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A crônica nossa de cada dia. Por Maria das Graças Targino.
A silhueta. De Celso Japiassu.
Um traço desenhado pelo vento. De Celso Japiassu.
A menina que roubava livos. Por Maria das Graças Targino.
20 contos curtos de Paulo Maldonado.
4 Poemas de Carlos Alberto Jales.
Retorno. De Celso Japiassu.
Infância. De Paulo Mendes Campos.
Talento não é direito divino. Por Aline Santos.
Quatro novos poemas de Carlos Alberto Jales.
A morte de um pensador. Por Carlos Alberto Jales.
Moacir Japiassu: entrevista sobre o novo livro.
Quem será o tal Nonô? Crônica do novo livro de Moacir Japiassu.
Sonha, de Celso Japiassu.
Vidas, de Celso Japiassu.
As Pelejas de Ojuara, entrevista com Nei Leandro de Castro.
Copacabana: poemas reunidos. De Celso Japiassu.
Dezessete Poemas Noturnos. Celso Japiassu
O Itinerário dos Emigrantes, de CelsoJapiassu.
O Último Número, de Celso Japiassu.
Os Horrores do Mundo. Por Clemente Rosas Ribeiro.
Alguns poemas de Carlos Alberto Jales.
Moacir Japiassu fala sobre seu novo livro: Quando Alegre Partiste.
O Evangelho segundo Jesus Cristo. Por Maria das Graças Targino.
Beócio, mentecapto e troglodita. Por Cláudio José Lopes Rodrigues.
Memórias do nosso tempo: De poetas, estrelas e flores. Por Clemente Rosas.
Dois contos do carnaval. Ângela Belmiro.
Obrigado, Quintanilha. Conto de Paulo Maldonado.
Um poema de Antonio Cisneros.
Cristo diante de Pilatos. Por Eça de Queiroz.
Poemas traduzidos: poetas de todos os tempos e lugares.
O Silêncio do Delator, de José Nêumanne.
As Dunas Vermelhas, de Nei Leandro de Castro. Resenha de Moacy Cirne.
Três poetas, o amor e o tempo.
Equívocos literários: poemas falsos de Brecht, Borges e Garcia Marquez.
Seis novos poemas de Nei Leandro de Castro.
Especial para Uma Coisa e Outra:Borges e seus mistérios, ensaio de José Nêumanne Pinto.
Como uivar para a lua sem a menor possibilidade de estrelas. Antonio Torres.
Alguns poemas de Fabricio Carpinejar.
Cinco céus. Franklin Alves.
Franklin Alves. Novos poemas.
As supresas do novo romance de Moacir Japiassu, por Nei Duclós.
Ode ao Fígado, de Pablo Neruda.
Entrevista: Moacir Japiassu fala sobre seu novo livro.
A biblioteca da literatura mundial.
O Parque, de Carlos Tavares.
Corpo. Conto de Rui Alão.
Notas de um antropólogo cansado, por Rui Alão.
Voltas em volta dos contratos de amor, de Pedro Galvão.
Corpo invisível, poema de Carlos Tavares.
Quando a cidade faz esquina com a escrita. Antonio Torres.
Dois contos de Paulo Maldonado.
Prelúdio a Conessa. Conto inédito de Carlos Tavares
Outros poemas de Marilda Soares.
O Farol e a Ilha, conto inédito de Carlos Tavares.
Poemas inéditos de Marilda Soares.
Adagio Negro, um conto de Carlos Tavares.
Marcos de Castro e A Santa do Cabaré.
Almandrade: um poema visual e quatro poemas escritos.
Literatura polonesa: um classico de Boleslaw Prus, numa tradução de Ruy Bello.
Em tradução de Sebastião Uchoa Leite, um velho (novo) poema de François Villon.
O que fazer diante de tantos livros que teríamos de ler. Gabriel Zaid.
Poemas de Moacy Cirne, poeta e cangaceiro.
Dois contos do poeta R. Leontino Filho.
Leontino Filho: Cinco Poemas.
Erotismo e paixão: Cinco Sentidos, conto de Helena Barreto.
A Retratista, conto de Bill Falcão.
Um poema de Rodrigo Souza Leão: Clarice Chopin.
Poemas de Silvana Guimarães.
A orelha de A Santa do Cabaré, por Fábio Lucas.
Fotopoemas de Niterói. Luís Sérgio dos Santos.
O Olhar de Borges, Livro dos Amores. Poemas de Jaime Vaz Brasil.
Poemas de Eric Ponty.
Poemas de Ana Merij.
