquela que, quando a gente espera que vá
para um lado, no seu trabalho, desconcerta o espectador e envereda
pela direção oposta, que é sempre a melhor:
expressões do corpo, entonações, caras e bocas.
Com estes três trunfos de ouro, A Prova se debruça
sobre o fechado mundo acadêmico, o mundo supostamente da inteligência,
as suas intrigas, fofocas, as vaidades, seus personagens, os rituais
e as pompas.
O texto fala do fascínio das abstrações matemáticas,
da loucura, e do ponto de intersecção entre ambas.
Comenta como os fragmentos da cultura yuppie, ainda presentes, podem
envenenar nossas vidas, e discute sentimentos fora de moda. Revisita
a ternura de 'Glass Menagerie' e examina a possibilidade de existência
da firmeza, da integridade e de um resto de lealdade, nos afetos
e nas relações, mesmo as mais complicadas, de família.
A propósito da peça e do tratamento que deu ao texto,
Aderbal _ que também sempre escreve com brilho _ diz, no
catálogo:
"Nossos guias nesta exploração são os
próprios artistas americanos, também especialistas
na reinvenção permanente, delirante da realidade (e
do realismo). Como esse formidável Edward Hopper _ seu personagem
curvado atrás do balcão, lavando os copos que não
vemos, mas como sabemos _ mestre da harmonia, pura matemática,
e da solidão, pura matemática." A prova é uma tela de Hopper viva.
Em outra tela, a do cinema, um autor se destaca do seu grupo de
cineastas, que via Europa e Festival de Cannes, colocaram o cinema
iraniano em evidência, desde o começo dos 90. Majid
Majidi tem 43 anos e apresenta um filme extraordinário chamado
A Cor do Paraíso. É um artista da geração
da Revolução Islâmica no seu país e um
poeta vigoroso. Fez um outro filme, em 99, Filhos do Paraíso,
um grande sucesso aqui, na onda da moda dos filmes iranianos. Mas
este de agora não tem nada a ver com modas. É de forte
poesia, uma produção extraordinária, e tem
aquela narrativa, tão rara hoje, no cinema, que a gente espera
encontrar num bom filme: uma história, qualquer história,
contada direito, com pulso e simplesmente. Só que esta é
uma parábola e uma bela história conduzida pelo menino
cego que não precisa de olhos para sentir o pulsar das maravilhas
da sua terra. (Ou a importância, até política,
do seu país?) São imagens de uma natureza magnífica,
paradisíaca mesmo, quase sempre com função
simbólica. Opulência, belezas/riquezas naturais e cenários
extraordinários, onde se expõe a pobreza dos habitantes.
Que não se engane o espectador viciado na ação
do cinema americano, aquele espectador que se sente desconfortável
com os 'tempos mortos' de alguns filmes europeus e do cinema contemplativo
vindo do Oriente. Neste 'paraíso' de Majidi, que é
externo mas que, como ele sublinha, está também dentro
da gente , _ e para descobri-lo não são necessários
nossos olhos _ há peripécias, sucessão de fatos,
surpresas, tensões, encontros, separações,
imprevistos, comédia, drama, tragédia _todos os ingredientes
de um roteiro de cinema ocidental, se não fossem os componentes
da vida. No final, e depois do paraíso ser violado, Majidi
manda o recado que pode ser o desta geração de artistas
da movida islâmica de Teerã: será preciso o
sacrifício do muito novo (crianças) e do muito velho
(idosos) para que o Irã se torne maduro, desperte e enxergue?
E quantos ainda deverão morrer para que se volte a contar
com a possibilidade, mesmo que remota, de resgatar paraísos
perdidos?
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