
Europa Século 21 (III)
SOMBRAS DO PASSADO EM BERLIM
Léa Maria Aarão Reis*
Berlim é uma cidade política, diz um amigo. Tem toda razão. Vêem-se por toda parte as cicatrizes dos ferimentos deixadas pela divisão imposta pelos aliados aos seus moradores, durante a guerra fria. Trilhas que os visitantes procuram descobrir nas ruas, avenidas e praças da Berlim atual. Elas apontam, com tijolos vermelhos desenhados no meio do concreto, no chão, a dramática realidade vivida pelos berlinenses durante quase três décadas – de 1961, quando o Muro foi erguido pela República Democrática Alemã (RDA) para pôr fim ao êxodo dos habitantes do lado leste da cidade até a sua derrubada, em 1989.
Nos anos do pós-guerra os líderes do governo da República Federal da Alemanha garantiam, tentando falar grosso, que o povo alemão não seria uma moeda, uma mercadoria de troca nas negociações da guerra fria. Acabou sendo. Não só a cidade continuou dividida entre os vencedores como um muro desumano foi levantado. Agora, ele faz lembrar o muro construído na fronteira do México com os Estados Unidos. Ou o que separa os palestinos e os israelenses.
Hoje, as marcas do sofrimento do povo alemão é uma das grandes atrações turísticas de Berlim. Tudo vai se transformando, além da História, em consumo turístico. Um dia chegará a vez dos outros muros?
Em NordBanhof, a dez minutos de metrô da Alexanderplatz, um local deixa meu coração partido. O Memorial do Muro (e Centro de Documentação do Muro de Berlim), como ocorreu comigo com o Museu da Guerra Americana, em Saigon - ou Ho Chi Min City. São lugares dos mais tristes do mundo. Cenário ainda mais tocante com a chuva fina caindo e o frio de zero grau de uma tarde de outono. Lá, não há os indefectíveis camelôs vendendo bugigangas nem “pedaços do mauer” (?). Nem multidões de turistas, nem cafeteria amena para entrar e aquecer – e esquecer.
O memorial é um trecho do Muro, que está lá, intocado. Aliás, dos dois muros: o interno, do lado da ex-Alemanha oriental, a RDA, e o outro, exatamente na linha da fronteira entre ela e Berlim ocidental. Este passou para a História e ficou tristemente célebre. Entre os dois, uma desolada terra de ninguém e um cemitério berlinense, na época retalhado, túmulos violados para que passasse a linha sinuosa. Nessa terra de ninguém, centenas de pessoas morreram ao tentar fugir para o lado ocidental.
Nos placares das colunas sonoras desse memorial a céu aberto, há textos inscritos com relatos da época. Fotos dos mortos e gravações de vozes contam pungentes histórias sobre adultos e crianças assassinadas quando tentavam atravessar de um lado para o outro da cidade. O muro separou pais de filhos, idosos de suas famílias, vizinhos e amigos. Para não esquecer, lá estão as fotos da velhinha jogando-se da janela de seu apartamento e tentando ingenuamente fugir porque o edifício se situava na linha do muro. Pulou diante do batalhão de fotógrafos do mundo todo que, do lado ocidental, registravam a tragédia enquanto operários do leste emparedavam com tijolos as janelas de sua casa.
O que mais me impressiona nesse memorial é o maço de flores murchas colocadas ao pé da foto de uma moça assassinada quando tentava fugir. Quem será que leva as flores, até hoje?
Fomos embora ouvindo as vozes das gravações saindo das colunas, repetindo e repetindo as histórias mais tristes. Voltamos ao metrô e vemos as marcas nas escadas da entrada da estação então emparedada, até hoje muito modesta. No passado, NordBanhof foi uma das estações fantasmas do metrô, fechadas pela RDA.
Relembramos o nosso retorno, pelo metrô, em um carro vazio, apenas com o nosso guia peruano, da visita de algumas horas a Berlim oriental, em 1967. Passamos pelas estações fechadas e policiadas – uma visão sinistra – até chegarmos a Friedrichstrasse, onde desembarcava-se. Não longe de Bernauerstrasse, onde estamos, o Judischer Friedhof, antigo cemitério judeu, nos comove com seus túmulos cobertos de hera e folhas mortas. Ali, o tempo vai apagando, aos poucos, os nomes inscritos nas lápides. Fantasmas.
O contrário ocorre no Holocaust–Mahnmal, memorial com projeto do arquiteto americano Peter Eisenman. Inaugurado há cinco anos, também a céu aberto, mostra 2 700 estrelas de pedra negra e os nomes entalhados dos judeus assassinados nos campos de concentração.
Outra sombra paira pesada, no céu de Berlim, aquele mesmo céu de Asas do Desejo, o belo filme de Wim Wenders. Hitler é um fantasma do passado com o qual o presente ainda não ajustou contas. Talvez agora elas estejam começando. No começo deste outono, muitos turistas estrangeiros e centenas de milhares de alemães, de vários cantos do país, visitam o Deutsches Historisches Museum (Museu da História da Alemanha), na majestosa Avenida Under den Liden, construída pelo regime comunista.
A ousada mostra se chama Hitler e o Povo Alemão. Está aberta até fevereiro de 2011, mas não há cartazes nas ruas anunciando o evento histórico. É tudo discreto. Há receio, dizem, de manifestações dos neo-nazistas. Pela primeira vez depois da guerra Hitler, é exposto publicamente, e, em especial, as ligações do povo alemão, na época, com o mito do ditador. Quando foi inaugurada, a mostra ganhou a mídia do mundo inteiro. Inicialmente, seriam mostradas gravações com a voz de Hitler discursando. Houve protestos e as gravações foram retiradas. Mas filmes inéditos, fotos, vasta memorabilia, iconografia impressionante estão lá. E há comentários como este, inquietantes, mas exemplares. Valem para qualquer época e para qualquer povo: “A existência de Hitler foi possível por causa da indiferença moral da população, de uma aprovação parcial dela e do medo da truculência (do partido nazi).” O hall gigantesco de entrada e o museu que abriga a mostra são de tirar o fôlego. São de uma imponência perturbadora. É obra do arquiteto arquipremiado I.M.Pei.
Mas o mais expressivo da exposição é o dístico em uma das dezenas de capas expostas da revista Der Spiegel - :”Hitler ainda é uma sombra do passado” – acompanhada desta observação: desde os anos 80 (ele) foi capa da publicação pelo menos uma vez por ano. Do fim da guerra até hoje, Hitler esteve na capa da Der Spiegel nada menos que 46 vezes.
As seções da exposição são exemplares. Hitler e o Partido Nazista, A Transferência do Poder e a Revolução Nacional (anos 30), a Sociedade Alemã e Hitler, O Estado de Hitler (ditadura do consenso), O Poder do Führer e a Guerra de Extermínio, A Sociedade Alemã durante a Guerra, e Hitler Sem Fim.
Até o filme de Chaplin O Grande Ditador é apresentado em um monitor. Os estrangeiros param diante e riem. Os visitantes alemães nem tanto. No catálogo da mostra, novas observações inquietantes: “As gerações alemãs do pós-guerra são forçadas a se perguntar - como foi possível existir o fenômeno Hitler?.. (Ele) continua a exercer seu poder perverso e seu fascínio...A dissociação política com o partido nazista do passado é um componente fundamental da nossa cultura política... Mas agora estamos próximos de encerrar (a relação) com Hitler.”
Que o fantasma seja exorcizado de vez.
* Jornalista. Autora de Maturidade, Além da idade do Lobo e cada um envelhece como quer (e como pode)
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