A Absolvição das Formigas. Eduardo Ramos, à moda de José Saramago .
Quanta confusão fazem em teu nome, poesia. Paulo Maldonado.
Na espera do amanhã, por Affonso Romano de Sant'Anna
O pior livro de todos os tempos, por Sergio Jedi
Três poetas de língua espanhola. Traduções e notas de Anibal Beça.
Anibal Beça, poeta amazônico: apresentação e a Suíte para os Habitantes da Noite.
Autobiografia da minha morte, por Jorge Vismara.
Os homens amam a guerra. Belíssimo poema de Affonso Romano
de Sant'Anna com traduções de
Fred Ellison e Nahuel Santana.
Quatro poemas de
José Nêumanne Pinto.
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SUÍTE PARA OS HABITANTES DA NOITE
(1994)
- Vencedor do VI Prêmio
Nestlé de Literatura Brasileira -
(Excertos)
Anibal Beça
"Quem viu consolador gentil como
a flauta?
A flauta conta a história do caminho, manchado de sangue
de amor.
Conta a história das penas de amor de Majnun.*
(,,,) Toda noite, espíritos são libertados dessa jaula,
E tornados livres, sem comandar nem ser comandados.
De noite, o prisioneiro não tem consciência de sua
prisão,
De noite o rei não tem consciência de sua majestade.
(...) O Califa disse a Laila (noite): "Tu és realmente
aquela
Por quem Majnun perdeu a cabeça e a razão?
Tu não és mais bela do que muitas outras."
Ela respondeu: "Cala-te, tu não és Majnun!
Se tivesses os olhos de Majnun,
Tua visão abarcaria os dois mundos.
Tu estás em teu juízo, mas Majnun tem o seu perdido.
Quando se está apaixonado, estar desperto é traição."
JALLUDIN RUMI
* Majnun: o célebre "louco"de amor da literatura
persa e árabe.
Impedido de ver sua amada Laila (noite), abandona as riqueza
e o mundo para vagar sozinho no deserto entre as feras.
PRÓLOGO
Cavo a cova como um cavalo os cascos cava
se no cavá-lo invoca a fúria de ferir
E tanto mais se cava que a alma não se lava
e as águas já me levam léguas a fingir
Cava costura cavo à cava enviesada
e o talhe tinge a sombra em descaída pena
Nessa escritura a sina foge desgarrada
e o corte torce a mão e a garra do poema
E dono não sou mais senão o torto artífice
dessas linhas traçadas a dois e por um
E assim me assino esse uno e esse outro Majnun
que por louca paixão da noite é seu partícipe
mesmo sem Laila veste a dor e se vislumbra
nos lobos do deserto donos da penumbra
ABERTURA
Chorinho para bandolim,
cavaquinho, flautas e violões
Vontade
essa intenção de músculos da memória
empurra-me a compor um canto
feito de música e melodia tensas
pousada em 5 linhas
tisnada em 5 notas:
NOITE
na pauta da
palavra
para a celebração do escuro
avesso
com suas pegadas de sombra
nossos acidentes passados pela clar(a)idade
sustenidos de um sol
presente distante
difuso
com seu cocar de setas luminosas
atiradas contra nossas chagas
essas feridas sempre abertas
onde todas as noites
vêm se alimentar
pássaros feitos de cinza
com seus bicos aduncos
noite a noite
reduto inviolável de todos os retornos
Fênix Fênix
ó águia noturna
companheira dos caminhantes sem pouso
dos andarilhos sem rumo definido
caminha/dores de angústias definitivas
Eu te celebro como teu irmão
cravando minha adaga nessas páginas
meu sangue nesta partitura
tinta rubra
rio de linfa dessa escritura
sextante tatuado na pele
a me salvar dos penedos
rochas orientais
ninho de tontas gaivotas
mar salgado
de salamandras e morcegos
Mar da Noite! Mar da Noite!
Mar dos notívagos Mar de todos
Dança
meu alimento
II
Valsa brasileira para sanfona e cordas
A noite chegara dura
Do que fora granito
apenas o rescaldo da cor
Preta é a solidão
sem sapatos:
átrio franciscano
alma de cilício
oferenda pedra
o gasto caminhar
pés descalços
Quem da noite
atira-se pedra?
A seta do tempo
abre-se em comportas
ao vento
Nada se fecha
nesse abrir
a alma enferrujada
Trinco não há
que comporte
essa porta
Hora Sol
ampulheta
chave
A humildade escorre
rio
na saliva do céu
sereno
À noite
todos os homens são puros
esquecidos do dia
Quem da noite
atira-se palavra?
