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Jose
Neumanne *
Em Campina, tudo o que há de melhor
Eu não conheço coisa melhor
no mundo (a não ser talvez arroz com ovo frito e doce de
caju) do que dançar o xote miudinho e não há
quem o dance melhor do que os pares de Campina Grande. O casal ocupa
alguns centímetros da pista, a área equivalente a
um taco, e sobre eles saracoteia, dando três pulinhos para
o lado, parando e repetindo a operação. O ritmo do
zabumba dá as ordens e é fácil segui-lo. Difícil
é encontrar o espaço equivalente a um taco nos quatro
quiosques reservados para o distinto público no Parque do
Povo nas noites frias de junho, particularmente nos fins de semana.
Difícil, uma ova! É impossível mesmo. Mas como
é bom. Viche!
Em Campina Grande se diz que o melhor São João do
mundo se dança lá. Isso não é novidade:
de tudo o que há no mundo o campinense vai sempre achar que
lá ele tem o melhor. Meu ídolo de infância,
o armador Araponga, do Campinense, nunca jogou uma partida pelo
Santos de Pelé, pelo qual fora comprado. Mas não há
criança em Campina Grande que não repita a lenda de
que ele nunca perdeu um pênalti na vida e fez uma aposta com
o próprio Rei na Vila Belmiro, batendo penais até
perder um. E foi o crioulo quem perdeu. O caboclo Araponga, que
nem em Campina nasceu, mas em Patos, o derrotou.
Na véspera de São João de 2001, antes do show,
Gilberto Gil ouviu do prefeito Cássio Cunha Lima a notícia
de que estava incentivando a retirada das placas comerciais da área
central de comércio da Rua Maciel Pinheiro e vizinhanças
porque elas escondiam o maior núcleo arquitetônico
de art deco do mundo. Gil me perguntou, incrédulo, se era
verdade. Quando Cássio já não estava mais entre
nós, lembrei-lhe que somente aquele imenso hotel de Miami
Beach é maior do que o centro de Campina Grande. Ora, ora!
Mas o São João, que não é natural da
Rainha da Borborema (como também não o são
os maiores artistas da cidade, Jackson do Pandeiro, de Alagoa Nova
e Elba Ramalho, de Conceição do Piancó), pode
ser a maior festa do mundo. Compete com o de Caruaru, no agreste
pernambucano, onde se diz que há a maior feira livre do Brasil,
quando na verdade ela fica exatamente na terra natal de Genival
Lacerda e Marinês, a voz feminina que encantava Luiz Lua Gonzaga,
o Rei do Baião. Mas aí meus amigos é discussão
pra mais de mês. E se quiser chegar a alguma conclusão
engraçada pode perguntar ao empresário Raminho da
Planalto ou Biliu de Campina, astro do forró local, de preferência
com a barriga roçando o balcão do Café São
Braz ou tomando uma fresca, aquela brisa da serra que sopra preferencialmente
nas proximidades da banca de queijos e doces de Wellington no Calçadão
ou na bodega de Seu Aluízio, no Ponto de Cem Réis.
Outro conhecedor que pode esclarecer o assunto é o Gordo,
o único mendigo em dia com a globalização planetária,
pois dispõe de um vistoso celular (só que não
o pendura numa corrente dourada como o faz Raminho) e que exige
a esmola comodamente instalado num banco de cimento em frente à
lanchonete de Henrique, onde se serve um doce que Nei Leandro nunca
comeu em Natal: cartola. São duas bananas fritas sob um naco
de queijo (de manteiga) mole com uma farofa de canela, chocolate
e açúcar esparramada por cima. Meu pai me levava para
comê-lo na lanchonete de Toinho de Mulata na Rua João
Pessoa, hoje substituída por uma prosaica loja de auto-peças.
O causídico Bega também poderá ser valioso
no esclarecimento da pendenga. Ele pode ser encontrado no restaurante
que herdou do pai, Mané da Carne do Sol, um restaurateur
que carregava a especialidade no apelido. A carne de sol também
pode ser apreciada no Campina Grill ou na Tábua de Carne,
ambos nas proximidades da estrada que segue para o Brejo.
Em qualquer desses lugares, mas principalmente nas mesas do Chope
do Alemão, onde se come de joelhos um bode guisado com cuscuz
de milho é possível se deparar com o promográfico
(promotor e gráfico) Agnelo Amorim, diretor proprietário
e redator singular do único diário que só sai
uma vez por ano: O Boi Lucas, em homenagem a um reprodutor que ficou
famoso porque foi comprado com dinheiro do Estado mas só
inseminava as reses da fazenda particular do governador que o adquiriu.
Companheiro de prosa do senador e poeta Ronaldo Cunha Lima no Miúra,
onde pontifica o garçom Espanha, Agnelo é autor do
mais curto texto bíblico que se conhece: "O Evangelho
Segundo Campina Grande": "No princípio, era o Verbo.
Aí vieram os Agras e virou verba. Mas depois chegaram os
Gaudêncios e não sobrou nada". Na manhã
seguinte à publicação da parábola, a
gráfica Santa Fé foi encontrada em pandarecos. Ao
repórter da TV Borborema, fundada por Chatô, cujo nome
lhe fora herdado de um tio esculápio que morava na cidade,
o Dr. Agnelo explicou por que sabia que não foram Agras nem
Gaudêncios que empastelaram o pasquim: "Não furtaram
nada".
É como escreveu outro poeta campinense, que também
não era de lá, Augusto dos Anjos: "Jesus não
morreu, ele vive na Serra da Borborema, no ar da minha terra".
E estão aí Ronaldo do Cata-Livro e o poeta Astier
Basílio, um Rimbaud campinense, mas sem Verlaine (e sim Nanana),
que não me deixam mentir. O velho Roldão Mangueira,
líder da seita dos Borboletas Azuis, por exemplo, cansou
de bater longos papos com o Nazareno às margens do açude
Velho no quiosque do Mc Ronald, que se gaba de ser pobre mas competir
com ninguém mais nem menos do que um ianque chamado Mc Donald.
* José Nêumanne, jornalista e escritor, é editorialista
do Jornal da Tarde e não nasceu em Campina Grande, mas em
Uiraúna, Paraíba.
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