
A hora dos docs
Léa Maria Aarão Reis *
Há poucos meses houve uma sessão especial do filme longa metragem Devoção em um grande cinema do Rio, o Odeon, surpreendentemente superlotada. Logo depois, o mesmo documentário do diretor carioca Sergio Sanz emplacou quatro semanas em cartaz, no Rio, continuou em São Paulo, Brasília e Porto Alegre e, em seguida, foi mostrado em universidades e sessões especiais em salas dos subúrbios quase sempre acompanhado de debates. Sem dúvida, uma proeza, nesses tempos de magras platéias para filmes nacionais, principalmente porque se trata de filme brasileiro, documentário e não vem assinado por Eduardo Coutinho, o excelente documentarista e pai do filme doc brasileiro moderno, autor de obra que conta com bilheteria garantida. Devoção, o bonito trabalho de Sergio, mergulha no universo do sincretismo religioso brasileiro, sendo o palco, no caso, o Rio de Janeiro e sua legendária igreja do Convento de Santo Antonio, no centro da cidade, e os terreiros de umbanda, na Baixada Fluminense, mostrando, inclusive, um dos terreiros mais respeitados da região, o de uma francesa de meia-idade, radicada no país há décadas e mãe de santo, entrevistada no filme.
O sucesso vem não só da qualidade de Devoção como do seu tema fascinante – o sincretismo religioso e a simetria e confluência que se deram por aqui, das duas grandes religiões, a católica e a africana, ambas se interpenetrando e complementando-se com uma naturalidade única. A narrativa do filme de Sergio - diretor criado no cinema novo, assistente de direção de vários cineastas da época e filho da jornalista e atriz Luiza Barreto Leite e do crítico cinematográfico José Sanz, um mito da nossa crônica cinematográfica – é clássica; tem começo, meio, fim e privilegia os fatos e as celebrações / espetáculos de uma e de outra religião. Não se vale das estripulias dos docs à maneira de Michael Moore, hoje um estilo “original” ao qual quase se obrigam os iniciantes que se aventuram no gênero. Muita pesquisa, referências e aprofundamento são as ferramentas de que se vale Sergio.
Deste modo, esse sucesso mostra como continua a febre dos documentários. Cerca de 30 docs foram exibidos no Festival de Cinema do Rio de Janeiro, em outubro de 2008. O que mostra a vitalidade do gênero, no Brasil e lá fora, e o fato de as platéias continuarem ligadas neste tipo de filme que ou recria a realidade livremente ou é fiel a ela em todas as suas sutilezas.
Procedimento Operacional Padrão – torturas de Abu Ghraib, do americano Errol Morris, foi o doc vedete do festival. O tema é amplamente conhecido. Mostra os militares americanos humilhando e torturando presos iraquianos desde a primeira hora da invasão, logo em seguida à tomada da sinistra prisão do regime de Sadam Hussein, distante 30 quilômetros de Bagdá, quando soldados e oficiais do exército americano começaram os interrogatórios brutais aos ex-carcereiros do regime deposto. Procedimento Operacional Padrão aloca responsabilidades hierárquicas sem medo nem vergonha.
Para uma idéia da prolixidade do gênero, veja uma lista colhida meio ao acaso, de docs exibidos no mesmo Festival de Cinema do Rio de Janeiro.
Tem para todos os gostos e interesses. Chevolução, um filme feito em torno da célebre foto /ícone de Che Guevara, feita pelo cubano Alberto Korda, durante um funeral. É a foto mais reproduzida da história da fotografia, objeto comercial, de consumo monumental. O filme é da dupla Trisha Ziff e Luiz Lopes (também fotógrafo).
Uns versaram sobre Nova Orléans tomada pelas águas depois da passagem do Katrina; outros, sobre a vida de imigrantes mexicanos nos EUA. O documentário sobre para militares, forças do exército e guerrilha colombianos se confrontando (do brasileiro Estevão Ciavatta) fez sucesso. Como a vida e a obra de Diego Rivera e a vida e a obra do famoso jornalista americano Hunter S. Thompson, criador do jornalismo gonzo.
Um cartaz foi sobre a república do Mali, na África, entre os anos 50 e 70, na fase pós colonialista. Outro, mostrou as diversas comunidades de russos que não aceitam qualquer sinal da cultura ocidental em seu país (!). O caso do assassinato da irmã Dorothy, na Amazônia; as milícias africanas da república de Camarões; os partos orgásmicos, que ao invés de dor são uma possibilidade de prazer para a mulher (!), os palestinos que vivem desajustados na Inglaterra, o drama dos guerrilheiros curdos, até bandas musicais formadas por tuaregs do norte do continente africano foram temas de docs!
Outro exemplo sintomático do boom que só faz crescer é a programação dos cinemas. Apenas em uma semana estão sendo mostrados vários documentários. Panair do Brasil, de Marco Altberg é sobre a falência forçada da empresa voadora, durante a ditadura, no Brasil. Memória para Uso Diário, de Beth Formaggini, mostra a trajetória do grupo Tortura Nunca Mais, do Rio de Janeiro. Carlos Nader filmou Pan-Cinema Permanente, a vida do poeta baiano Waly Salomão. Meu Brasil, de Daniela Broitman, gaúcho, fala sobre a rotina de três líderes comunitários, em Porto Alegre.
Em uma única semana, quatro docs em cartaz no circuito comercial, alguns em cartaz há quinze, vinte dias. Sem contar os dez filmes mais antigos, sobre política e eleições no Brasil, apresentados durante a primeira quinzena de dezembro, em maratona especial, em um centro cultural, no Rio. Muda Brasil, de Oswaldo Caldeira e Velho-A História de Luiz Carlos Prestes, de Toni Ventura, são dois deles.
Como se vê, parece mesmo que a realidade não se cansa de superar a ficção no imaginário das platéias. Tem assunto para todos os gostos.
* Jornalista. Autora de Maturidade, Além da Idade do Lobo e Cada Um Envelhece como Quer (Ed. Campus-Elsevier).
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