A fala articulada
gagueja no orvalho
barro relva
merejando a noite
presa do suor
o púcaro
articula-se na argila:
exercício de arco
curva dos ventos
touceira retorcida
Hera Alma
colinas do interior
madressilvas
verde
Um passarinho
soluça na madrugada
asas penas
anjo canoro
em guarda
no canto
Flauta trespassada
o coração geme
A noite rumina um tempo lerdo
cativa do vento
A noite e sua negra
epiderme
A noite e seu esqueleto
de sombras
A noite e sua fala
obscura
III
Lundu para solo de voz e coro a capela
Reparto meu sono
muito além do orvalho
sonho em gomos de silêncio
submersa serenidade
mar de afogados
Silêncio Mudo
sem desespero
(enquanto madrigal azul)
Silêncio de faca
e
sua assepsia de prata
atiro-me
para o lado cego da lâmina
Tarântula tateando
o alcance de braços
Atada Teia
A Noite
é um fruto ácido
cítrico
amargo
afogada no fôlego
presa de presságios
A cada naco arrancado
mil olhos se abrem
na sua mudez
para uma arena atenta
Panopticon Panopticon
O observador e o observado
se vigiam
platéia ribalta
o olho que vê
Onipotência Onipresença
violado
nu
Descubro nesse mar
nunca estar só
Invisto no canto
a pausa do silêncio
A solidão é um prêmio
neste ofício
solitário
Os olhos marinhos
ainda não aprenderam
a falar
mas se fazem afiados
volam voláteis
conchas anêmonas ouriços
taciturnas pestanas
fio de navalha
O sonho se alarga
e emerge
alagando a cidadela
rangem ruídos
grinaldas
dentadas
A urbe se mastiga
se come
loba de si mesma
Um rio negro lava minha aldeia
leva meu silêncio
Tanino Tânatos
vomito a província
loucura verde
selva selvaggia
Bílis
IV
Serenata em tom de berceuse
As províncias são iguais
até nas suas amarguras
uma igualdade de festa na morbidez dos seus ritos
Uma sanha de sanhaço
Uma gana dissecada
(num estilete macio)
Uma calúnia rascante
(como um vinho espesso e tinto)
mas doce na sua sangria
e de vinho fermentado o salitre do seu caldo
servido aos filhos da tribo
como se fosse um pássaro
regurgitando
a
co
mi
da
V
Toada de Boi-Bumbá
com marcação de taquinhos
de madeira (palminhas)
Para ali se tocarem
vento e bocas seladas
num pacto de assovio
a melodia silva
a furtiva alameda
na almádena da Noite
A cidade de costas
não cogita do sonho
das pálpebras do rio
Águas da noite rasa
água alcatifa negra
a cidade de costas
De costas aparente
Parêntesis nos olhos
não venda sua língua
aberta clara e lânguida
Como se um rio lambido
amantes afogasse
Como se um rio fendido
banhasse uma só banda
um outro de um só lado
gaivota banda-de-asa
o vôo de um olho só
socó-bacurau cego
a cidade e o rio negro
Um namoro ao avesso
nos dois corpos de costas
Sucede minha amada
do novelo e das mãos
no comando do rio
Há também um rio outro
rio de casas caídas
rangendo junto a moinhos
regendo águas presentes
calendário cariado
nos dentes de morcegos
Ainda assim amada
nem Dante ou Beatriz
navegaram Caronte
Barco sem barqueiro
à deriva desse rio
de arrepios remotos
de remos levantados
asas de marimbondos
anjos de suas cabas
Certo que nesse rio
há um banzeiro de sombras
chapéu de nuvens no sol
Mas nada que escureça
nosso desejo amada
o sol dessa fogueira
Nessas águas amada
fundeio a fundo a trégua
do que restou de ausência
De frente para os ventos
travo de claridade
trina a flauta do espelho
uma canção longínqüa
Sou chuva amanhecendo
relva molhada amada
A vida refletida
a que não foi e se ia
nuvem de passarinho
A que passou veloz
cantaria de andar
perdeu-se alimária
caminha a dor nos pés
Ali Maria canta
o cio da cotovia
Mais adiante zomba
Zenaide sempre a última
a que nunca existiu
mas sabe do alfabeto
sedento nominando
o cheiro dos lençóis
Havia ainda a lua
cofre de labaredas
tição de minarete
Não sabendo de mim
Cid era meu galope
no canteiro das fêmeas
Ay Baeza de los lobos
xoiva en la descendencia
ai-auga de los ojos
