
DORIAN GRAY: A BUSCA DA ETERNA JUVENTUDE
Maria das Graças TARGINO *
Nenhuma novidade: há livros, filmes, peças teatrais e outras mensagens que nos conduzem a leituras distintas a depender dos diferentes estágios de nossas vidas, incluindo fatos e acontecimentos, aos quais damos nova dimensão com o passar dos anos, incluindo encantamentos e dores. Tudo ganha colorido distinto com o tempo. Há, por exemplo, conteúdos que nos impactam se os digerimos na adolescência. Mais adiante, podem parecer convencionais.
Eis, então, nossas lembranças (nem boas, nem ruins, somente reminiscências) diante do livro lido às escondidas, na adolescência que se faz remota. Referimo-nos a O retrato de Dorian Gray (The picture of Dorian Gray), escrito por Oscar Wilde, dramaturgo, poeta e escritor irlandês do século XIX, homossexual, numa época histórica de mais hipocrisia social do que agora.
Nascido em 1854 numa família de classe média alta e portador de educação primorosa, como muitos homens e mulheres o fazem até os dias de hoje, para negar sua homossexualidade, casa-se e tem filhos. Quando a verdade se faz mais forte diante do fascínio exercido pelo aristocrata Lord Alfred Douglas, sua condição homossexual o leva à prisão e à conseqüente pena de dois anos de trabalhos forçados. As doenças contraídas nessa época justificam sua morte prematura com 46 anos, como homem arruinado, moral e economicamente.
De início, publicado como artigo do Lippincott's Monthly Magazine, em 1890, e depois revisto por seu autor para edição completa, no ano seguinte, pela renomada editora Ward, Lock & Co. Ltd., que, apesar de crises e mudanças de nome, sobrevive de 1852 até os tempos de hoje, sem dúvida, apesar de outras publicações (a exemplo do poema Ravenna, ganhador do prêmio Newizgate, 1878; os contos de fadas O príncipe feliz e outras histórias, 1888), O retrato de Dorian Gray é a obra-prima de Wilde. E aqui está a mudança espantosa dos tempos. À época, é ela endemoninhada, por seu conteúdo supostamente pornográfico e por simbolizar o decadentismo, movimento ocorrido ao final no século XIX, que contraria o realismo e o naturalismo, e se contrapõe à cultura vitoriana. Hoje, em pleno século XXI, O retrato... ocupa a 118ª posição na BBC's Big Read (http://www.bbc.co.uk/arts/bigread/top200.shtml), quando a British Broadcasting Corporation (BBC), a sétima mais prestigiada emissora televisiva do mundo, lista as novelas de maior aceitação entre seus cidadãos.
Na realidade, para muitos críticos literários, O retrato... reflete a existência do autor, ele mesmo vítima e algoz do jogo da sedução na vida real. De qualquer forma, livro e filme tratam de temática para lá de atual – o culto à eterna juventude e à elegia à beleza eterna. Mais às mulheres do que aos homens, cobra-se, de forma impiedosa, corpo belo e rosto sem rugas. Viver amores ou paixões, na maturidade ou na velhice, significa, inevitavelmente, tentar esconder anos vividos, marcas no corpo e na alma. As adivinhações sobre a idade pairam no ar... As plásticas à exaustão refletem o temor do enfrentamento do tempo...
E, de uma forma ou de outra, Oscar Wilde em seu O retrato... discute a “tragédia”do envelhecer. O remake do ano 2009 (a primeira filmagem data de 1945) conta a história do jovem Dorian Gray, interpretado por Ben Barnes, mais conhecido por seu trabalho em Crônicas de Nárnia: Príncipe Caspian. Ao posar como modelo para o pintor Basil Hallward (vivido na tela por Ben Chaplin), além de despertar no artista forte amor platônico, faz com que Dorian se apaixone por seu próprio esplendor. Sob a influência maléfica do aristocrata demoníaco Lord Henry Wotton (Collin Firth, de Quatro Casamentos e um Funeral), busca, de forma insana, conservar para sempre a beleza refletida em seu retrato. Em meio a orgias sem limites e sem pudor, proclama seu desejo fatídico – oferecer sua alma em troca da juventude eterna. Segue intacto às marcas do tempo, que se fazem aparecer no retrato, mantido oculto dos demais, até que desvario total se apossa de seu ser.
E como quase sempre acontece, há discussões reincidentes sobre a fidedignidade da obra escrita quando da produção cinematográfica, neste caso, sob a responsabilidade do diretor Oliver Parker, do roteirista Toby Finlay e produção da Momentum Pictures. Confirmando as premissas iniciais sobre o redimensionamento que todos imprimimos às mensagens no decorrer do tempo, confessamos, com pudor (ao contrário de Dorian Gray), que nossas lembranças eram mais coloridas do que as imagens transmitidas pelo remake norte-americano, no decorrer de seus 107 minutos de duração. Distancia-se, em demasia, da essência original do livro. Privilegia as nuances sexuais em detrimento do tormento vivido pelo jovem Dorian, vítima maior de suas próprias atrocidades e perversões!
* Jornalista e pós-doutora em jornalismo, Universidad de Salamanca / Instituto de Iberoamérica.
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