No roçagar dos pêlos
estrada de faíscas
as formigas na pele
atendem pelo nome
pelo sinal do sexo
alfazema na senda
crespa eletricidade
atiçando os músculos
ciosa de tensão
O floco ge(r)minado
mana-se em dois cristais:
um rio lava meus olhos
e o encaro de frente
Plumas varrem meu rosto
e a poeira do alforje
Nas costas desse rio
um solo de assovio
já não urra sussurra
A cidade de costas
aberta para os peixes
VI
Em tom de old-blues para piano, sax
contrabaixo, guitarra e bateria
Quem saberia de mim
se me visse assim como estou
rendido ao aço das manhãs
pastoreando esse meu cão
por essas ruas tão tranqüilas
Que gemelar seria eu
linha parelela da vida
e tão parelha dessas ruas
fagulha dupla de mão única
bifurcada e sem retorno
nos afazeres do meu sonho
Em mim eu sou o que não fui
comigo fui o que não era
o derrotado nominado
o nominado vencedor
e resta só o testemunho
do cão que me acompanha agora
e dessas ruas que me sabem antes
VII
Toada para solo de ocarina
Fio tênue do céu em claridade
tece esse manto gris meu agasalho
colhido pelos muros da cidade:
mucosa verde musgo que se espalha
como tapete denso em chão de jade
Meus pés de crivo cravam esse atalho
riscando seu grafite no mar que arde
o fogo-de-santelmo em céu talhado
Nesse caminho caio em minha sina
caio no mar que lava essa lavoura
num barco ébrio que sempre desafina
E colho o sal da noite a lua moura
crescente luz de foice me assassina
e me morro no haxixe com Rimbaud
VIII
Joropo para timples e harpa
Em duas asas prontas para o vôo
assim se foi em par a minha vida
e com rilhar de dentes me perdôo
trilhando as horas nuas na medida
Bilros tecendo rendas amarelas
bordando em vão um tempo já remoto
no sol dos girassóis da cidadela
canto um recanto que me faz devoto
A dor que existe em mim raiz que medra
no rastro mais sombrio as minhas luas
talvez não fora Sísifo ou a pedra
que encontro todo dia pelas ruas
ao revirar as heras nessa redra
trilhando na medida as horas nuas
IX
Czardas para serrotes com arcos de violino
e berimbau de lata
Esta anábase é de hora aberta desnudada
tão desmedida como foi a minha vida
de nada me arrependo apenas me perdôo
por que meu vôo nem sequer se iniciou
E dessas nuvens que me espaçam esgarçadas
trapos e cordas dissonantes dessa lira
são acidentes de percurso em que recorro
como um Zenão o parafuso desse vôo
Assim nessa colméia em ziper me percorro
como um zangão no zigue-zague nos hexágonos
ando à procura de uma abelha desvairada
que me acompanhe na aventura pelos pântanos
exorcizando a desrazão desses escorços
essa não-ave desgarrada do meu nada
X
Merengue com realce
para bongôs, congas e metais
Essa noite me agasalha
dessa boca às escancaras
com seu manto de cimalha
palha-de-aço e maravalhas
me agasalha desse frio
afiado no esmeril
Cortante dessas aparas
o vento lamina as caras
cicatrizes que me enfeitam
das rugas que não suspeitam
do rosto penso na noite
olheiras do seu azougue
Desse rio já sou carranca
do medo que não me arranca
raiz de árvore de sombras
presa à noite e sua alfombra
Som de canto de cristal
água corrente de sal
que me leva à noite moura
presto ao ópio das papoulas
Laila Laila que me entrego
aos encantos como um cego
(como o poeta da Pérsia
Majnun de rima néscia)
Do meu mal que me perdoa
no grau comum de pessoa
Laila Laila meu esteio
que me abriga sem receio
que me sabe sem enganos
lambendo todos os danos
dos meus escritos diversos
mesmo os de sons adversos
Sei da Morte e seu instante
sei-me da Noite habitante
Sei por sentir o sentido
pela música do ouvido
Sei mais - profeta à frente
sei da noite e sua gente
Sei da voz e da palavra
e do sonho que azinhavra
o livro da sua escória
os anjos dessa história
XI
Rasqueado de galope à moda
da viola de dez cordas
A noite e seu rosto
de treva
Quem da noite atira-se puro?
No meio do caminho
medra uma orquídea
No meio da noite
nomeio-te pedra
Épura
Narciso & Sísifo
esparramados
num grão de arroz
O sêmen da lua
borrifa canteiros
lírios belas-da noite
tas
vôo bor le
de bo
Um campo de grama
planta-se no costado de sarnas
e o velho cachorro
já não uiva para a lua
Sem embargo
vira latas de estrelas
e o lixo estelar
brilha seu alumínio
breve pirilampo
aceso
no asfalto
INTERMEZZO
XII
Zarzuela cigana para rabeca, guizos,
pandeiros e violões
O cão da caravana acoita sarnas
pelos pêlos tragados de suor
que encarnam carnaduras já de cor
na salteada costa descarnada
O cão da caravana esconde as armas
o fogo e a cinza dessa cauda cor-
rente ao dorso de estrelas apagadas
se acendem cimitarras para a dor
Ao relho e aos ossos pó entre mil noites
dita a desdita escrita: Maktub!
E o cão se assenta dócil para o açoite
Mas lhe aguarda a tarefa de quem ladra
e exorcisa a baraka dos impuros
enquanto a vida caravana passa
XIII
Ária para tenorino e flautim
O gato aparece à noite
com seu esquivo silêncio
de passos bem calculados
num jogo de paciência
as garras bem recolhidas
na concha de suas patas
O gato passeia a noite
com seu manto de togado
como se fosse um juiz
de presas resignadas
a sua sentença de sombras
seu apetite de gula
O gato varre essa noite
facho de suas vassouras
vermelhas de olhos ariscos
E alcança nessa limpeza
o movimento mais presto
o guincho mais desouvido
Mais que perfeito no bote
(tal qual Mistoffelees de Eliot)
do pulo que nunca ensina
tombam baratas besouros
peixes de aquário catitas
ao paladar sibarita
Nada à noite falta ao gato
nem a presteza no salto
nem a elegância completa
do seu traje de veludo
para o baile dos telhados
roçando as fêmeas no cio
O gato é ato em seu salto
e a noite luz do seu palco
ribalta luciferina
lunária aria da lua
na réstia de seus dois gozos
é felix feliz felino
Guardei a sétima estrofe
para o canto do mistério
das sete vidas do gato
e seu tapete aziago
nas noites de sexta-feira
há provas do seu estrago
XIV
Carimbó para gambás,
tambor de onça e clarineta
Meu galo se alaga
no lago da noite
meu galo de gala
meu galo do sonho
meu galo guerreiro
pousado de pé
de bico calado
a crista arriada
repousa o guerreiro
caído num galho
sonhando com luzes
de novas ribaltas
batalhas em rinhas
duelos de faca
em campos de liça
torneio de canto
e trompas de caça
Um sonho de nobre
de porte imponente
nos trajes lustrosos
um sonho de imagens
um sonho de vozes
de galo burgês
Seu sono é calado
nem ronco se dá
mas muito falante
no sonho sonhado
dos feitos passados
colar de vitórias
no seu calendário
derrotas não há.
No sonho falante
o velho gogó
do seu velho avô
cantou em pelejas
com Napoleão
Mas não foi à Rússia
(estava gripado)
nem a Waterloo
(alérgico ao fog)
Como bom francês
seu pai entoou
com muita firmeza
- herói da bastilha -
marcha marselhesa
E com seu bodoque
de bom falastrão
o sonho se atira
pedra vaidosa
num toque de mimo
ao galo Le coq
Esse galo símbolo
do orgulho francês
e do alto do cimo
meu galo de gala
diz-que era seu primo.
O que negou Cristo
ao lado de Pedro
não era parente
nem de afinidade
Mas foi Don Juan
salvo por seu tio
numa madrugada
em Andaluzia
Meu galo de gala
de tanto sonhar
se afoga no sonho
Súbito uma gota
de orvalho raiada
cai-lhe sobre os olhos
regando de novo
a eterna tarefa
a simples tarefa
pedrez carijó
de galo operário
acordando o dia
de clara beleza
na festa do sol
Eis meu galo velho
nobre por ser simples
este sim meu galo
galo garnizé
tão esganiçado
querido de guerra
que come minhocas
que cisca o terreiro
que cobre as galinhas
que canta em tom forte
alegre em ser galo
galo simplesmente
o pai-de-chiqueiro
o galo do dia
o galo da tarde
o galo da noite
galo madrugada
O galo de gala
de sonho afetado
tão aristocrátrico
nunca foi nem será
meu galo de fato
que fique bem claro
com toda certeza
o galo de gala
de penas de arminho
deve de ser sempre
galo de direito
galo do vizinho
Ainda que meu galo
galo do meu sonho
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